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Uma questão de confiança

People are lining in grocery stores
Silence is screaming the fear in their hearts
Don’t give up your faith, no, don’t let your light fade
Together we’ll get through the dark of these days

Andrà tutto bene
Vai ficar tudo bem

Estas palavras, cantadas por Cristóvan, em Março de 2020, tornam difícil imaginar que após toda esta longa vivência de medo, incerteza, isolamento social e restrição da liberdade, haveria pessoas a recusar usufruir da única solução que nos pode livrar do perigo da doença e da morte, e devolver a proximidade física e a liberdade nas nossas vidas – as vacinas!

Para melhor compreendermos este fenómeno talvez valha a pena olhar a recusa das vacinas como um comportamento/sintoma que esconde diferentes motivações/problemáticas, mais ou menos conscientes… 

Poderá ser um desinteresse, como eventualmente no caso dos jovens que marcaram a vacina e não apareceram. Sabendo que correm menos riscos de adoecer gravemente, talvez tenham preferido ir passar o dia à praia em vez de esperarem numa fila para apanharem uma “pica.” Talvez vivam centrados em si mesmos e não se preocupem com a “imunidade de grupo”, esquecendo-se que enquanto houver muita gente não vacinada, o bicho vai continuar a inventar novas variantes, e que algumas poderão vir a ser mais perigosas…

Mas parece-me que a razão mais comum para a não vacinação será uma recusa, motivada ora por uma necessidade de oposição às autoridades sanitárias, o que revela uma vivência da toma da vacina como uma imposição autoritária em vez de uma ajuda benéfica (com o que isso poderá significar sobre a relação inconsciente com as figuras de autoridade), ora por medo

É sobre este último que gostaria de refletir aqui, sendo para isso necessário distinguir os diferentes medos. 

Situando-os num continuum, num extremo estaria o medo-paranoia, ligado aos movimentos anti-vax, que leva o indivíduo a recusar a evidência científica, e a imaginar que a vacina está cheia de coisas más capazes de danificar a saúde, como é o caso de uma mulher que afirmava convictamente: “As células do meu corpo dizem-me para não tomar“.  As células da “mente emocional”, diria eu… 
É também aqui que parecem situar-se as pessoas que não confiaram nas medidas sanitárias e que desenvolveram teorias da conspiração.

No outro extremo do medo, temos o medo-insegurança“Talvez eles estejam enganados…”. Aqui o outro não é malvado e ameaçador, mas incapaz, com falhas, e em quem o sujeito receia confiar. Ao contrário do medo-paranoia, cheio de certezas que levam a atitudes fundamentalistas, é um medo ligado à dúvida, reconhecido e consciente ao próprio, atestando um maior contacto com a realidade psíquica (mesmo não sabendo as suas causas mais profundas), o que remete para uma versão menos patológica do problema.

Ultimamente tenho-me cruzado com algumas pessoas – no consultório e nas relações sociais – que receiam a vacina, e adiam a toma da mesma, tendo a respetiva justificação sempre contornos semelhantes: “Não confio, tenho medo que me faça mal, foi testada durante pouco tempo…

E também já percebi que responder a estes receios recorrendo a factos objetivos – (1) o rigor da prova da realidade da ciência, (2) a forma como a utilização do RNA em vacinas já vinha sendo investigada há vários anos, (3) a justificação do seu rápido aparecimento com o facto de o mundo inteiro se ter movido para investigar e investir na construção de uma vacina altamente eficaz, (4) as atuais provas empíricas, em milhões de pessoas, relativas aos benefícios da vacinação – não parece produzir qualquer efeito psicológico tranquilizante.

Sabemos que quando o medo se estabelece ao nível do “fantasma inconsciente” – um medo de ordem emocional, sem razões da realidade que o justifiquem (como acontece nas fobias em geral) – não vale a pena tentar demovê-lo com argumentos da realidade. Assim parece ser aqui também o caso: “Pois… mas não sei explicar, algo me diz para não tomar a vacina…” Não será esse “algo” justamente o fantasma inconsciente?

A essas pessoas tenho vontade de repetir o lema desta pandemia “Vai ficar tudo bem”, rapidamente generalizado, embora talvez sem uma clara consciência do significado emocional que ele contém: 

“Vai ficar tudo bem” é aquilo que dizemos ao outro para lhe transmitir confiança perante um futuro incerto. Por isso foi cantado (“quem canta seu mal espanta…”) e sofreu um contágio viral contra a ameaça de uma pandemia desconhecida.

“Vai ficar tudo bem” é o que diz a mãe ao seu filho. 
Quando ele é muito pequenino e aparece com um inesperado “dói-dói” no joelho. A mãe dá um beijo na ferida como quem diz: “Vai passar porque eu estou aqui e o meu beijo é mágico”. E a dor (mental) desaparece, embora a ferida continue exatamente como estava. 

Mais tarde a criança poderá dizer: “Mãe, tenho medo de não fazer amigos na nova escola…”“Vai correr tudo bem”, responde a mãe, que traduzindo: “Tu és tão especial que de certeza as outras crianças irão gostar de ti, como eu gosto…” 

E, mais tarde ainda, o adolescente poderá dizer: “Mãe, tenho medo dos exames…”.  “Vai correr tudo bem”, responde ela (“porque eu confio em ti, e sei que vais conseguir…”)

Portanto o “Vai ficar tudo bem” é uma mensagem simultaneamente de amor e de confiança: “eu estou aqui para te ajudar se algo não correr bem, e confio nas tuas capacidades para resolver o problema”.

Pergunto-me se não é justamente isso que falha no medo das vacinas, se na sua base não existirá uma falta de confiança básica (Balint, 1968/1993)* na relação com o outro a um nível muito profundo e ligado a experiências traumáticas infantis.

Uma paciente minha**, depois de ter marcado a vacina, diz-me que está cheia de medo:
Paciente – “Eu sei que é completamente irracional… Não sei explicar… É algo que não conheço e que vai entrar no meu corpo…”.
Analista – “Então e o vírus? Parece que não tem tido muito medo que ele entre no seu corpo…”. 
Paciente – “Sim, acho que tenho mais medo dos humanos do que dos vírus…”

E recorda quando, há uns anos, teve uma apendicite: “Estava em pânico, tive mais medo de ser operada no Hospital, e de morrer, do que da dor… “

Analista – Parece ser o medo da ação humana, da sua falha. Tal como no seu pânico em andar de avião possivelmente receia que uma falha do piloto o (a) faça cair…”
Paciente – “Sim… Mas estranhamente, quando entro no avião e sinto que lá está alguém acolhedor – uma hospedeira querida, por exemplo – o medo desaparece… “.

Talvez Cristóvan não se importe que eu altere agora a sua quadra:

People are lining in vacination centers
Silence is screaming the hope in their hearts
Don’t give up your faith, believe in science and Mankind
Together we’ll have our old life and freedom again

Go on your holidays
Be happy and safe
Hold tight to your friends
Vai ficar tudo bem…

 Até Setembro!

*Balint, M. (1993). A falha básica: Aspectos terapêuticos da regressão. Porto Alegre, RS: Artes Médicas. (Originalmente publicado em 1968). 

** Os elementos clínicos aqui apresentados foram previamente submetidos à autorização da paciente. 

Imagem: da autora