Publicado em

Um regresso a casa – com Christopher Bollas em Paris

Ah
não me venham dizer
oh
não quero saber
ah
quem me dera esquecer


Só e incerto é que o poema é aberto
e a Palavra flui inesgotável!

Mário Cesariny

Longe de estar familiarizado com toda a metapsicologia de Christopher Bollas, ou sequer com a sua maior parte, tinha tido contacto apenas com alguns conceitos e implicações técnicas, que haviam despertado em mim a curiosidade suficiente para nunca mais o largar. Para lá dos conceitos, foi-se tornando cada vez mais habitual cruzar-nos com referências ao seu pensamento no trabalho de outros, que por vezes me pareciam introduzidas como se de um selo de garantia de novidade e consistência das próprias ideias que propunham, se tratasse. Mas quem era e o que trazia realmente esse C. Bollas, que unia em si autores de proveniências teóricas tão diversas e nalguns casos, cujas contendas inflamadas entre si tantas vezes nos habituámos a presenciar? 

Foi neste pano de fundo que recebi a informação por parte da IPSO internacional, de que estava a ser organizado na Sociedade Psicanalítica de Paris, um encontro com Christopher Bollas, nos dias 16 a 18 de Novembro de 2018, ao qual desde logo pensei que jamais poderia faltar.

A prontidão com que iniciei a minha demanda, invocou em mim a imagem próxima da busca pelo contacto raro com um “rock star”, Bollas era o “rock star” da psicanálise actual, sinónimo de originalidade e de consensual e absoluta inovação, que acima de que tudo procurava. 

O que nos trouxe Bollas a Paris? Trouxe-nos Freud. Um Freud, não o da teoria pulsional, do recalcamento, do modelo topográfico ou do estrutural, onde tantas vezes sentimos que foi aprisionado, mas um Freud da verdadeira criatividade do pensamento inconsciente, aquele que desde o principio dos tempos recebe, organiza e combina a nossa experiência numa infinitude de ligações criativas, e através das quais constantemente nos pensa e nos recria. Noite após noite, em cada sonho, dia após dia. Um Freud do inconsciente, que a Psicanálise não inventou, mas sempre que não lhe resistiu ou resiste ainda, se tornou próxima e sua companheira. A psicanálise do detalhe, do quotidiano, do banal, aí mesmo onde todo o pensamento inconsciente se liga e comunica, e que só o inconsciente de um outro pode verdadeiramente receber, com a emoção da surpresa como sua testemunha. A associação é livre, a do inconsciente pelo menos é, fluindo ao ritmo de sequências infinitas; as grandes abstracções e explicações, os grandes resumos que fazemos da vida dos outros, ou os outros da nossa, esses são outra coisa, apesar de tantas vezes até bastante impressionantes.

Ao contactar, e receber por meios e formas que nunca saberei, o que Bollas comunicou enquanto falava nesses dias, surgiu-me a imagem longínqua da primeira vez que me deparei com a imagem do “iceberg” da primeira tópica de Freud, com a sua descomunal base submersa, pela qual me senti praticamente fulminado nesse dia… o mesmo espanto, o mesmo mistério. Uma segunda imagem irrompeu, a de quando pela primeira vez me imaginei junto de um outro, que fosse capaz de escutar aquilo em mim que sabia não estar escrito em lugar algum, um outro suficientemente paciente para se poder dedicar a aprender a minha “língua nativa”, um outro de quem precisava para eu próprio a poder escrever… e quem sabe, talvez num dia futuro, poder vir a aprender a “língua” irrepetível de outros também… uma vez mais, o mesmo desejo, a mesma esperança, o mesmo assombro.

De entre o que ficou do encontro com Bollas, e do que tenho possibilidade de saber, uma certeza fica, a de que independentemente dos modelos teóricos que mais ou menos apaixonada e defensivamente possamos usar e aderir – essa fonte inesgotável de conhecimento e criatividade que nos habita, lugar das mais decisivas questões sobre quem somos, segue ininterruptamente o seu curso… a psicanálise está ainda, para bem de todos, nos seus primórdios, e citando Bollas, “there is more to be learned from it than we ever imagined”.

Poema: Mário Cesariny, 1991: Migração, in Nobilíssima visão, Assírio e Alvim

Imagem: Andy Ward para o livro: “The Infinite Question”, Christopher Bollas, Routledge (2009)