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Um olhar sobre a Psicose

Tendo nascido em Alvalade – um bairro de lisboa – cedo contatei com doentes do Hospital Júlio de Matos, senhores estranhos de aspeto descuidado vagueando pelas ruas. Alguns evocavam em mim temor e sobressalto. Mas este mistério humano da loucura fascinava-me. 

Anos mais tarde integrei uma equipa comunitária que, através de atividades culturais – Teatro, Música, Artes Plásticas, Literatura, Visitas Culturais – procurava apoiar pessoas com um diagnóstico de esquizofrenia, criando contextos que as estimulassem a sentirem-se vivas e a dar sentido às suas vidas. Desde cedo senti que era necessário estar disponível como homem para criar relações com os utentes. Interessar-me pelas suas histórias de vida, respeitar as suas dificuldades, escutar a forma como têm ultrapassado os obstáculos. O olhar que temos face a um sujeito psicótico é de grande importância. A minha experiência tem-me mostrado como é importante termos um olhar direto, não intrusivo, mas disponível e acolhedor. Sem receios. Um olhar que exprima algo benigno. Como dissesse, “Estou disponível e curioso para viajar consigo.”  

Tal como Francisco Alvim dizia,” …reconhecer que por mais morto que nos pareça o sujeito pelo seu adoecer psíquico, essa morte é ainda expressão da sua vida: talvez uma “estranha forma de vida, mas aquela que foi possível.” Esta atitude de respeito cria confiança nos utentes para partilharem os seus mundos. Lembro com particular afecto o meu primeiro dia na comunidade, com dois utentes com esquizofrenia, em que um deles me perguntou: “Dr, acha que vamos conseguir?” E o António, homem com uma expressão dura e envelhecida – dizia ter dado 10 milhões de euros para construir Lisboa, – ter saído a correr com os olhos cheios de lágrimas no final do filme “Luzes da Cidade” de Charles Chaplin. E o Rui que, após o suicídio de um amigo, lamentava comovido o facto de não ter feito tudo para impedir aquela morte. Foram experiências como estas que me fizeram acreditar que qualquer sujeito psicótico tem igualmente um lado mais saudável.

A noção de que os delírios são muitas vezes vitais para a sobrevivência psíquica ajudou-me a sentir empatia por vários utentes. Como diz Badaracco, “…o eu psicótico tenta construir um mundo próprio para poder sobreviver.” O mundo delirante funciona assim como um refúgio contra ansiedades catastróficas. Desta forma, será muito importante a forma como escutamos os delírios dos pacientes, até porque segundo Badaracco “Há aspetos saudáveis incluídos nos sintomas psicóticos que têm de se reconhecer para que exista uma verdadeira reparação.” Lembro-me de um jovem psicótico que estava muito confuso e ansioso e pediu-me ajuda para o aconselhar a dar um rumo à sua vida. Depois de uma conversa demorada, rejeitou e criticou todas as sugestões e disse que o que verdadeiramente queria fazer era ir para a Legião Estrangeira. O terapeuta deve reconhecer a autenticidade das reclamações antes do sujeito psicótico poder reconhecer a irracionalidade do seu protesto.  Talvez este jovem estivesse a mostrar que gostaria de se sentir mais forte para enfrentar as “batalhas” da vida. 

Através de dinâmicas de grupo, procuro estimular os utentes a criarem histórias sobre si e desenvolverem capacidades de aceitação. A aceitação permite elaborar lutos e aprender com a experiência. Recordo um grupo terapêutico em que se falou da morte dos pais. Uma utente disse: “Já pensei em matar-me para não viver a morte dos meus pais, mas isso seria um grande egoísmo…seria provocar nos meus pais um sofrimento imenso…perderem uma filha, que deve ser das dores maiores da vida…” 

Frequentemente estou com pessoas “anestesiadas” para a vida. As atividades culturais procuram despertá-las, incentivando-as a deixarem os seus refúgios e a estarem mais envolvidas emocionalmente com a vida. Recordo um homem introvertido que dizia ter 23 anos, quando a sua idade era 48. Esse utente ficou fechado em casa durante longos anos a partir dos seus 23 anos e era demasiado doloroso encarar o tempo perdido. Gradualmente foi ficando mais comunicativo e começou a dizer a sua idade real. Ou outro utente que me disse: “Sabe Dr, tudo isto é muito difícil…eu queria ter um trabalho, uma casa e uma família…e não tenho nada…sinto uma grande amargura.”

Nas atividades culturais procuro estimular a criatividade dos utentes. Criando personagens, obras de arte, melodias, ideias. Já Freud ligava o ato criativo que transforma o mundo à saúde psíquica. Winnicott defendia que “a ação criativa é a que nasce da própria noção de existir. Portanto, aquele que pratica o fazer criativo existe: crio logo existo, logo sou, logo estou vivo e desfruto da existência como algo benigno. A criatividade é uma vitória contra a vida sem valor.” A participação e envolvimento em atividades culturais estimula o sujeito a criar algo que expresse o seu mundo interno. Esta criação tem a ver, segundo Sérgio Franco, “…com a noção da presença (ou falta) daquilo que mais nos carateriza como humanos: a impregnação da realidade com o nosso toque pessoal.”

Finalizando, recordo Bion, quando refere a necessidade das intervenções com psicóticos serem formuladas numa linguagem o mais simples possível para que elas possam ser entendidas e sentidas pelo paciente. “Só que não sei que tipo de linguagem deve ser usada.”, acrescenta Bion.