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Um escritor não morre nunca

O humano acariciou o lombo do gato /- Bem, gato, conseguimos – disse suspirando / – Sim, à beira do vazio compreendeu o mais importante – miou Zorbas / – Ah, sim? E o que é que ela compreendeu? – perguntou o humano/ – Que só voa quem se atreve a fazê-lo – miou Zorbas.

História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar, Luis Sepúlveda

O dia amanheceu cinzento e triste com a notícia da morte de Luis Sepúlveda. 

Do encontro na sombra do que fomos ao encontro de um amor num país em guerra,  descobrindo os segredos da floresta Amazónica com o velho que lia histórias de amor, à aventura e deslumbramento num baleeiro até ao mundo do fim do mundo ou no deserto de Atacama, onde as pequenas rosas cor de sangue florescem apenas um vez por ano, em todas as paisagens ficcionadas, Luis Sepúlveda enlaça os três tempos da memória, passado, presente e futuro e (e)leva-nos num voo poderoso e firme, delicado e humano, a lugares de onde avistamos a nossa terra, o que nela (nos) deixou ferida e cicatriz, mas também esperança e sonho, horizontes do que está por construir, salvar e tornar a habitar. As suas histórias, romances e ensaios, estão cheios de beleza e humor, sensibilidade e ironia, dureza e ternura, compaixão e amor, dignidade e coragem, convidando-nos sempre a uma profunda reflexão sobre a vida. 

Como escreveu Paul Ricœur, toda a obra ficcional transporta uma proposta de mundo, um como se, espaço transicional que permite a cada leitor recriar o mundo e, também, em cada leitura, recriar-se. Como janela aberta para novos lugares de nascimento, o romance entra na nossa experiência, na nossa vida, no nosso imaginário, nos nossos sonhos e constrói realidade. 

Regresso pelo sonho a uma passagem de As Rosas de Atacama:

“… aquele homem que empurra a sua canoa sobre a praia de areia fina e se prepara para receber o milagre que em cada entardecer abre na selva as portas do mistério, aquele homem é necessariamente meu irmão. Enquanto a subtil resistência da luz diurna se deixa vencer amorosamente pelo abraço da penumbra, escuto-o murmurar as palavras exatas que a sua embarcação merece: encontrei-te quando não passavas de um ramo, limpei o terreno que te rodeava, protegi-te do caruncho e da térmita, orientei-te a verticalidade do tronco e, ao deitar-te abaixo para fazer de ti o meu prolongamento na água, a cada machadada marquei também uma cicatriz nos meus braços. Depois, já na água, prometi que havíamos de continuar juntos a viagem começada no teu tempo de semente. E cumpri. Estamos em paz…”

Um escritor tem o privilégio de aceder à eternidade. De página em página, de livro em livro, de país em país, de mão em mão, continuará a circular por entre os vivos. Mas o pensamento de que um escritor não morre nunca, enquanto houver um leitor para os seus livros, é-me hoje de pouca valia. Luis Sepúlveda morreu e dele me faltará sempre o próximo livro, que sei que irá escrever e que ainda não li. 

Imagem: Aguarela, Maria Teresa Sá