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TRUMP POWER

Numa luminosa crónica, escrita no Público, perto do termo do ano maldito, José Pacheco Pereira sublinhava o óbvio (?!): a Democracia institui o poder da Razão e dos Valores, contra o poder da natureza. A Democracia é uma notável construção contra-natura, rematava o historiador. 

Como bem sabemos, idealmente – e aos olhos da Lei -, todos as pessoas são iguais, em direitos e deveres. 

Esta premissa legitima a possibilidade de sujeitos não-brancos, sem tecido eréctil ou menos dotados de massa muscular acederem ao poder. O jogo democrático – essa criação apoiada na ética, direito e racionalidade – consubstancia esta possibilidade, consequentemente.

A 6 de Janeiro de 2021, nos Estados Unidos da América – esse bastião (?) da Democracia -, assistimos ao impensável: quando o Senado e a Câmara dos Representantes, em sessão conjunta, homologavam a eleição de Biden para a Presidência Norte-Americana, o Capitólio foi invadido por um bando de desordeiros, aparentemente instigados e manipulados pelo presidente Trump, ainda em exercício…

Este inqualificável episódio, que envergonha qualquer pessoa de bem, tem na sua génese o desejo de reinstituir a ordem selvática, revelando um desprezo e desconsideração essenciais pela Lei, pela Democracia, pela livre-escolha de milhões de americanos, que preteriram Donald Trump, em favor de outro homem para assumir a presidência dos Estados Unidos da América.

Donald Trump tem uma longa história de atropelos à Lei – acumula mentiras, cultiva a evasão fiscal reiterada… Hábil nas artes performativas (manteve um programa na televisão, de grande audiência, ao longo de anos), cuida da imagem, onde proliferam múltiplas variantes do dourado. 

Este background permitiu-lhe apurar os dotes manipulatórios, que além de evidentes, se revestem de inegável perigosidade.

Trump seguiu um trajecto atípico, movido por um narcisismo ávido, em busca de (mais) poder, (mais) protagonismo e (mais) glória. Com um défice empático assinalável, auto-centrado, há muito que esta figura se habituou ao exercício da prepotência e do autoritarismo. Recentemente, no tocante à gestão da crise pandémica, desprezou a ciência, seguindo a sua intuição… Os resultados fizeram-se ver, com um crescimento desmesurado de infectados e mortos por covid-19… Ironicamente, a pandemia veio a matá-lo, politicamente…

A invasão do Capitólio foi o derradeiro golpe perpetrado por um narcisismo acossado, uma última tentativa de travestir a vergonha, a raiva, a humilhação espoletadas pelo mau perder…

Os adultos sensatos, ao educarem uma criança, preparam-na para vitórias e derrotas. Perder, sofrer revezes, é próprio da vulnerabilidade humana: também define a vida e constitui-nos. A maioria de nós integra este ensinamento, que é absolutamente estruturante. Mas…

…quem não recorda, em idades precoces, um amigo, um companheiro – nós próprios… -, destruindo um jogo de tabuleiro na sequência de uma derrota?!

Donald Trump, que ainda hoje nega a derrota face a Biden (recorrendo a todas as manobras e expedientes para inverter este dado da realidade), ferido no seu amor próprio, procura impor uma realidade outra: uma realidade conforme à sua integridade narcísica. Para tal, se necessário for, recorre à força e violência, também por interposta pessoa…

Estamos na era da lógica selvática, da ‘pós-verdade’, que o peculiar Trump tanto apregoou… A ‘pós-verdade’, que este senhor postula, rima com uma conduta criminosa e uma caricatural incapacidade de aceder à Posição Depressiva, no sentido de Klein… O mundo seria um lugar melhor se esta criatura conseguisse questionar-se, integrasse a derrota, não alimentasse correntes de ódio, não recorresse à clivagem…

Para nossa grande desventura, na actualidade, amiúde, o poder ameaça regressar a mãos impróprias, a mentes insanas, a gente que não respeita o seu semelhante e que, em nome da sua preservação – do seu poder, da sua glória e da sua ambição -, não hesita em recorrer ao populismo, ao maniqueísmo, à manipulação e demais estratégias criminosas. 

Esta história ameaça repetir-se, ontem, como hoje…

A peculiaridade deste(s) narcisismo(s), desta sede de poder, reside na(s) sua(s) afinidade(s) com o desvio, com a desumanidade.”

Imagem: retirada na internet (Google)