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Tolerar ESTA frustração – uma curta reflexão sobre as defesas radicais suscitadas pelo clima pandémico

A maturidade faz-se acompanhar de uma crescente capacidade para tolerar a frustração. 

Habitualmente, as birras, manifestações de cólera e ira diante de uma contrariedade decrescem à medida que nos desenvolvemos. Vamos aguentando a contrariedade, o desprazer – manifestações de frustração – à medida que nos tornamos mais e mais maduros. 

Com a idade, o nosso aparelho psíquico vai ganhando robustez, conseguindo integrar a contrariedade – “Apetecia-me muito comprar aquela caneta, agora, mas, se o fizer, fico sem dinheiro para viver o resto do mês e assumir as minhas responsabilidades, os meus compromissos…” O prazer, no adulto, pode ser adiado, à espera de uma ocasião mais adequada para ser experimentado.

Os tempos que vivemos – crise pandémica e medidas sanitárias de combate à mesma – constituem um momento singular para testar a nossa capacidade integrativa, i.e., a nossa capacidade para, aceitando os sucessivos constrangimentos, vivermos o melhor possível, cientes de nos encontrarmos temporariamente privados de muitos dos hábitos e gestos que compunham a nossa vida… e a nossa felicidade!

As recentes medidas de confinamento que as autoridades se preparam para (re)implementar [já em Novembro] serão – convenhamos – um teste à nossa já saturada capacidade para tolerar a contrariedade e frustração.

Pessoalmente, creio que as autoridades, com hesitações, erros e incoerências – além de inúmeras virtudes -, esforçam-se por desenhar e implementar uma política de combate a uma pandemia. Esta pandemia é um dado da realidade e os seus efeitos nefastos na saúde e economia são absolutamente verificáveis.

Creio que a cidadania e o civismo constituem categorias que se apoiam, também, na responsabilidade. Enquanto cidadãos, de forma crítica e reflexiva, temos o dever cívico de colaborar com as autoridades, de modo a restringir os contágios, assim contribuindo para um bem comum.

Pelo que venho observando – em mim e nos demais -, manter o discernimento, nesta realidade distópica, constitui uma dura proeza… Dada a saturação de imposições e restrições à nossa vida e liberdade, que se repercutem num crescendo de frustração, várias são as respostas possíveis.

Preocupam-me sobremaneira as reacções mais primárias, firmemente apoiadas na regressão maciça: recusa da realidade – “A pandemia é uma maquinação! / Não há pandemia nenhuma! / Isto não passa de uma gripe!! – , omnipotência – “Sou invulnarável e robusto! Em mim não entra vírus algum!” -, a par das reacções que testemunham a força indómita de mecanismos primitivos – “As vacinas serão a ocasião para nos instalarem micro-chips no organismo, para nos monitorizarem e controlarem!! / As autoridades pretendem, através da propagação de mentiras e inverdades, controlar-nos e dominar-nos, para assim se perpetuarem no poder!“

Estas derradeiras respostas defensivas, tributárias de uma dinâmica esquizo-paranóide, constituem manifestações radicais, e organizam-se a partir da acção conjunta da clivagem e projecção; isto é, o sujeito, em sofrimento, define uma entidade maléfica exterior a si, entidade essa que é responsável por uma acção persecutória, que persegue e afecta o próprio sujeito, a comunidade…

No dia-a-dia, nas diferentes esferas em que nos movimentamos, proliferam os discursos (muitas vezes infundados…) que consideram corresponder à Verdade absoluta, que desmente a verdade das autoridades sanitárias, “esse produto da urdidura”.

Com base nas observações que venho fazendo, como clínico e cidadão, penso que estas (crescentes) respostas primitivas correspondem a um esforço defensivo radical, organizado face a uma realidade exterior profundamente adversa e frustrante, geradora de um enorme sofrimento  individual e colectivo. Evidentemente, nesta curta reflexão, não me detive nas estruturas de base que, defensivamente, produzem estas respostas radicais, como forma de mitigar o sofrimento psíquico que a realidade COVID-19 comporta. Em boa verdade, qualquer um de nós, no actual contexto pandémico, poderá – episódica e fugazmente – experimentar uma resposta defensiva primária… Contudo, vale-nos a robustez psíquica para circunscrever a acção nociva das  mesmas defesas primitivas.

É nosso dever protegermo-nos, escutando-nos, pensando em conjunto, reflectindo, procurando acolher a diferença de pontos de vista com respeito, sensatez e discernimento. 

A Verdade, em ciência, sofre transformações, metamorfoseia-se… e é um bem demasiado precioso para ser pertença de quem quer que seja.

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