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Obliquidades fálicas XY

Não sei se se recordam de outro post enviado por Jaime Milheiro intitulado OBLIQUIDADES  X1 X2   onde ele referia as Pequenas Diferenças entre os sexos e até exaltava as qualidades intrínsecas das mulheres ? 

Acho que tem razão, com efeito  as diferenças são pequenas, pois ambos, no seu mundo interior, revelam insegurança e medo na aproximação sexual pois temem ser rejeitados, ser abandonados pelo seu objeto libidinal no envolvimento amoroso. Jaime Milheiro, nesta brincadeira, tende a reparar o pecado que é o Falocentrismo  da Teoria Psicanalítica,  quer em FREUD quer em LACAN, substituindo as marcas cromossómicas dos sexos XX e XY , por X1 e X2. Elimina o Y. Não há OBLIQUIDADES  FÁLICAS XY. ….Que ilusão !

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O quarto pilar da formação analítica

Ser analista em formação em tempos de pandemia é um desafio.

Iniciei o meu percurso analítico como candidata da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) ainda em modo presencial durante o meu primeiro ano. No decurso do meu percurso instalou-se a pandemia e a interrupção dos seminários presenciais e a interrupção das sessões em divã. Rapidamente e felizmente, a IPA (International Psychoanalytical Association) e a SPP se organizaram, permitindo a continuidade da formação analítica, das sessões clínicas e das supervisões. Nesta fase, mais do que em qualquer outra, pude vivenciar e “sentir na pele” a importância do que Stefano Bolognini denomina de quarto pilar da formação analítica.

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Complexo de Édipo

A nossa grande escritora Agustina Bessa-Luís descrevia com enorme perspicácia psicológica as suas personagens, e não sei se sabem que era uma senhora culta, com vasta leitura que não se limitava à Literatura, tinha a obra de Freud e leu muitos dos seus textos. Saía-se com comentários e afirmações irónicas e paradoxais que ainda hoje se comentam. Uma delas é esta: “O COMPLEXO DE ÉDIPO é uma espécie de Romance Policial, que torna a Psicanálise interessante “

Eu propus este tema para o Blogue da SPP, mas foi-me pedido um breve comentário para estimular o diálogo entre nós. Aí vai.

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Carta a Coimbra de Matos

1 de Julho de 2021.
Morreu um dos pais da Psicanálise portuguesa, foram várias as gerações dos seus filhos. 

Querido Coimbra de Matos,

Ontem, antes de ter partido para outro lugar, pensei em si durante uma sessão de análise. A minha paciente, interna de psiquiatria, e que se tem vindo a desiludir com a abordagem psiquiátrica à doença mental, encontrou o seu livro “A Depressão”. Irá ela seguir os seus passos?

Também o guardo, na minha prateleira, com a primeira folha rabiscada por si: “Para a Rita, com um beijo. 31-05-01”.

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Deixem as crianças brincar!

A maturidade do homem é ter reencontrado
a seriedade com que brincava quando era criança
Friedrich Nietzsche

Estamos no final do ano lectivo, o início das férias escolares bate-nos à porta. Os constrangimentos virais do planeta arrastam-se. Mas esta é a altura do ano em que o brincar das crianças ganha um espaço majestoso. É tempo de nos ocuparmos profundamente do brincar. Afinal, que lugar lhe temos dado? E na Educação estarão a prestar-lhe a devida atenção? É hora de dizer: Deixem as crianças brincar!

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OBLIQUIDADES XI

Pesarosos e circuncidados, tão pouco instruídos e tão infantilmente edificados que na sua decrépita e lamentável ignorância ainda se atrevem a  contrariar os novíssimos evangelhos e a não cumprir  os   esclarecidíssimos mandamentos  das   assembleias civilizacionais,  grande parte dos homens  continua a vislumbrar   algumas pequenas diferenças entre o  masculino e o  feminino…

e, numa convicção tão antiga e tão questionável que os aproxima dos mamíferos paleolíticos,  persiste em supor que  tem algum ascendente sobre as mulheres…

(Fingindo   acreditar
nas suas   próprias suposições
e fingindo colaborar
nas suas próprias simulações…)

entendendo por ascendência a postura social da tribo que os habita.

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Um sorriso abre-se então num verão antigo e dura

À minha frente uma jovem empurra um carrinho de bebé. Vejo que não traz máscara e fico muito feliz pela bebé. Sorrimos. Por respeito para com os bebés nunca os cumprimento de máscara. A mãe autoriza-me a cumprimentar sem máscara a sua filha. Do seu carrinho-ovo a menina oferece-me um sorriso que é pés, braços e corpo inteiro e ficamos por ali numa conversinha de gente. A mãe entra na conversa, falo do sorriso social e ela diz que também já reparou. Como aprendi com João dos Santos, para comunicarmos com uma criança é preciso que nos coloquemos num lugar de onde ela nos possa ver inteiros. Um bebé não pode ver um adulto por detrás de uma máscara. Nem a si próprio, nas expressões entrelaçadas com o Outro. 

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Um Método Perigoso

Escolhi o título de um filme de 2011 que, de forma ficcionada, ilustra as relações amigáveis e mais tarde conflituosas entre Freud e Jung, psiquiatra e psicanalista suíço e um dos primeiros discípulos de Freud, para uma breve reflexão sobre a especificidade e os imperativos da relação analítica, bem como sobre o significado da violação ética dos limites da relação analítica. 

O filme mostra também a relação íntima e perigosa que se estabelecera entre Jung e uma das suas pacientes, Sabina Spielrein, e também o sofrimento que esta situação tinha trazido para ambas as partes. Sabina Spielrein, fez uma segunda análise com Freud e tornou-se psicanalista.  Foi a primeira analista, não certamente por acaso, que concebeu o conceito   de pulsão de morte, que Freud veio a aprofundar.

Vem esta análise a propósito das notícias recentes sobre o comportamento inapropriado de um psicanalista, reveladas no âmbito do movimento “Me Too”. 

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O NOME DA ROSA: Umberto Eco e a importância da escuta

Uma recente sessão sobre a contratransferência, fez-me pensar numa afirmação do famoso escritor italiano Umberto Eco. E resolvi partilhar as reflexões que então fiz. Trata-se de um Universitário muito prestigiado, com vasta obra científica publicada, traduzida em várias línguas. Já avançado na sua carreira, resolveu escrever um romance, a que deu o título “O Nome da Rosa”.

Na badana da capa da primeira edição em italiano, que na altura comprei, contava que muitos lhe perguntavam porquê um romance, depois de tantos trabalhos científicos publicados. E explicava que, se depois de tantos trabalhos científicos, o autor publicava agora um romance, era porque, “in età matura, ha scoperto che di ciò di cui non si può teorizzare, si deve narrare “. Cito na língua original porque me parece uma afirmação fundamental quanto a uma conceção do funcionamento psíquico. (traduzindo: em idade madura, descobriu que, aquilo que não se pode teorizar, se deve narrar.) E de facto, a partir daí e continuando a sua atividade universitária, escreveu muitos outros romances (salvo erro mais 7). Narrou. Para que alguém ouvisse (no caso, lesse). 

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O inconsciente é o infantil

Na obra Notas sobre um caso de neurose obsessiva (1909), também conhecida como a análise do caso do Homem dos Ratos, Freud escreveu: O inconsciente é o infantil. Chamava assim a atenção para a importância do reconhecimento da existência de elementos inconscientes ligados às experiências e fantasias infantis presentes no mundo psíquico dos adultos. Na obra, Freud debruça-se particularmente sobre a rigidez dos mecanismos obsessivos instalados de modo a não permitir a conexão do seu paciente com as suas fantasias e desejos infantis, que permaneciam inacessíveis no seu inconsciente.

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