Publicado em

1981 aqui ao lado

2019: A cena tem lugar num jardim, na sala de espera de um hospital, na sala de um infantário, na sala de uma habitação. Os intervenientes são adultos e crianças. As crianças têm a idade de bebé. O bebé faz um gesto na direção do adulto, há uma expectativa de que algo aconteça ali entre os dois. Uma agitação dos braços e das pernas, um balançar na cadeira. O adulto está concentrado no écran de um telemóvel, percebe-se que algo de muito forte o chama para ali e que tudo à sua volta se tornou um cenário. Incluindo o bebé. O bebé agita-se. O adulto olha agora a criança, procura um pequeno peluche que lhe coloca na mão e diz “pronto, pronto”, embala um pouco o ovo e regressa ao écran, percebe-se que algo de muito forte o chama para ali e que tudo à sua volta se tornou de novo um cenário. Incluindo o bebé. 

Continuar a ler 1981 aqui ao lado
Publicado em

A psicanálise da criança e do adolescente num mundo em mudança

Cem anos após a sua origem, falar de Psicanálise da Criança e do Adolescente permanece actual e revigorante. O encontro, proporcionado pela Sociedade Britânica de Psicanálise, que teve lugar em Julho em Londres, revelou ser um bom exemplo de que a psicanálise da criança se tornou num método de, antecipadamente, aceder ao que na vida adulta possa revelar-se como sentimentos de vazio ou trauma desestruturante.

Continuar a ler A psicanálise da criança e do adolescente num mundo em mudança
Publicado em

Psicanálise e Prevenção da saúde mental na adolescência

A prevenção é a área dos cuidados que tem como objetivo evitar uma perturbação, retardar o seu aparecimento ou diminuir o impacto negativo que pode ter na vida das pessoas.

O ser humano é o ser que nasce mais dependente do ambiente para sobreviver e a construção de laços significativos com as outras pessoas faz parte integrante do desenvolvimento saudável. Utilizando a linguagem da prevenção, as relações afetivas são fatores de proteção, ou fatores de risco, quando faltam ou falham.

Continuar a ler Psicanálise e Prevenção da saúde mental na adolescência
Publicado em

Observação da Relação Mãe-Bebé na Família: o Método Esther Bick

Em 1948, o método de observação de Esther Bick (1964) foi introduzido na formação de psicoterapeutas e de psicanalistas com o objetivo de desenvolver a função analítica dos mesmos. 

É um modelo tripartido que consiste em: observar uma díada mãe-bebé, durante uma hora, semanalmente, em casa de uma família razoavelmente estruturada; anotar à posteriori tudo o que foi observado fora e dentro de si mesmo; apresentar e discutir o registo no grupo do seminário de supervisão. 

Os seus três vértices assentam no paradigma intersubjetivo, relacional e potencial: na relação mãe-(pai)-bebé na família; na relação observador-família e na relação observador-grupo/supervisor. 

Continuar a ler Observação da Relação Mãe-Bebé na Família: o Método Esther Bick
Publicado em

Os fantasmas bons

“I was walking down the road with two friends when the sun set; suddenly, the sky turned as red as blood. I stopped and leaned against the fence, feeling unspeakably tired. Tongues of fire and blood stretched over the bluish black fjord. My friends went on walking, while I lagged behind, shivering with fear. Then I heard the enormous, infinite scream of nature”

– Edvard Munch, O grito

Nos últimos meses perdi três amigos, a minha querida cadela e dois queridos humanos. Como noutros momentos, estou diante do que fazer com o que (me) aconteceu. Conheço o lugar, mas é sempre a primeira vez.  Como um bicho de conta que se encolhe e se alonga, em movimentos vagarosos, continuo a responder à realidade que diariamente me chama, mas peço-lhe que tolere com paciência o momento do recolhimento para que não tenha de sair deste lugar tão depressa. Sei, lá no fundo, que esse momento virá, mas por enquanto quero adiá-lo. O perpétuo movimento do que gira e avança traz-me tormenta e irritação. Como pode o mundo esquecer tão depressa? Estou num lugar do meio. Preciso de puxar o horizonte para trás até ao exacto momento onde o deixámos ontem, lembrar o rosto, as expressões, os traços, os gestos, as palavras, as coisas pequenas, para ficar mais um pouco com quem partiu. Vivo na carne a travessia do exterior para o interior. Sinto-me a edificar a casa interna onde o outro permanecerá comigo em mim e quero dedicar-lhe todo o vagar e atenção. Receio que se percam detalhes pelo caminho. Tenho medo de esquecer. Quero lembrar. Ouço-me a dizer os seus nomes vezes sem conta como que a trazê-los de novo à vida. Preciso sentir o meu corpo em contacto e a ausência a trazer lágrimas. Não quero que me ofereçam lenços nem palavras, nem que me consolem. Quero ficar perto do grito e do momento do desabamento. Quero ser habitada por fantasmas e peço à noite e ao sonho que os tragam. São fantasmas bons. Quero dar-lhes morada, registá-los, escrevê-los.

Continuar a ler Os fantasmas bons
Publicado em

Post-it: BRINCAR

A criança não tem à sua disposição a linguagem como o adulto, é através do brincar que ela pode por um lado, expressar as suas angústias e por outro lado, expandir a sua criatividade. 

No desenvolvimento da criança o brincar precede o desenho e o discurso, mesmo se o brincar é acompanhado de vocalizações. Uma criança que não brinca está doente e pode evoluir para situações em que não consegue fazer amigos, quer ser o centro das atenções pelo desejo incessante de se sentir interessante, reage com raiva, é tirânica porque quer que todos os seus desejos sejam realizados, etc. 

Diz-nos Donald Winnicott (1971): “Se a criança não pode brincar, é preciso fazer qualquer coisa para que essa criança possa começar a brincar”.

Continuar a ler Post-it: BRINCAR
Publicado em

Retrato de Família

As crianças desenham a sua família de mil maneiras. Para além de construírem diferentes cenários familiares, estes desenhos parecem ser verdadeiras encenações em que elas inventam várias famílias e experimentam outras tantas maneiras de nelas e com elas viverem. Colocam no desenho só quem querem que lá esteja e a fazerem o que elas querem que eles façam, realizando assim os seu desejo, ou então desenham quem receiam que lá possa estar, para os controlarem melhor. Posicionam-se a si próprias, em relação aos restantes, na posição em que se vêem na sua família, outras vezes naquela em que gostavam de estar, outras ainda naquela em que mais temem vir a ficar, fazendo neste caso desenhos que mais parecem rituais de exorcização dos seus medos. Quando um desses desenhos materializa de forma particularmente conseguida algum dos mitos mais inquietantes daquele que o desenhou, fica condenado a permanecer colado na parede por mais tempo do que seria de prever. Por vezes não é fácil perceber porquê. Nessa altura intervêm os pais.

Continuar a ler Retrato de Família

Publicado em

A outra  margem 

No quarto entrou a lua tão cheia e tão bela. É o entardecer de Dezembro e agarro a tua mão ainda quente, não sei se para te sentir ou porque esperas a passagem para a outra margem. Na sala não estamos sós. De pé atenta e invisível está uma dama de foice paciente e escura. Balbucias algo parecendo estar num tempo e espaço do pó das estrelas a que chamamos inconsciente.  Ainda não partiste? Porque esperas? A minha mãe antes de morrer sonhou que os avôs a vinham buscar calmos e sorridentes. Não sei para quem falas mas vejo-te menina na praia, sabes, naquela da Penha d’Águia onde parecias da cor das sereias. Paro mais um pouco e estamos no engenho do açúcar, o cheiro a peixe fresco saindo pelas escadas enquanto ouvíamos o coaxar das rãs e as pedras batidas no mar. Olho para a tua face sumida e espreito memórias da bebé de sua mãe. Não sei por quem chamas mas agarro a tua mão até entrares no bosque da nossa infância. Um dia voltaremos a brincar. 

Imagem: As etapas da vida (1834), Caspar David Friedrich

Publicado em

Crianças e adolescentes com ritalina

Trabalho num serviço público de tratamento de adições. Há dias numa reunião clínica discutíamos  sobre  psicoses tóxicas, a propósito de uma interessante comunicação apresentada  no último congresso nacional de psiquiatria pela colega, a psiquiatra  Manuela Fraga, intitulada “Normabilidades”. Simplificando, são psicoses ou estados  psicóticos, desencadeados por substâncias, tais como as anfetaminas, sendo que nesta matéria se aplica o chavão do” ovo e  da galinha”. Continuar a ler Crianças e adolescentes com ritalina