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O Inimigo

“Perante o flagelo… perante o escândalo da morte anunciada, iminente e cega, as comunidades têm uma tendência irreprimível para se unir no medo…”  Bernard-Henri Levy (2020)

Naquela manhã de final de Agosto, dirigi-me à parafarmácia habitual, na tentativa de, pela terceira vez, furar as orelhas das minhas filhas (nestas tenras idades, mal se tiram os brincos, logo as orelhas repõem o que falta!). Perante o comentário firme e inamovível da farmacêutica – “já não furamos as orelhas” -, resolvi ingenuamente (ou por teimosia, ou curiosidade) perguntar porquê, e logo ela, de olhar indignado e ar de “beata”, me responde: “Não podemos, por tudo o que está a acontecer no mundo…” 

Aquele comentário irritou-me, pelo tom moralista, raiado do politicamente correto, semelhante ao que se sente quando se come uma sardinha em frente a um Vegan…
Senti que a minha atitude mais despreocupada punha em causa uma certa “tranquilidade” que o “terrível que está a acontecer no mundo” parecia dar àquela pessoa… Um sentido? Uma compreensão de todos os males? Um inimigo designado?

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Setembro

“Summer has come and passed
The innocent can never last
Wake me up when September ends”

Billie Joe Armstrong dos “Green Day”

Em setembro, muitas pessoas vivem o fim das férias com tristeza. E mesmo nesta época, em que as férias sofreram o impacto da pandemia, com todas as ansiedades e restrições associadas, isso também aconteceu. 

Quem me falou, em primeiro lugar, desta tristeza foi uma pessoa que não saiu do seu local habitual de vida, portanto não está a regressar, com pena, de lugares fantásticos. O que o entristece, no setembro do recomeço, é a experiência da despedida.

Do que nos despedimos, no final do Verão?

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A capacidade de estar só

No seu artigo de 1958 Donald Winnicott debruça-se sobre a capacidade de estar só assumindo-a como um dos maiores símbolos de maturidade de desenvolvimento emocional e um dos fenómenos psíquicos mais sofisticados. Esta capacidade Winnicottiana não deve ser confundida, como diz o próprio autor, com a capacidade de isolamento voluntário, experimentado em alguns períodos da vida. Estar só, nesta concepção, implica aceder a uma certa capacidade de estar consigo próprio, independentemente de estar só ou acompanhado, tratando-se de um sentimento vivido na relação com o Eu, ao qual nem sempre é possível aceder, dependendo da constituição de um bom objecto internalizado, mantido vivo no mundo interno de cada um.

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O tempo da psicanálise – Outrora Agora

Considero que, para um psicanalista, a aquisição deste ritmo entre passado e presente, este percurso do outrora-agora, são essenciais para o tempo da psicanálise, e fundamentais para o desempenho da sua função. Faço um breve resumo do que isto me faz pensar.

 A vida de qualquer pessoa é vivida como a continuidade de uma experiência, que é a experiência de estar vivo. E com o andar do tempo, esta continuidade da experiência vai-se enriquecendo com a experiência da continuidade.  

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Quovadis-Covid?

No último webinar da IPA “L’accident Covid au coeur de l´humain” Martin Gauthier, psicanalista Canadiano, afirmava “A psicanálise foi infetada, qual o remédio para a desinfetar?”. Com esta frase pretendia falar das transformações do setting analítico e das repercussões criadas pelas novas respostas de atendimento.

Com esta frase fui chamado por outra, essa sim bíblica, onde, segundo o evangelho apócrifo, S. Pedro fugindo de Roma para não ser crucificado encontra Cristo ressuscitado na Via Ápia e pergunta-lhe “ Quo vadis Domine?” – “para onde vais Senhor? Ao que o Senhor lhe responde: “Roman vado iterum crucifigi“ – “volto a Roma para ser crucificado de novo”. Depois dessa afirmação, Pedro arrependeu-se e regressou a Roma.

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Saberei (con)viver com aqueles que (des)amo? Que impactos estão a surgir nos casais e nas famílias?

Viver e sonhar num mesmo espaço compartilhado física e emocionalmente de um dia para o outro, 24 horas seguidas sem interrupção, é o novo desafio inquietante das famílias que se confrontam numa coabitação forçada: onde o tempo é continuo; onde o tempo de lazer, de convívio e de trabalho se intercomunicam; onde se pode confundir o espaço individual com o coletivo; e onde o íntimo com o privado e ainda o público se combinam…se atropelam…

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