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Selfie

Observo-a.
É uma rapariga bonita, os seus olhos sobressaem no rosto que parece esculpido a cinze, são grandes os olhos, com pestanas compridas, torneados por umas sobrancelhas que bem podiam ter sido desenhadas. Os cabelos compridos, ondulados, bem cuidados, são escuros num contraste que resulta muito agradável com a sua pele branca.

Numa postura que sinto algo ingénua e completamente despreocupada olha a sua própria imagem no ecrã do seu smartphone e vai fazendo com a câmara várias capturas.

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Ler Freud

Freud atingiu um tal estatuto que se arrisca a ser como um daqueles gigantes da literatura (Homero, Virgílio, Camões, Shakespeare,etc), considerados incontornáveis mas que poucos leem diretamente, exceto alguns estudiosos. 

A maioria foi conhecendo Freud indiretamente, pela mão de académicos, sistematizadores, comentadores, críticos, cada qual apresentando uma versão filtrada de acordo com as suas grelhas de análise.

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Teresa Ferreira – Com os Deuses dentro

Numa entrevista, Eduardo Galeano disse faltar ao mundo Vitamina E, de Entusiasmo, acrescentando que o seu significado etimológico é ter os deuses dentro (enthousiasmos<en+theos).

Passaram 20 anos da súbita e prematuríssima partida de Teresa Ferreira, aos 62 anos, no dia 18 de Agosto de 2001. Arrancada, no auge da sua plenitude profissional, a muitos que com ela conviveram, aprenderam, trabalharam, refletiram. Eclipsada da vida de muitos que com ela estabeleceram uma relação de verdadeira reciprocidade afetiva. A palavra Entusiasmo sintetiza, como nenhuma outra, a vitalidade e a paixão colocada em tudo o que fazia. No plano profissional, tanto como pedopsiquiatra quanto como psicanalista, Teresa tinha definitivamente os deuses dentro.

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Uma questão de confiança

People are lining in grocery stores
Silence is screaming the fear in their hearts
Don’t give up your faith, no, don’t let your light fade
Together we’ll get through the dark of these days

Andrà tutto bene
Vai ficar tudo bem

Estas palavras, cantadas por Cristóvan, em Março de 2020, tornam difícil imaginar que após toda esta longa vivência de medo, incerteza, isolamento social e restrição da liberdade, haveria pessoas a recusar usufruir da única solução que nos pode livrar do perigo da doença e da morte, e devolver a proximidade física e a liberdade nas nossas vidas – as vacinas!

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OBLIQUIDADES XII

Queixosas e uterinas,  tão pouco actualizadas e tão  pouco instruídas que  apesar das revigorantes novidades largamente   difundidas continuam a vislumbrar algumas pequenas diferenças entre o feminino e o masculino, grande parte das mulheres  gosta de  fingir que suporta a pretensa ascendência dos homens e persiste a admitir-se  representada em tão desequilibrado cenário, entendendo por ascendência a vertente cultural da  tribo que as configura.
Sorrindo um pouco, dir-se-ia que esse fingimento pelos primatas engendrado e pelos tempos fora lamentavelmente prosseguido  se expandiu por todo o  planeta   num formato   paradoxal,   porque ao contrário do que parece lhes conferiu um ultra-sensível somatório de poderes e uma superlativa capacidade de lidar com a inteligência dos medos, acrescentando-lhes  magníficos patamares… 

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Adolescer confinado

Isto tudo já acabava!

“Já é difícil ser adolescente, quanto mais agora sem poder fazer nada”  – dizia-me uma jovem de 16 anos que poderia chamar-se Aurora.

Dentro das paredes das casas, redutos seguros em tempos estranhos, as famílias tentaram organizar-se o melhor que conseguiram. Cansados da pandemia (todos estamos), suspenderam a respiração, como se mergulhassem em águas profundas e aguardassem o tempo de voltar à superfície. Mas alguns já lutam com a falta de ar.
E os adolescentes fervilham em fogo lento.

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Volto já, meu pai

Seres gregários, o desejo de nos ligarmos aos outros é o que nos mobiliza, desde o nascimento. A procura do Outro é um impulso profundamente ancorado na nossa organização psíquica, corporal e visceral e é a qualidade da resposta a esta necessidade primeira que nos garante um equilíbrio biológico e psíquico elementar e a possibilidade de prosseguirmos a vida. O nosso sopro vital. A proximidade e o laço social afectam profundamente a nossa saúde física e mental, desde sempre e para sempre, até ao fim. 

A necessidade do contacto humano não diz apenas respeito à infância. A sua carência precoce é a mais grave e a mais profunda, mas sempre que ocorre reactualiza o trauma ou introduz o mal-estar no tecido humano e rompe o equilíbrio somato-psíquico, rasgão que é preciso voltar a tecer, com todo o cuidado e vagar, trabalho que se fará de novo através da relação humana e do laço. Não há outro modo.

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A libertação (psíquica) de Auschwitz

Imersos nesta pandemia cujo “trauma” sanitário estamos certos de que com a ajuda das vacinas vai acabar por passar, mas cujos “traumas” económicos e psíquicos não sabemos que sequelas vão deixar, vale a pena assinalar que no passado dia 27 de Janeiro fez 76 anos da libertação de Auschwitz.

Mas é no consultório que por vezes sou levada a mergulhar no livro “A Bailarina de Auschwitz”, que conta a história (verídica) da destruição e renascimento mental de uma mulher judia (Edith Eger), vítima de Auschwitz, para onde foi levada aos 16 anos, juntamente com os pais e uma irmã. 

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Pandemia e Saúde Mental

Há umas semanas atrás estive presente numa tertúlia sobre a saúde mental na pandemia, organizada pelos chamados “negacionistas”: os que negam a perigosidade do vírus e não aceitam as medidas impostas (máscara, higienização, confinamentos, estado de emergência, etc…), chegando mesmo a formular teorias da conspiração – “A fundação Bill Gates tem ligações com a OMS e com as grandes farmacêuticas que estão a fazer as vacinas; foi feita uma simulação de uma pandemia em Outubro de 2019 com um vírus imaginado que curiosamente era muito parecido com este… Sabe-se lá como terá surgido o vírus… talvez tenha sido fabricado como forma de enriquecimento de alguns…”

Se os entrevistados nesta tertúlia mostravam um pensamento isento e livre, condição necessária a poder pensar de forma rigorosa e verdadeira, já o entrevistador, mais do que procurar compreender de forma sincera e científica as repercussões da pandemia na saúde mental, tentava “puxar a brasa à sua sardinha” referindo uma “histeria coletiva da humanidade”, que se compreendia num “mundo fundamentalmente neurótico”, o que explicava a aceitação dos rituais de higienização pelos obsessivos, e do confinamento pelos fóbicos! 

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A “Linha Vira(l) Solidariedade” (por alguém que não a integrou)

O AMOR REDIME O MUNDO diziam eles
Mas onde está o mundo senão aqui?
Mário Cesariny*

A estranheza e a violência com que fomos surpreendidos pelo acontecimento “Sars-Cov-2”, revestiu a nossa vida de um sentimento de irrealidade, pela aparente perda de referências, pela descontinuidade, onde nada do que era familiar, quer no tempo quer no espaço, parecia passível de ser reencontrado. Tal como num sonho. Este ambiente com contornos oníricos onde em parte sentimos que passámos a viver, teve entre outros aspetos o “mérito”, tal como os sonhos, de evidenciar aspetos que antes pareciam “ocultos”, desde logo, em relação ao nosso próprio lugar e experiência do nosso lugar individual e coletivo no mundo; à nossa relação com “o que é isto de viver”.

Muito se irá assim continuar a escrever e a representar de todas as formas, por natureza infinitas, que o trabalho do sonho permite, sobre o impacto e a natureza não só da pandemia, como dos fenómenos que a antecederam, acompanharam e dos que a seguirão. Um desses fenómenos a que assistimos foi a criação da “Linha Vira(l) Solidariedade”, pela Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP).

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