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O Fascínio de Leonardo

Neste tempo de incerteza e inquietação, em que a maioria de nós se encontra em casa de quarentena, será possível encontrar espaço para a arte? Sinto-o não só possível como necessário.

Uma obra, seja ela escultórica, literária, fotográfica, musical, cinematográfica, ou plástica, tem em si o potencial de desencadear em nós cadeias associativas, que abrem caminho para um pensamento menos saturado, aumentando a nossa tolerância ao desconhecido e assim a nossa capacidade de reverie (a capacidade de permanecer com uma atitude receptiva, de acolher, descodificar, significar e nomear as angústias, para depois as devolver devidamente desintoxicadas). 

E talvez por isso me surja a necessidade de convosco partilhar uma experiência de maravilhamento. 

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A arte faz-nos tão bem!

Au milieu de l’hiver, j’apprenais enfin qu’il y avait en moi un été invincible                         

Albert Camus

Arte a fim de não morrer de verdade, escreveu Nietzsche em Fragmentos póstumos.A arte rompe com a representação comum e utilitarista do mundo, dá-lhe e dá-nos descanso, autoriza a renúncia do provar, de tornar o mundo inteligível, previsível e útil. Podemos descansar do mundo e o mundo pode descansar de nós. Voltaremos a encontrar-nos em breve, nada mais certo, mas por agora repousamos da fadiga dessa negociação diária. O que seria a vida se não tivéssemos a coragem de tentar alguma coisa (Van Gogh)?

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MãePaiFilho – A televisão culta e adulta

Num Portugal em que democracia e televisão a cores foram contemporâneas, a marca BBC sempre foi sinónimo de qualidade. Nesse tempo do correio escrito e do telefone fixo a dieta televisiva seguia uma prescrição semanal. O mundo mudou muito desde então; l’air du temps traz odores de imediatismo e de urgência, a relação com os écrans desconstruiu os conceitos de público e de privado e a influência entre informação e política tornou-se o assunto. Recentemente a RTP2 passou a série MotherFatherSun, título que aglomera sem espaço para respirar os elementos deste ancestral triângulo. 

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PHOENIX e o Cinema ou a arte de renascer

“O que obtemos ao juntar um doente mental com um sistema que o abandona e o trata como lixo?” 

No filme a narrativa atinge o seu clímax quando Joker dispara no talk show uma pergunta que funciona literalmente como gatilho para nos atingir a todos ferindo-nos de morte.

Numa canção dos anos 70 Roberta Flack dizia que a música lhe lia a alma. Em português a homonomia  referente à palavra “interpretar” coloca psicanálise e artes performativas num plano comum sugerindo a irresistível ligação entre cinema e psicanálise. Desenvolvendo-se num espaço intermédio entre realidade e fantasia, o cinema inquieta-nos, interpela-nos, denuncia-nos. Em vertigem onírica e numa festa dos sentidos, o cinema lê-nos a alma para nos devolver a áreas recônditas da nossa mente numa linguagem geradora de sinuosos paradoxos entre intimidade e exposição, culpa e expiação, destrutividade e reparação.

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“A terceira margem”
 – Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra – 
Anozero19

Uma conversa com Carlos Antunes no Mosteiro, numa imensa mesa para pensar com um imenso ortofotomapa , que nos abre para um plano da cidade do tamanho do mundo. Uma história, um caminho e uma identidade de vanguarda, muitas lutas mas sobretudo “The beginning of a memory”. Palavras de um profundo impacto estético que intercetam com a literatura, a filosofia, a intervenção político-social, o urbanismo.

A Bienal de Arte Contemporânea nasce em 2015 no Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC),um lugar singular que alterou o paradigma da arte em Portugal.

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 – Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra – 
Anozero19
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O Sentido Figurado de Carlos Farinha

Inaugurou dia 3 de Outubro no Museu do Oriente uma exposição do pintor Carlos Farinha, juntando trabalhos relacionados com Macau e também quadros de grande formato relacionados com algumas cidades – “A Grande Alface”, “Porto Sentido”, “Proença-a-Nova” – e mesmo com o mundo – “My Mapa-Mundi”.

Carlos Farinha é um artista português, que cresceu em França e veio para Portugal aos 15 anos. Ainda hoje permanece no seu sotaque esta herança francesa, conferindo-lhe uma dupla identidade que certamente influencia o seu modo muito particular de representar a experiência humana. Começando por estudar escultura, acaba por se interessar pela performance e sobretudo pela pintura.

Os seus quadros são telas vivas, cheias de movimento, de cor e de emoção, nas quais encontramos sempre novos detalhes que ainda não havíamos visto antes. Como se fossem construídos em camadas, há elementos imediatamente visíveis, há outros elementos que só se reparam após um olhar mais demorado e há ainda elementos escondidos, que podem nunca ser identificados.

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Nota de leitura

O “Desenho Infantil – espelho do mundo interno da criança”, obra de Orlando Fialho com prefácio do Professor Didier Houzel, consiste numa investigação que tem por base o desenho da família. 

A primeira parte deste livro, é dedicada à história da evolução do desenho, que tem início no homem pré-histórico ao deixar as suas marcas nas grutas. Como refere o autor, quer no homem pré-histórico quer na criança, estamos perante o que mais tarde, virá a ser o desenho intencional; já sinal de uma enorme evolução, tanto da espécie como do ser humano em si próprio. 

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Dor e Glória: as Catacumbas de Almodóvar

Em Dor e Glória, Pedro Almodóvar narra-nos a história (de cariz auto-biográfico) de Salvador Mallo, um realizador de cinema em plena retirada depressiva. Jovem promissor, sobredotado, Salvador faz um percurso que o leva ao reconhecimento, encontrando-se, no momento presente do filme, preso à dor / sofrimento, no seu sentido mais amplo.

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A polissemia do feminino: “Paula Rego – Histórias e Segredos”

Paula Rego (PR) foi a mulher-artista escolhida como âncora e simultaneamente gatilho para uma mesa no Congresso da IPA sobre o Feminino, em Londres, em Julho de 2019. Será visualizado o documentário realizado pelo seu filho Nick Willing, cujo título “histórias e segredos”, condensa a mestria genial de PR ao desenhar/pintar histórias que revelam/escondem segredos. E sabendo que todas as histórias contém segredos e qualquer narrativa é uma ficção, os seus quadros mostram espantosas e inquietantes “narrativas figuradas” do feminino.

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After life

“After Life” (Netflix, 6 episódios), por Ricky Gervais, aborda a dor e a alegria, a esperança, a fraqueza tornada força, e o poder reparador e transformador da relação com o outro. Questiona, de forma brutal, qual o lugar do humano. 

“Vida depois da Morte” fala da ressuscitação emocional de um homem (Tony) em depressão após a morte da sua mulher com cancro, da sua dor intolerável, e do morrer por dentro… com humor desconcertante.

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