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Nas entrelinhas dos livros

A Porta (1), romance da húngara Magda Szabó, narra a estreita relação que se estabelece entre duas mulheres na Hungria dos anos do pós-guerra: Magda, uma jovem escritora, e a sua empregada, Emerence, uma camponesa analfabeta.

Esta relação entre duas mulheres tão desiguais abre-nos espaço de pensamento.
Ler um romance é, quando ele é bom, uma viagem que em muito extravasa a história contada. Dá-nos acesso a áreas não saturadas da mente, permite-nos novos encadeamentos, com sorte, algum insight.

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Lá fora

Alfred Hitchcock no seu filme de 1954, “Janela Indiscreta” (Rear Window, cuja tradução literal é “Janela das traseiras”, apelando ao que se desenrola por detrás), narra o crescente desenvolvimento de sentimentos paranóides vividos pelo protagonista. Impossibilitado de se mover e confinado ao espaço de sua casa, o fotógrafo Jeff (James Stewart), sente-se gradualmente invadido por um sentimento claustrofóbico paralisante. 

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Limite(S), deslimite(S) e neo-limite(S): uma nova geografia [também] psíquica?!

A realidade em que hoje vivemos, ditada pela crise pandémica, impõe limites novos e desafia outros, outrora firmados e estabelecidos. Nesta espécie de paradoxo – cuidadosamente separados e muito distantes, na rua, MAS confundidos, em casa -, procuramos viver… ou sobreviver.

Se é verdade que as autoridades sanitárias sublinham a necessidade de usarmos protecções externas – máscaras, luvas, viseiras –, como barreiras que nos protegem da infecção por COVID-19, e circunscrevem a nossa liberdade, remetendo-nos para uma vida intra-muros, não é menos verdade que o dia-a-dia desta Era (?) atenta contra as fronteiras clássicas, nomeadamente as que separavam, outrora, o mundo do trabalho e da escola de outro, mais privado e familiar, que as nossas casas e apartamentos tão bem representam.

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Sair do Inferno dantesco*

A metáfora da travessia é amiúde convocada perante a ameaça sentida em momentos traumáticos.

A representação do Inferno, na Divina Comédia (DC), é a “selva escura”, onde o autor diz ter deparado com “as três feras”. 

Porém a “fera” que mais impacto causa é a loba/Avareza. A sua figura provoca susto, pavor, barra o caminho à progressão, numa ascensão anteriormente iniciada:

“a esperança em progredir me era defesa”

– “assim, sem paz, a fera me encurrala”

– “a empurrar-me lá onde o sol se cala 

 – para baixo me desloco

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Freud na Netflix

Netflix estreou no dia 30 de Março uma série (8 episódios) que intitulou Freud. Com custo, consegui ver três episódios.

Escrever uma nota sobre uma série que não se viu pode parecer ousado e até desonesto e hesitei muito em partilhar o meu ponto de vista.

A série pretende descrever o ambiente finissecular de Viena e, para isso, amalgama uma série de dados, com um fundo histórico (mas, manipulados como, por exemplo, fazer conviver Shinetzler e Freud, que nunca se conheceram, embora se admirassem e partilhassem muitos pontos de vista sobre o homem) ficcionando-os para construir um thriller que possa prender os consumidores desse género de produtos. 

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Luz desviada: A Bovarinha

Agustina Bessa Luís terá revisitado Madame Bovary (Flaubert), por sugestão de Manoel de Oliveira. A escritora acedeu ao pedido do cineasta, ressuscitando Emma e Charles, personagens essenciais da trama de Flaubert – figuras que, pela pena de Bessa Luís, se converteram em Ema e Carlos. Vale Abraão viu a luz em 1991, resultando deste cruzamento feliz. Escassos anos após a publicação da obra, Manoel de Oliveira adaptou-a ao cinema. Tal era o seu propósito quando desafiara a autora!

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Um escritor não morre nunca

O humano acariciou o lombo do gato /- Bem, gato, conseguimos – disse suspirando / – Sim, à beira do vazio compreendeu o mais importante – miou Zorbas / – Ah, sim? E o que é que ela compreendeu? – perguntou o humano/ – Que só voa quem se atreve a fazê-lo – miou Zorbas.

História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar, Luis Sepúlveda

O dia amanheceu cinzento e triste com a notícia da morte de Luis Sepúlveda. 

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O Fascínio de Leonardo

Neste tempo de incerteza e inquietação, em que a maioria de nós se encontra em casa de quarentena, será possível encontrar espaço para a arte? Sinto-o não só possível como necessário.

Uma obra, seja ela escultórica, literária, fotográfica, musical, cinematográfica, ou plástica, tem em si o potencial de desencadear em nós cadeias associativas, que abrem caminho para um pensamento menos saturado, aumentando a nossa tolerância ao desconhecido e assim a nossa capacidade de reverie (a capacidade de permanecer com uma atitude receptiva, de acolher, descodificar, significar e nomear as angústias, para depois as devolver devidamente desintoxicadas). 

E talvez por isso me surja a necessidade de convosco partilhar uma experiência de maravilhamento. 

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A arte faz-nos tão bem!

Au milieu de l’hiver, j’apprenais enfin qu’il y avait en moi un été invincible                         

Albert Camus

Arte a fim de não morrer de verdade, escreveu Nietzsche em Fragmentos póstumos.A arte rompe com a representação comum e utilitarista do mundo, dá-lhe e dá-nos descanso, autoriza a renúncia do provar, de tornar o mundo inteligível, previsível e útil. Podemos descansar do mundo e o mundo pode descansar de nós. Voltaremos a encontrar-nos em breve, nada mais certo, mas por agora repousamos da fadiga dessa negociação diária. O que seria a vida se não tivéssemos a coragem de tentar alguma coisa (Van Gogh)?

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MãePaiFilho – A televisão culta e adulta

Num Portugal em que democracia e televisão a cores foram contemporâneas, a marca BBC sempre foi sinónimo de qualidade. Nesse tempo do correio escrito e do telefone fixo a dieta televisiva seguia uma prescrição semanal. O mundo mudou muito desde então; l’air du temps traz odores de imediatismo e de urgência, a relação com os écrans desconstruiu os conceitos de público e de privado e a influência entre informação e política tornou-se o assunto. Recentemente a RTP2 passou a série MotherFatherSun, título que aglomera sem espaço para respirar os elementos deste ancestral triângulo. 

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