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Amor, Ódio & Redenção

Corpus Christi, A Redenção (Boze Cialo, Polónia – 2019), de Jan Komasa, narra a história de Daniel, um jovem que cumpre pena num centro de detenção para menores, aspirando a ingressar no seminário após resolvidas as suas contas com a justiça. O projecto de abraçar a vida eclesiástica vê-se, porém, liminarmente barrado, em virtude do cadastro do protagonista – a sentença fora decretada na sequência da participação num assassinato. 

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O Homem é aquilo que lê

O homem é aquilo que lê
Joseph Brosky

O “Cidades Invisíveis” de Italo Calvino, aguarda na mesa aqui ao lado para que eu possa continuar a viagem imaginada de Marco Polo, em fantásticos relatos, pelas maravilhosas cidades com nome de mulher. Para trás acabaram de ficar “Uma mulher desnecessária” de Rabih Alameddine, que me emprestou por uns dias a companhia de uma mulher, incógnita mas fascinante, no coração de Beirute, e “O Alegre canto da perdiz” de Paulina Chiziane, um mergulho na imensidão da Zambézia e na história do negro e do branco no continente africano. 

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Carta a Coimbra de Matos

1 de Julho de 2021.
Morreu um dos pais da Psicanálise portuguesa, foram várias as gerações dos seus filhos. 

Querido Coimbra de Matos,

Ontem, antes de ter partido para outro lugar, pensei em si durante uma sessão de análise. A minha paciente, interna de psiquiatria, e que se tem vindo a desiludir com a abordagem psiquiátrica à doença mental, encontrou o seu livro “A Depressão”. Irá ela seguir os seus passos?

Também o guardo, na minha prateleira, com a primeira folha rabiscada por si: “Para a Rita, com um beijo. 31-05-01”.

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O NOME DA ROSA: Umberto Eco e a importância da escuta

Uma recente sessão sobre a contratransferência, fez-me pensar numa afirmação do famoso escritor italiano Umberto Eco. E resolvi partilhar as reflexões que então fiz. Trata-se de um Universitário muito prestigiado, com vasta obra científica publicada, traduzida em várias línguas. Já avançado na sua carreira, resolveu escrever um romance, a que deu o título “O Nome da Rosa”.

Na badana da capa da primeira edição em italiano, que na altura comprei, contava que muitos lhe perguntavam porquê um romance, depois de tantos trabalhos científicos publicados. E explicava que, se depois de tantos trabalhos científicos, o autor publicava agora um romance, era porque, “in età matura, ha scoperto che di ciò di cui non si può teorizzare, si deve narrare “. Cito na língua original porque me parece uma afirmação fundamental quanto a uma conceção do funcionamento psíquico. (traduzindo: em idade madura, descobriu que, aquilo que não se pode teorizar, se deve narrar.) E de facto, a partir daí e continuando a sua atividade universitária, escreveu muitos outros romances (salvo erro mais 7). Narrou. Para que alguém ouvisse (no caso, lesse). 

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O inconsciente é o infantil

Na obra Notas sobre um caso de neurose obsessiva (1909), também conhecida como a análise do caso do Homem dos Ratos, Freud escreveu: O inconsciente é o infantil. Chamava assim a atenção para a importância do reconhecimento da existência de elementos inconscientes ligados às experiências e fantasias infantis presentes no mundo psíquico dos adultos. Na obra, Freud debruça-se particularmente sobre a rigidez dos mecanismos obsessivos instalados de modo a não permitir a conexão do seu paciente com as suas fantasias e desejos infantis, que permaneciam inacessíveis no seu inconsciente.

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SABER VEM DE SABOR

Chegou-me por mãos amigas, o link da Biblioteca Mundial da ONU – www.wdl.org. Lançada pela Unesco em Abril de 2009, esta dádiva para a humanidade, surpreende-nos logo na página inicial com os seguintes dados: 19.147 ítens sobre 193 países entre 8.000 a.C. e 2000. 

Disponível na internet, sem necessidade de registro, permite consultar gratuitamente o acervo de grandes bibliotecas e instituições culturais de inúmeros países. Desenvolvendo o multilinguismo, permite igualmente apreciar e conhecer melhor as diferentes culturas do mundo, nos sete principais idiomas da Unesco: árabe, chinês, inglês, francês, português, russo e espanhol.

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A libertação (psíquica) de Auschwitz

Imersos nesta pandemia cujo “trauma” sanitário estamos certos de que com a ajuda das vacinas vai acabar por passar, mas cujos “traumas” económicos e psíquicos não sabemos que sequelas vão deixar, vale a pena assinalar que no passado dia 27 de Janeiro fez 76 anos da libertação de Auschwitz.

Mas é no consultório que por vezes sou levada a mergulhar no livro “A Bailarina de Auschwitz”, que conta a história (verídica) da destruição e renascimento mental de uma mulher judia (Edith Eger), vítima de Auschwitz, para onde foi levada aos 16 anos, juntamente com os pais e uma irmã. 

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Ethos

Nesta época estranha que vivemos de confinamentos e recolheres obrigatórios, em que ficamos em casa resguardados do vírus, da chuva e do frio mas não de pensar e sentir, surgiu-me através de uma amiga uma série da Netflix, que vi recentemente, e que me parece uma boa sugestão para este novo confinamento.  

Chama se Ethos, palavra de origem grega que significa conjunto de costumes, práticas e crenças  característicos de um povo, como que uma espécie de identidade social.  De origem turca, de Berkun Oya e Ali Farkhonde, tem como personagem principal Meryem, uma empregada doméstica que inicia um processo terapêutico por desmaios sem razão aparente. A série vai-se  adensando trazendo para a história a sua terapeuta (Piri), a terapeuta da sua terapeuta (Gulbin), a sua família (irmão e cunhada Ruhiye), o hodja e sua filha Hayrunnisa.

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INFÂNCIA & CINEMA

Em 1895 Auguste e Louis Lumière fazem a primeira sessão pública do cinematógrafo e Freud lança o “Projeto para uma Psicologia Científica” contendo já ali, seminalmente, as suas descobertas. Contemporâneos enquanto descoberta e irmanados pela abordagem, Cinema e Psicanálise influenciaram-se mantendo uma comunicação estreita – expressa ou velada. O diálogo potencial e complementar, oscilando entre afinidades e divergências, alarga a reflexão sobre as vicissitudes e a diversidade da condição humana.

Na história do cinema a psicanálise aparece muitas vezes confundida com a psiquiatria. Também os psicanalistas (Freud: the secret passion, Huston, 1962) e a sua atividade, confundida com a sua vida pessoal, tem sido alvo de humor senão de descrédito. Em 1926, Wilhelm Pabst projeta o primeiro filme sobre a psicanálise – Os Mistérios da Alma – com assessoria de Sachs no qual Freud se recusa a colaborar respondendo a Abraham (09.06.1925): “Não acredito que uma representação plástica satisfatória de nossas abstrações seja de todo possível.” Mantendo distância e desconfiança em relação ao cinema, a par com uma aversão a biógrafos e a habitual reserva da sua vida privada, aceita uma única vez ser filmado por um paciente americano, Philip R. Lehman, para um documentário (Sigmund Freud: his family and colleagues 1928-1947) lançado em 1985.

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E agora o Natal!!

A jovem Hannah e o seu Natal de 1949. 

Hannah, vivia numa família onde há vários anos, os pais não celebravam o Natal. A ausência dessa celebração, era sentida como um interminável silêncio gritante, que projetava uma tristeza, desesperança e sobretudo uma arrogância mortal que berrava: “Não precisamos do Natal, não precisamos do nascimento nem da vida”.

No Natal de 1949, Hannah, com 16 anos, corajosa e assustada, sente que não é mais possível não ter o seu Natal. E assim, no seu quarto, ergue uma árvore, dispõe velas e enfeites que recorta de folhas coloridas. 

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