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História para crianças (e não só)

Um dos momentos mais divertidos do meu dia é contar histórias aos meus filhos de 2 e 4 anos, pequenos super-heróis à procura de sonhos em tempos de pandemia. Uma destas histórias que me encantou foi “ O coelho que sabia ouvir” de Cori Doerrfeld, finalista do Goodreads Choice Awards. É a história do Tito, um menino que se encontra com um coelho silencioso, que sabe “ouvir” todas as suas palavras e emoções. Com a sua presença silenciosa, o coelho acompanha o Tito na superação da perda até ao reencontro da esperança e da reparação. 

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Um Bem de primeira necessidade

That is part of the beauty of all literature. You discover that your longings are universal longings, that you’re not lonely and isolated from anyone. You belong.

F. Scott Fitzgerald

Preâmbulo 

De entre as medidas restritivas impostas durante o estado de emergência incluiu-se a suspensão do comércio a retalho, com excepção das lojas de bens de primeira necessidade. A ministra considerou os livros como um bem de primeira necessidade e as livrarias puderam permanecer abertas desde que vedado o acesso dos clientes ao seu interior, com venda dos produtos à porta, ao postigo, ou entrega em casa. Considerou também a ministra que não existe o costume de vender livros à porta das livrarias e ainda menos por um postigo. A 4 de Maio,  após 45 dias de estado de emergência, as livrarias reabrem. 

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Nas entrelinhas dos livros

A Porta (1), romance da húngara Magda Szabó, narra a estreita relação que se estabelece entre duas mulheres na Hungria dos anos do pós-guerra: Magda, uma jovem escritora, e a sua empregada, Emerence, uma camponesa analfabeta.

Esta relação entre duas mulheres tão desiguais abre-nos espaço de pensamento.
Ler um romance é, quando ele é bom, uma viagem que em muito extravasa a história contada. Dá-nos acesso a áreas não saturadas da mente, permite-nos novos encadeamentos, com sorte, algum insight.

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Lá fora

Alfred Hitchcock no seu filme de 1954, “Janela Indiscreta” (Rear Window, cuja tradução literal é “Janela das traseiras”, apelando ao que se desenrola por detrás), narra o crescente desenvolvimento de sentimentos paranóides vividos pelo protagonista. Impossibilitado de se mover e confinado ao espaço de sua casa, o fotógrafo Jeff (James Stewart), sente-se gradualmente invadido por um sentimento claustrofóbico paralisante. 

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Limite(S), deslimite(S) e neo-limite(S): uma nova geografia [também] psíquica?!

A realidade em que hoje vivemos, ditada pela crise pandémica, impõe limites novos e desafia outros, outrora firmados e estabelecidos. Nesta espécie de paradoxo – cuidadosamente separados e muito distantes, na rua, MAS confundidos, em casa -, procuramos viver… ou sobreviver.

Se é verdade que as autoridades sanitárias sublinham a necessidade de usarmos protecções externas – máscaras, luvas, viseiras –, como barreiras que nos protegem da infecção por COVID-19, e circunscrevem a nossa liberdade, remetendo-nos para uma vida intra-muros, não é menos verdade que o dia-a-dia desta Era (?) atenta contra as fronteiras clássicas, nomeadamente as que separavam, outrora, o mundo do trabalho e da escola de outro, mais privado e familiar, que as nossas casas e apartamentos tão bem representam.

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Sair do Inferno dantesco*

A metáfora da travessia é amiúde convocada perante a ameaça sentida em momentos traumáticos.

A representação do Inferno, na Divina Comédia (DC), é a “selva escura”, onde o autor diz ter deparado com “as três feras”. 

Porém a “fera” que mais impacto causa é a loba/Avareza. A sua figura provoca susto, pavor, barra o caminho à progressão, numa ascensão anteriormente iniciada:

“a esperança em progredir me era defesa”

– “assim, sem paz, a fera me encurrala”

– “a empurrar-me lá onde o sol se cala 

 – para baixo me desloco

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Freud na Netflix

Netflix estreou no dia 30 de Março uma série (8 episódios) que intitulou Freud. Com custo, consegui ver três episódios.

Escrever uma nota sobre uma série que não se viu pode parecer ousado e até desonesto e hesitei muito em partilhar o meu ponto de vista.

A série pretende descrever o ambiente finissecular de Viena e, para isso, amalgama uma série de dados, com um fundo histórico (mas, manipulados como, por exemplo, fazer conviver Shinetzler e Freud, que nunca se conheceram, embora se admirassem e partilhassem muitos pontos de vista sobre o homem) ficcionando-os para construir um thriller que possa prender os consumidores desse género de produtos. 

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Luz desviada: A Bovarinha

Agustina Bessa Luís terá revisitado Madame Bovary (Flaubert), por sugestão de Manoel de Oliveira. A escritora acedeu ao pedido do cineasta, ressuscitando Emma e Charles, personagens essenciais da trama de Flaubert – figuras que, pela pena de Bessa Luís, se converteram em Ema e Carlos. Vale Abraão viu a luz em 1991, resultando deste cruzamento feliz. Escassos anos após a publicação da obra, Manoel de Oliveira adaptou-a ao cinema. Tal era o seu propósito quando desafiara a autora!

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Um escritor não morre nunca

O humano acariciou o lombo do gato /- Bem, gato, conseguimos – disse suspirando / – Sim, à beira do vazio compreendeu o mais importante – miou Zorbas / – Ah, sim? E o que é que ela compreendeu? – perguntou o humano/ – Que só voa quem se atreve a fazê-lo – miou Zorbas.

História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar, Luis Sepúlveda

O dia amanheceu cinzento e triste com a notícia da morte de Luis Sepúlveda. 

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O Fascínio de Leonardo

Neste tempo de incerteza e inquietação, em que a maioria de nós se encontra em casa de quarentena, será possível encontrar espaço para a arte? Sinto-o não só possível como necessário.

Uma obra, seja ela escultórica, literária, fotográfica, musical, cinematográfica, ou plástica, tem em si o potencial de desencadear em nós cadeias associativas, que abrem caminho para um pensamento menos saturado, aumentando a nossa tolerância ao desconhecido e assim a nossa capacidade de reverie (a capacidade de permanecer com uma atitude receptiva, de acolher, descodificar, significar e nomear as angústias, para depois as devolver devidamente desintoxicadas). 

E talvez por isso me surja a necessidade de convosco partilhar uma experiência de maravilhamento. 

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