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A libertação (psíquica) de Auschwitz

Imersos nesta pandemia cujo “trauma” sanitário estamos certos de que com a ajuda das vacinas vai acabar por passar, mas cujos “traumas” económicos e psíquicos não sabemos que sequelas vão deixar, vale a pena assinalar que no passado dia 27 de Janeiro fez 76 anos da libertação de Auschwitz.

Mas é no consultório que por vezes sou levada a mergulhar no livro “A Bailarina de Auschwitz”, que conta a história (verídica) da destruição e renascimento mental de uma mulher judia (Edith Eger), vítima de Auschwitz, para onde foi levada aos 16 anos, juntamente com os pais e uma irmã. 

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Ethos

Nesta época estranha que vivemos de confinamentos e recolheres obrigatórios, em que ficamos em casa resguardados do vírus, da chuva e do frio mas não de pensar e sentir, surgiu-me através de uma amiga uma série da Netflix, que vi recentemente, e que me parece uma boa sugestão para este novo confinamento.  

Chama se Ethos, palavra de origem grega que significa conjunto de costumes, práticas e crenças  característicos de um povo, como que uma espécie de identidade social.  De origem turca, de Berkun Oya e Ali Farkhonde, tem como personagem principal Meryem, uma empregada doméstica que inicia um processo terapêutico por desmaios sem razão aparente. A série vai-se  adensando trazendo para a história a sua terapeuta (Piri), a terapeuta da sua terapeuta (Gulbin), a sua família (irmão e cunhada Ruhiye), o hodja e sua filha Hayrunnisa.

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INFÂNCIA & CINEMA

Em 1895 Auguste e Louis Lumière fazem a primeira sessão pública do cinematógrafo e Freud lança o “Projeto para uma Psicologia Científica” contendo já ali, seminalmente, as suas descobertas. Contemporâneos enquanto descoberta e irmanados pela abordagem, Cinema e Psicanálise influenciaram-se mantendo uma comunicação estreita – expressa ou velada. O diálogo potencial e complementar, oscilando entre afinidades e divergências, alarga a reflexão sobre as vicissitudes e a diversidade da condição humana.

Na história do cinema a psicanálise aparece muitas vezes confundida com a psiquiatria. Também os psicanalistas (Freud: the secret passion, Huston, 1962) e a sua atividade, confundida com a sua vida pessoal, tem sido alvo de humor senão de descrédito. Em 1926, Wilhelm Pabst projeta o primeiro filme sobre a psicanálise – Os Mistérios da Alma – com assessoria de Sachs no qual Freud se recusa a colaborar respondendo a Abraham (09.06.1925): “Não acredito que uma representação plástica satisfatória de nossas abstrações seja de todo possível.” Mantendo distância e desconfiança em relação ao cinema, a par com uma aversão a biógrafos e a habitual reserva da sua vida privada, aceita uma única vez ser filmado por um paciente americano, Philip R. Lehman, para um documentário (Sigmund Freud: his family and colleagues 1928-1947) lançado em 1985.

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E agora o Natal!!

A jovem Hannah e o seu Natal de 1949. 

Hannah, vivia numa família onde há vários anos, os pais não celebravam o Natal. A ausência dessa celebração, era sentida como um interminável silêncio gritante, que projetava uma tristeza, desesperança e sobretudo uma arrogância mortal que berrava: “Não precisamos do Natal, não precisamos do nascimento nem da vida”.

No Natal de 1949, Hannah, com 16 anos, corajosa e assustada, sente que não é mais possível não ter o seu Natal. E assim, no seu quarto, ergue uma árvore, dispõe velas e enfeites que recorta de folhas coloridas. 

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NATAL

Não na distância. Aqui. No meio de nós. Brilha

Na Primeira Grande Guerra, dita das trincheiras, as linhas ficavam muito próximas, de modo que cada soldado podia ver e ouvir os seus inimigos e alvejá-los caso se mostrassem. 

No dia 24 de Dezembro do ano de 1914, nas imediações da cidade de Ypres, na Flandres, alguns soldados aparentavam um humor descontraído e festivo, pareciam não se importar nem com a guerra, nem com o inverno. Alguns houve que, desarmados, começaram a  percorrer o espaço entre uma trincheira e outra, zona conhecida como terra de ninguém. Caminhavam até à trincheira inimiga e desejavam um Feliz Natal, oferecendo bebidas, partilhando comida, cigarros ou charutos, dando apertos de mão, oferecendo presentes. Trocaram botões de uniformes como lembranças e defrontaram-se em partidas de futebol. Há também relatos de soldados que tentaram montar árvores de natal dentro das trincheiras. Contam os historiadores que o clima de descontração e de festa borbulhava e que gerava um contágio mútuo entre as frentes inimigas, apesar dos editais contra a confraternização. Alguns soldados dedicaram cânticos de Natal aos adversários e muitos concordaram em estender a paz até ao dia de Natal para se poderem encontrar de novo e enterrar os mortos. Cada lado ajudou o outro a cavar sepulturas e a realizar as últimas homenagens fúnebres. As altas patentes ameaçaram os que fugiam ao cumprimento do dever. Mas nenhum edital e nenhuma ameaça resultou. Os oficiais envolvidos na trégua foram depois duramente punidos pelos seus superiores. Muitos recordaram a trégua nas cartas enviadas para casa e em notas dos seus diários: “Maravilhosamente espantoso, ainda que muito estranho”, escreveu um soldado alemão.

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Morreste-nos ou viveste-nos?!

Quino, faz muito tempo que este teu cartoon me acompanha, e sintetiza muito do que é para mim a psicanálise. Utilizo-o habitualmente na sala de análise, quando o desejo de sermos outros, de nos livrarmos de nós, de ir para a Conchichina, de mudar tudo, de começar do zero, se instala. Este hibridismo genialmente paradoxal a que nos habituaste, de sabedoria e decepção, de humor e surpresa, de poesia e crítica, faz-nos rir quando a dor se torna por vezes sufocante. E tu bem sabes que o riso é muitas vezes a nossa terapia, a nossa possibilidade transformativa. 

Por tudo isso e antes que termine o ano de “mudança catastrófica” global, que te viu partir, preciso revelar-te a minha gratidão e a boa companhia que significou o teu humor e o universo da Mafalda, seus pais e irmão mais novo Guille, e os amiguinhos Felipe, Manolito, Susanita e Miguelito. 

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Aos olhos de um vírus

Hoje, dia 3 de Dezembro de 2020 é lançada a edição do livro “Bode Inspiratório/Escape Goat”, saído à rua pelas mãos da Relógio d’Água em meados deste ano. Um projecto literário e artístico que juntou 46 escritores e 46 artistas plásticos portugueses, para além de 50 tradutores, durante os primeiros meses desta pandemia.

Entre muitos outros estão Mário de Carvalho, Inês Pedrosa, Afonso Cruz, Afonso Reis Cabral, Gabriela Ruivo Trindade, Rui Zink, José Fanha, Domingos Lobo, Licínia Quitério, Gonçalo M. Tavares, Álvaro Laborinho Lúcio, Rita Ferro, António Olaio, Ana Vidigal, Pedro Cabrita Reis, Manuel João Vieira, Pedro Proença e Teresa Pavão.

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Boas famílias

Se Freud fosse vivo e assinasse a TV por cabo, possivelmente tornar-se-ia espectador de Succession, série emitida pelo canal HBO, onde a trama Shakespeariana está bem viva e é servida magistralmente. Quando na sua obra A interpretação dos sonhos, Freud refere que “mais de uma causa de hostilidade se esconde na relação entre pais e filhos” estava a aludir ao sentimento latente de desejo de morte no seio familiar, onde: “a devoção filial tem o hábito de aceder a outros interesses”. Quem conhecer a história de Freud no seio da família psicanalítica saberá do que fala.

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PORTO _ Cidade das Pontes

O Porto, ao norte
Onde fiquei
Onde tantas e tantas vezes

Regressei
Atravessando pontes
Bem altas sobre as escarpas
Sobre o Douro prateado

Cruzado
Por cinco pontes de um só arco
De lado a lado, desenhado,
Firme, elegante, bem lançado
Dois de ferro rendilhado
Dois de cimento armado.
E ao fundo, o poente iluminado,

A Foz discreta sobre o Oceano
A Barra de travessia incerta
Lá dentro, o Porto
Sóbrio e granítico, esconde
Íntimos jardins românticos

Com bancos de pedra e lagos
Floridos com belas magnólias
Japoneiras com camélias
Flores efémeras, com pétalas
Tapetam os seus relvados.
No Porto, sóbrio e granítico
Onde fiquei
Com as belas magnólias
Me encantei.
Na certeza de que as pontes
Não apenas de regresso
Me dariam também acesso

A todo o Mundo!

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História para crianças (e não só)

Um dos momentos mais divertidos do meu dia é contar histórias aos meus filhos de 2 e 4 anos, pequenos super-heróis à procura de sonhos em tempos de pandemia. Uma destas histórias que me encantou foi “ O coelho que sabia ouvir” de Cori Doerrfeld, finalista do Goodreads Choice Awards. É a história do Tito, um menino que se encontra com um coelho silencioso, que sabe “ouvir” todas as suas palavras e emoções. Com a sua presença silenciosa, o coelho acompanha o Tito na superação da perda até ao reencontro da esperança e da reparação. 

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