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Uma breve nota sobre Resiliência

O conceito de resiliência, proveniente da física, tem vindo a ser explorado nas últimas décadas no campo da psiquiatria do desenvolvimento infantil, encontrando-se intimamente ligado ao conceito de vulnerabilidade. Na área da investigação, estudos têm surgido ligados à exposição a situações extremas observadas em crianças deslocadas, refugiadas, órfãs, separadas dos seus pais pela morte ou pela desorganização social. O conceito indica que mesmo o mais sensível dos organismos, quando submetido a severos ambientes de violência e destruição, pode encontrar mecanismos intrínsecos que o ajudem a tolerar e também a adaptar-se, resistindo e sobrevivendo. Sabemos, no entanto, que tais experiências deixarão marcas psíquicas indeléveis. 

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A Verdade morreu…no Capitólio

Sou um mentiroso! Cedo aprendi a mentir, antes mesmo de o perceber.

Somos todos mentirosos, isso é uma certeza.

Uns fazem mentiras simpáticas, inocentes, outras mais maldosas, interesseiras e canalhas; outras ainda expectáveis, alguns vão longe demais nas suas mentiras e muitas mentiras nunca são reveladas!

D. Quixote mentia a si mesmo convictamente e Sancho Pança mentia acreditar no seu amo. Cervantes foi (e é) adorado por escrever um romance que nada tinha de verdade, facto inédito até então. 

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TRUMP POWER

Numa luminosa crónica, escrita no Público, perto do termo do ano maldito, José Pacheco Pereira sublinhava o óbvio (?!): a Democracia institui o poder da Razão e dos Valores, contra o poder da natureza. A Democracia é uma notável construção contra-natura, rematava o historiador. 

Como bem sabemos, idealmente – e aos olhos da Lei -, todos as pessoas são iguais, em direitos e deveres. 

Esta premissa legitima a possibilidade de sujeitos não-brancos, sem tecido eréctil ou menos dotados de massa muscular acederem ao poder. O jogo democrático – essa criação apoiada na ética, direito e racionalidade – consubstancia esta possibilidade, consequentemente.

A 6 de Janeiro de 2021, nos Estados Unidos da América – esse bastião (?) da Democracia -, assistimos ao impensável: quando o Senado e a Câmara dos Representantes, em sessão conjunta, homologavam a eleição de Biden para a Presidência Norte-Americana, o Capitólio foi invadido por um bando de desordeiros, aparentemente instigados e manipulados pelo presidente Trump, ainda em exercício…

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Pandemia e Saúde Mental

Há umas semanas atrás estive presente numa tertúlia sobre a saúde mental na pandemia, organizada pelos chamados “negacionistas”: os que negam a perigosidade do vírus e não aceitam as medidas impostas (máscara, higienização, confinamentos, estado de emergência, etc…), chegando mesmo a formular teorias da conspiração – “A fundação Bill Gates tem ligações com a OMS e com as grandes farmacêuticas que estão a fazer as vacinas; foi feita uma simulação de uma pandemia em Outubro de 2019 com um vírus imaginado que curiosamente era muito parecido com este… Sabe-se lá como terá surgido o vírus… talvez tenha sido fabricado como forma de enriquecimento de alguns…”

Se os entrevistados nesta tertúlia mostravam um pensamento isento e livre, condição necessária a poder pensar de forma rigorosa e verdadeira, já o entrevistador, mais do que procurar compreender de forma sincera e científica as repercussões da pandemia na saúde mental, tentava “puxar a brasa à sua sardinha” referindo uma “histeria coletiva da humanidade”, que se compreendia num “mundo fundamentalmente neurótico”, o que explicava a aceitação dos rituais de higienização pelos obsessivos, e do confinamento pelos fóbicos! 

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E agora o Natal!!

A jovem Hannah e o seu Natal de 1949. 

Hannah, vivia numa família onde há vários anos, os pais não celebravam o Natal. A ausência dessa celebração, era sentida como um interminável silêncio gritante, que projetava uma tristeza, desesperança e sobretudo uma arrogância mortal que berrava: “Não precisamos do Natal, não precisamos do nascimento nem da vida”.

No Natal de 1949, Hannah, com 16 anos, corajosa e assustada, sente que não é mais possível não ter o seu Natal. E assim, no seu quarto, ergue uma árvore, dispõe velas e enfeites que recorta de folhas coloridas. 

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NATAL

Não na distância. Aqui. No meio de nós. Brilha

Na Primeira Grande Guerra, dita das trincheiras, as linhas ficavam muito próximas, de modo que cada soldado podia ver e ouvir os seus inimigos e alvejá-los caso se mostrassem. 

No dia 24 de Dezembro do ano de 1914, nas imediações da cidade de Ypres, na Flandres, alguns soldados aparentavam um humor descontraído e festivo, pareciam não se importar nem com a guerra, nem com o inverno. Alguns houve que, desarmados, começaram a  percorrer o espaço entre uma trincheira e outra, zona conhecida como terra de ninguém. Caminhavam até à trincheira inimiga e desejavam um Feliz Natal, oferecendo bebidas, partilhando comida, cigarros ou charutos, dando apertos de mão, oferecendo presentes. Trocaram botões de uniformes como lembranças e defrontaram-se em partidas de futebol. Há também relatos de soldados que tentaram montar árvores de natal dentro das trincheiras. Contam os historiadores que o clima de descontração e de festa borbulhava e que gerava um contágio mútuo entre as frentes inimigas, apesar dos editais contra a confraternização. Alguns soldados dedicaram cânticos de Natal aos adversários e muitos concordaram em estender a paz até ao dia de Natal para se poderem encontrar de novo e enterrar os mortos. Cada lado ajudou o outro a cavar sepulturas e a realizar as últimas homenagens fúnebres. As altas patentes ameaçaram os que fugiam ao cumprimento do dever. Mas nenhum edital e nenhuma ameaça resultou. Os oficiais envolvidos na trégua foram depois duramente punidos pelos seus superiores. Muitos recordaram a trégua nas cartas enviadas para casa e em notas dos seus diários: “Maravilhosamente espantoso, ainda que muito estranho”, escreveu um soldado alemão.

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Morreste-nos ou viveste-nos?!

Quino, faz muito tempo que este teu cartoon me acompanha, e sintetiza muito do que é para mim a psicanálise. Utilizo-o habitualmente na sala de análise, quando o desejo de sermos outros, de nos livrarmos de nós, de ir para a Conchichina, de mudar tudo, de começar do zero, se instala. Este hibridismo genialmente paradoxal a que nos habituaste, de sabedoria e decepção, de humor e surpresa, de poesia e crítica, faz-nos rir quando a dor se torna por vezes sufocante. E tu bem sabes que o riso é muitas vezes a nossa terapia, a nossa possibilidade transformativa. 

Por tudo isso e antes que termine o ano de “mudança catastrófica” global, que te viu partir, preciso revelar-te a minha gratidão e a boa companhia que significou o teu humor e o universo da Mafalda, seus pais e irmão mais novo Guille, e os amiguinhos Felipe, Manolito, Susanita e Miguelito. 

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Aos olhos de um vírus

Hoje, dia 3 de Dezembro de 2020 é lançada a edição do livro “Bode Inspiratório/Escape Goat”, saído à rua pelas mãos da Relógio d’Água em meados deste ano. Um projecto literário e artístico que juntou 46 escritores e 46 artistas plásticos portugueses, para além de 50 tradutores, durante os primeiros meses desta pandemia.

Entre muitos outros estão Mário de Carvalho, Inês Pedrosa, Afonso Cruz, Afonso Reis Cabral, Gabriela Ruivo Trindade, Rui Zink, José Fanha, Domingos Lobo, Licínia Quitério, Gonçalo M. Tavares, Álvaro Laborinho Lúcio, Rita Ferro, António Olaio, Ana Vidigal, Pedro Cabrita Reis, Manuel João Vieira, Pedro Proença e Teresa Pavão.

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A “Linha Vira(l) Solidariedade” (por alguém que não a integrou)

O AMOR REDIME O MUNDO diziam eles
Mas onde está o mundo senão aqui?
Mário Cesariny*

A estranheza e a violência com que fomos surpreendidos pelo acontecimento “Sars-Cov-2”, revestiu a nossa vida de um sentimento de irrealidade, pela aparente perda de referências, pela descontinuidade, onde nada do que era familiar, quer no tempo quer no espaço, parecia passível de ser reencontrado. Tal como num sonho. Este ambiente com contornos oníricos onde em parte sentimos que passámos a viver, teve entre outros aspetos o “mérito”, tal como os sonhos, de evidenciar aspetos que antes pareciam “ocultos”, desde logo, em relação ao nosso próprio lugar e experiência do nosso lugar individual e coletivo no mundo; à nossa relação com “o que é isto de viver”.

Muito se irá assim continuar a escrever e a representar de todas as formas, por natureza infinitas, que o trabalho do sonho permite, sobre o impacto e a natureza não só da pandemia, como dos fenómenos que a antecederam, acompanharam e dos que a seguirão. Um desses fenómenos a que assistimos foi a criação da “Linha Vira(l) Solidariedade”, pela Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP).

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Tolerar ESTA frustração – uma curta reflexão sobre as defesas radicais suscitadas pelo clima pandémico

A maturidade faz-se acompanhar de uma crescente capacidade para tolerar a frustração. 

Habitualmente, as birras, manifestações de cólera e ira diante de uma contrariedade decrescem à medida que nos desenvolvemos. Vamos aguentando a contrariedade, o desprazer – manifestações de frustração – à medida que nos tornamos mais e mais maduros. 

Com a idade, o nosso aparelho psíquico vai ganhando robustez, conseguindo integrar a contrariedade – “Apetecia-me muito comprar aquela caneta, agora, mas, se o fizer, fico sem dinheiro para viver o resto do mês e assumir as minhas responsabilidades, os meus compromissos…” O prazer, no adulto, pode ser adiado, à espera de uma ocasião mais adequada para ser experimentado.

Os tempos que vivemos – crise pandémica e medidas sanitárias de combate à mesma – constituem um momento singular para testar a nossa capacidade integrativa, i.e., a nossa capacidade para, aceitando os sucessivos constrangimentos, vivermos o melhor possível, cientes de nos encontrarmos temporariamente privados de muitos dos hábitos e gestos que compunham a nossa vida… e a nossa felicidade!

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