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A Humanização da Imunização

Segundo o Psicanalista Contardo Calligaris a patologia, neste começo da pandemia, não está no suposto pânico, mas na negação do que está acontecendo.

Ao ler esta frase recordei-me da talvez mais poderosa imagem do desespero do início do seculo XXI fotografada por Richard Drew.

Olhem para esta foto do dia 11 de setembro de 2001, World Trade Center, 09h 41 ́15 ́ ́. Segundo o teólogo Mark D. Thompson talvez esta seja a mais poderosa imagem do desespero. Ficou conhecida como “The falling man “. Este homem escolheu saltar? Há uma aparente serenidade e uma suspensão no tempo e espaço como se todos nós naquele momento traumático fossemos convidados a observar o nosso corpo em queda para, paradoxalmente, garantirmos a nossa sobrevivência psíquica, como se fossemos meros observadores dum processo em que ficamos dissociados das nossas emoções. Imobilizada num lugar do irrepresentável, esta imagem deixou de ser apresentada durante uma década, pois o horror traumático do mergulho para a morte “escolhido” por outros 200 seres, envolve um pudor pessoal e íntimo, doloroso demais para ser evocado.

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A libertação (psíquica) de Auschwitz

Imersos nesta pandemia cujo “trauma” sanitário estamos certos de que com a ajuda das vacinas vai acabar por passar, mas cujos “traumas” económicos e psíquicos não sabemos que sequelas vão deixar, vale a pena assinalar que no passado dia 27 de Janeiro fez 76 anos da libertação de Auschwitz.

Mas é no consultório que por vezes sou levada a mergulhar no livro “A Bailarina de Auschwitz”, que conta a história (verídica) da destruição e renascimento mental de uma mulher judia (Edith Eger), vítima de Auschwitz, para onde foi levada aos 16 anos, juntamente com os pais e uma irmã. 

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A ESTUPIDEZ DE EXISTIR

(Uma vacina contra a estupidez
seria um estrondoso fracasso comercial
Todos a recomendariam
ninguém se sentiria receptor adequado…)

No peculiar trajecto da cultura em que mergulhamos geraram-se inúmeras confusões. Na pressa e no protagonismo dos ultimatos tecnológicos, o cidadão comum já dificilmente  distingue o real do virtual, o interno do externo, as regras da liberdade democrática das regras da liberdade psicológica, os comportamentos experienciados dos sentimentos desbaratados, as intelectualidades racionalizantes das vozearias triunfantes. 

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Uma breve nota sobre Resiliência

O conceito de resiliência, proveniente da física, tem vindo a ser explorado nas últimas décadas no campo da psiquiatria do desenvolvimento infantil, encontrando-se intimamente ligado ao conceito de vulnerabilidade. Na área da investigação, estudos têm surgido ligados à exposição a situações extremas observadas em crianças deslocadas, refugiadas, órfãs, separadas dos seus pais pela morte ou pela desorganização social. O conceito indica que mesmo o mais sensível dos organismos, quando submetido a severos ambientes de violência e destruição, pode encontrar mecanismos intrínsecos que o ajudem a tolerar e também a adaptar-se, resistindo e sobrevivendo. Sabemos, no entanto, que tais experiências deixarão marcas psíquicas indeléveis. 

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A Verdade morreu…no Capitólio

Sou um mentiroso! Cedo aprendi a mentir, antes mesmo de o perceber.

Somos todos mentirosos, isso é uma certeza.

Uns fazem mentiras simpáticas, inocentes, outras mais maldosas, interesseiras e canalhas; outras ainda expectáveis, alguns vão longe demais nas suas mentiras e muitas mentiras nunca são reveladas!

D. Quixote mentia a si mesmo convictamente e Sancho Pança mentia acreditar no seu amo. Cervantes foi (e é) adorado por escrever um romance que nada tinha de verdade, facto inédito até então. 

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TRUMP POWER

Numa luminosa crónica, escrita no Público, perto do termo do ano maldito, José Pacheco Pereira sublinhava o óbvio (?!): a Democracia institui o poder da Razão e dos Valores, contra o poder da natureza. A Democracia é uma notável construção contra-natura, rematava o historiador. 

Como bem sabemos, idealmente – e aos olhos da Lei -, todos as pessoas são iguais, em direitos e deveres. 

Esta premissa legitima a possibilidade de sujeitos não-brancos, sem tecido eréctil ou menos dotados de massa muscular acederem ao poder. O jogo democrático – essa criação apoiada na ética, direito e racionalidade – consubstancia esta possibilidade, consequentemente.

A 6 de Janeiro de 2021, nos Estados Unidos da América – esse bastião (?) da Democracia -, assistimos ao impensável: quando o Senado e a Câmara dos Representantes, em sessão conjunta, homologavam a eleição de Biden para a Presidência Norte-Americana, o Capitólio foi invadido por um bando de desordeiros, aparentemente instigados e manipulados pelo presidente Trump, ainda em exercício…

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Pandemia e Saúde Mental

Há umas semanas atrás estive presente numa tertúlia sobre a saúde mental na pandemia, organizada pelos chamados “negacionistas”: os que negam a perigosidade do vírus e não aceitam as medidas impostas (máscara, higienização, confinamentos, estado de emergência, etc…), chegando mesmo a formular teorias da conspiração – “A fundação Bill Gates tem ligações com a OMS e com as grandes farmacêuticas que estão a fazer as vacinas; foi feita uma simulação de uma pandemia em Outubro de 2019 com um vírus imaginado que curiosamente era muito parecido com este… Sabe-se lá como terá surgido o vírus… talvez tenha sido fabricado como forma de enriquecimento de alguns…”

Se os entrevistados nesta tertúlia mostravam um pensamento isento e livre, condição necessária a poder pensar de forma rigorosa e verdadeira, já o entrevistador, mais do que procurar compreender de forma sincera e científica as repercussões da pandemia na saúde mental, tentava “puxar a brasa à sua sardinha” referindo uma “histeria coletiva da humanidade”, que se compreendia num “mundo fundamentalmente neurótico”, o que explicava a aceitação dos rituais de higienização pelos obsessivos, e do confinamento pelos fóbicos! 

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E agora o Natal!!

A jovem Hannah e o seu Natal de 1949. 

Hannah, vivia numa família onde há vários anos, os pais não celebravam o Natal. A ausência dessa celebração, era sentida como um interminável silêncio gritante, que projetava uma tristeza, desesperança e sobretudo uma arrogância mortal que berrava: “Não precisamos do Natal, não precisamos do nascimento nem da vida”.

No Natal de 1949, Hannah, com 16 anos, corajosa e assustada, sente que não é mais possível não ter o seu Natal. E assim, no seu quarto, ergue uma árvore, dispõe velas e enfeites que recorta de folhas coloridas. 

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NATAL

Não na distância. Aqui. No meio de nós. Brilha

Na Primeira Grande Guerra, dita das trincheiras, as linhas ficavam muito próximas, de modo que cada soldado podia ver e ouvir os seus inimigos e alvejá-los caso se mostrassem. 

No dia 24 de Dezembro do ano de 1914, nas imediações da cidade de Ypres, na Flandres, alguns soldados aparentavam um humor descontraído e festivo, pareciam não se importar nem com a guerra, nem com o inverno. Alguns houve que, desarmados, começaram a  percorrer o espaço entre uma trincheira e outra, zona conhecida como terra de ninguém. Caminhavam até à trincheira inimiga e desejavam um Feliz Natal, oferecendo bebidas, partilhando comida, cigarros ou charutos, dando apertos de mão, oferecendo presentes. Trocaram botões de uniformes como lembranças e defrontaram-se em partidas de futebol. Há também relatos de soldados que tentaram montar árvores de natal dentro das trincheiras. Contam os historiadores que o clima de descontração e de festa borbulhava e que gerava um contágio mútuo entre as frentes inimigas, apesar dos editais contra a confraternização. Alguns soldados dedicaram cânticos de Natal aos adversários e muitos concordaram em estender a paz até ao dia de Natal para se poderem encontrar de novo e enterrar os mortos. Cada lado ajudou o outro a cavar sepulturas e a realizar as últimas homenagens fúnebres. As altas patentes ameaçaram os que fugiam ao cumprimento do dever. Mas nenhum edital e nenhuma ameaça resultou. Os oficiais envolvidos na trégua foram depois duramente punidos pelos seus superiores. Muitos recordaram a trégua nas cartas enviadas para casa e em notas dos seus diários: “Maravilhosamente espantoso, ainda que muito estranho”, escreveu um soldado alemão.

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Morreste-nos ou viveste-nos?!

Quino, faz muito tempo que este teu cartoon me acompanha, e sintetiza muito do que é para mim a psicanálise. Utilizo-o habitualmente na sala de análise, quando o desejo de sermos outros, de nos livrarmos de nós, de ir para a Conchichina, de mudar tudo, de começar do zero, se instala. Este hibridismo genialmente paradoxal a que nos habituaste, de sabedoria e decepção, de humor e surpresa, de poesia e crítica, faz-nos rir quando a dor se torna por vezes sufocante. E tu bem sabes que o riso é muitas vezes a nossa terapia, a nossa possibilidade transformativa. 

Por tudo isso e antes que termine o ano de “mudança catastrófica” global, que te viu partir, preciso revelar-te a minha gratidão e a boa companhia que significou o teu humor e o universo da Mafalda, seus pais e irmão mais novo Guille, e os amiguinhos Felipe, Manolito, Susanita e Miguelito. 

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