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Volto já, meu pai

Seres gregários, o desejo de nos ligarmos aos outros é o que nos mobiliza, desde o nascimento. A procura do Outro é um impulso profundamente ancorado na nossa organização psíquica, corporal e visceral e é a qualidade da resposta a esta necessidade primeira que nos garante um equilíbrio biológico e psíquico elementar e a possibilidade de prosseguirmos a vida. O nosso sopro vital. A proximidade e o laço social afectam profundamente a nossa saúde física e mental, desde sempre e para sempre, até ao fim. 

A necessidade do contacto humano não diz apenas respeito à infância. A sua carência precoce é a mais grave e a mais profunda, mas sempre que ocorre reactualiza o trauma ou introduz o mal-estar no tecido humano e rompe o equilíbrio somato-psíquico, rasgão que é preciso voltar a tecer, com todo o cuidado e vagar, trabalho que se fará de novo através da relação humana e do laço. Não há outro modo.

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Fogachos Pandémicos III: Entre a violência e o cuidado

Mutirão
Origem: tupi
Significado: Trabalho em comum.

Segundo o Wikipedia, mutirão caracteriza-se pela “Mobilização coletiva para lograr um fim, baseando-se na ajuda mútua prestada gratuitamente. É uma expressão usada originalmente para o trabalho no campo ou na construção civil de casas populares, em que todos são beneficiários e, concomitantemente, prestam auxílio, num sistema de rodízio e sem hierarquia. Atualmente, por extensão de sentido, “mutirão” pode designar qualquer iniciativa coletiva para a execução de um serviço não remunerado.”

Tomando a radicalidade que esse conceito-ato sugere, poderíamos assumi-lo, como uma boa forma de vida coletiva, impregnada daquilo que Vladimir Safatle nomeia de solidariedade genérica.

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Progresso e Apocalipse

A narrativa do progresso tem sido central na nossa cultura nos últimos 300 anos. Induz-nos a acreditar que o tempo é uma seta que avança para a frente, fazendo-se acompanhar de cada vez mais e melhor em todas as áreas: maior progresso tecnológico, científico, económico, moral, etc. Tende a ser acompanhada por modelos económicos que insistem no crescimento independentemente da sustentabilidade e numa fé cega na tecnologia. 

Esta narrativa lida mal com a noção de limite. Por exemplo, que vivemos num planeta com recursos finitos e limitados, pelo que o crescimento não pode ser ilimitado. Talvez por isso, dentro dos temas ambientais, haja temas mais populares que outros. Por exemplo, o das alterações climáticas é mais popular que o tema do fim das reservas de petróleo. Este apresenta-se como narrativa de limite: energias fósseis que demoraram milhões de anos a constituir-se, poderão esgotar-se dentro de alguns anos. O outro, esconde ainda uma narrativa de poder: a humanidade tem tanto poder tecnológico que é capaz de alterar o equilíbrio da natureza! Mas o gênio humano também será capaz de encontrar soluções quando a situação o exigir.

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Fogachos Pandémico 2 – Desafios à Psicanálise e à sua criatividade

Quando há poucos dias vi na televisão um documentário sobre as aterradoras desumanidades cometidas pelo Estado Islâmico no Iraque, senti que a pandemia e os seus efeitos não se comparavam com aquele terror. A pandemia tem provocado um grande sofrimento, mas quando se assiste a crimes bárbaros feitos por homens sobre os seus semelhantes, o impacto é brutal. Há uma maldade sem qualquer tipo de piedade e um horror inimaginável nas vítimas. 

Mas talvez esta comparação seja uma defesa que procure suavizar os efeitos da pandemia, que também nos tem perseguido e criado cenários de grande temor. Pandemia que introduziu uma ameaça de morte e de ruína por todo o mundo, deixando-nos muitas vezes “sem palavras” para descrevermos o que sentimos.  Fazer uma psicanálise pode ajudar-nos a criar essas palavras, dando forma e nome a “estados de impensabilidade” (L. Nosek), ou à possibilidade de colocar em gesto a realidade interior. Uma psicanálise deve ser uma experiência emocional partilhada e transformadora. A. Ionescu (1998), diz-nos que somos seres capazes de criar um saber da própria existência, um saber de si existindo, que não tem nada a ver com um saber intelectual,” um saber que é ser.”  

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O meu nome é Corona

O flagelo não está à medida do homem, dizem então que o flagelo é irreal, é um pesadelo que vai passar. Mas ele demora em passar e, de pesadelo em pesadelo, são os homens que passam (…)”

Albert Camus (1947). A Peste

O meu nome é Corona e a minha chegada não é bem-vinda. Não estou aqui por vontade própria, não tenho vontade, quanto mais própria. Desconheço quem trespassou a minha morada, mas vou esclarecer alguns pontos contigo, humano. Fui convidado pela tua insensatez. Sei qual o teu maior desejo: fechar a porta que me permite entrar, sem ser convidado, e possuir-te literalmente por dentro. Sou simples e há quem diga que não sou um ser vivo, mas o que é um ser vivo? Tens respeitado a vida? Sou eu o único responsável pelo teu desespero?

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Um irrespirável Confina-Mesmo

Um ano depois estávamos cansados de olhar o mundo através de janelas e ecrãs…

Há umas semanas dei por mim a pensar como tem sido mais difícil este confinamento face ao primeiro, entre Março e Maio de 2020. “Viciada” num pensar psicanalítico, procurei encontrar imagens e palavras dentro de mim que pudessem construir um retrato do meu interior, sinalizando também aquilo que na realidade externa o tinha alterado. Na psicanálise, as imagens internas ajudam-nos não só a encontrar palavras e sentidos para descrever realidades psíquicas, mas também nos conduzem a uma melhor perceção da realidade externa, sejam acontecimentos da realidade, seja a relação com o outro exterior a nós. Noutras palavras, é a contratransferência que nos permite compreender as pinceladas da nossa realidade emocional, desenhadas em conjunto com o outro.

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Uma valsa a Dois Tempos: depois do Inverno virá sempre a Primavera

Jacques Brel cantava La Valse à Mille Temps (1959). Entoava amorosamente os vários compassos da vida.

Hoje parece que dançamos uma valsa a dois tempos: um compasso de tempo perdido e um outro onde a vida se mantém, desenvolve, irremediavelmente ininterrupta. 

A solidariedade, como o amor, como muitas outras vivências emocionais humanas, não é necessariamente espontânea. A grande percentagem é aprendida, criada, desenvolvida. Não no sentido hipócrita ou falso, mas porque se radica no conhecimento de nós próprios e dos outros ao longo das situações que a vida nos propõe. E na descoberta de que as experiências de uns pertencem em larga medida às dos outros porque partilhamos algo comum que é sermos humanos.

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Fogachos Pandémicos: I – O tempo suspenso

A experiência da passagem do tempo não é igual para toda a gente, que é o mesmo que dizer que não é linear. No entanto, a impossibilidade de encerrarmos o confinamento tem produzido um efeito genericamente desorganizador. Levamos um ano disto e não há, de forma clara, um fim à vista. O futuro parou e agora é como se nem pudesse ser imaginado, como se tivesse ficado suspenso. Uma suspensão que parece relacionar-se também com a expectativa de que a cura ou a doença – e com ela a possível morte – chegue finalmente. Aguardar o embate certo é, frequentemente, pior do que o próprio embate. 

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A Humanização da Imunização

Segundo o Psicanalista Contardo Calligaris a patologia, neste começo da pandemia, não está no suposto pânico, mas na negação do que está acontecendo.

Ao ler esta frase recordei-me da talvez mais poderosa imagem do desespero do início do seculo XXI fotografada por Richard Drew.

Olhem para esta foto do dia 11 de setembro de 2001, World Trade Center, 09h 41 ́15 ́ ́. Segundo o teólogo Mark D. Thompson talvez esta seja a mais poderosa imagem do desespero. Ficou conhecida como “The falling man “. Este homem escolheu saltar? Há uma aparente serenidade e uma suspensão no tempo e espaço como se todos nós naquele momento traumático fossemos convidados a observar o nosso corpo em queda para, paradoxalmente, garantirmos a nossa sobrevivência psíquica, como se fossemos meros observadores dum processo em que ficamos dissociados das nossas emoções. Imobilizada num lugar do irrepresentável, esta imagem deixou de ser apresentada durante uma década, pois o horror traumático do mergulho para a morte “escolhido” por outros 200 seres, envolve um pudor pessoal e íntimo, doloroso demais para ser evocado.

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A libertação (psíquica) de Auschwitz

Imersos nesta pandemia cujo “trauma” sanitário estamos certos de que com a ajuda das vacinas vai acabar por passar, mas cujos “traumas” económicos e psíquicos não sabemos que sequelas vão deixar, vale a pena assinalar que no passado dia 27 de Janeiro fez 76 anos da libertação de Auschwitz.

Mas é no consultório que por vezes sou levada a mergulhar no livro “A Bailarina de Auschwitz”, que conta a história (verídica) da destruição e renascimento mental de uma mulher judia (Edith Eger), vítima de Auschwitz, para onde foi levada aos 16 anos, juntamente com os pais e uma irmã. 

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