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O Medo ou a Liberdade: uma sociedade Risco-Zero?

Contaram-me a história de uma família que na Consoada se reuniu para celebrar o Natal e que, por precaução, ainda antes do jantar, resolveram todos fazer o auto-teste à Covid. Mas era tal a vontade de se juntarem à volta da mesa que, já iam a meio do bacalhau, quando alguém, numa ida à cozinha, reparou nos testes esquecidos sobre a mesa e constatou que um deles indicava positivo. Preocupado, voltou para junto dos outros e comunicou-lhes o sucedido, mas os objetos de risca vermelha, todos juntinhos, já não permitiam saber a quem pertencia a dupla barrinha. A custo, como manda a prudência e o bom comportamento, todos se levantaram e repetiram o teste, verificando que o maldito positivo pertencia a uma criança, de perfeita saúde e boa disposição. E mais uma vez, ao abrigo da lei interna da prudência, o menino, apesar da sua inocência, foi de castigo acabar o bacalhau para o quarto.

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Amar Mundi

Passeando pelas ruas detenho-me no movimento, no ruido e nas luzes, que compõem o cenário da cidade: azáfama, ilusão e pessoas carregadas de embrulhos, que se atropelam e não se olham…

Estamos numa época do ano muito especial: O Natal!
O fim do ano aproxima-se e um Novo está a chegar!
Tempo de família, de reflexão, de interioridade e de balanços de vida! 
Tempo, para alguns, de sonho, de poesia e de luz. 
Tempo, para outros, de trabalho, de (des)alento, de tensão e inquietudes persistentes.
Tempo de (re)Nascimento e de vida com esperança?
Tempo de gratidão e de renovação de amizades?

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Os enigmas da criatividade

Quando penso em criatividade, associo a originalidade, inovação, autenticidade e construção.
Não creio ser de grande utilidade procurar uma definição de criatividade. É uma faceta humana subjetiva, enigmática e misteriosa. “Criatividade não é um talento. É uma forma de agir.”, disse o ator John Cleese. Acrescentaríamos também uma forma de ser. Ser-se suficientemente capaz de arriscar e “experimentar o espectro completo das experiências emocionais, alegrias, tristezas e também naufrágios.” (Ogden, 2010). Uma liberdade interior para lidar com situações e emoções desconhecidas. 

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Ritmos ou Algoritmos?

No XI Colóquio de Psicanálise e Cultura do Porto, coube-me comentar (*) uma mesa-redonda introduzida por um brevíssimo trecho do filme “Alice” de Tim Burton. 

O tema – A Civilização e os seus (Des)Contentamentos – instalava a priori o sentimento de mal-estar, pois a mente deseja os contentamentos e as harmonias ilusórias da civilização.

Mal-estar. 

Ilusão. 

(Des)Contentamentos.

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Obliquidades fálicas XY

Não sei se se recordam de outro post enviado por Jaime Milheiro intitulado OBLIQUIDADES  X1 X2   onde ele referia as Pequenas Diferenças entre os sexos e até exaltava as qualidades intrínsecas das mulheres ? 

Acho que tem razão, com efeito  as diferenças são pequenas, pois ambos, no seu mundo interior, revelam insegurança e medo na aproximação sexual pois temem ser rejeitados, ser abandonados pelo seu objeto libidinal no envolvimento amoroso. Jaime Milheiro, nesta brincadeira, tende a reparar o pecado que é o Falocentrismo  da Teoria Psicanalítica,  quer em FREUD quer em LACAN, substituindo as marcas cromossómicas dos sexos XX e XY , por X1 e X2. Elimina o Y. Não há OBLIQUIDADES  FÁLICAS XY. ….Que ilusão !

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Uma Galáxia sem sentido?

People have to change from within
Jane Goodall 1

Quão perplexos ficamos, enquanto membros da espécie humana, perante a ideia de uma galáxia abandonada a uma existência sem sentido?

Acompanhamo-nos das estrelas desde sempre, crescemos enquanto civilização devido à orientação resultante da sua simples permanência no céu. Como uma “mãe suficientemente boa” que continuamente encontramos, apesar de temporários desaparecimentos, num eterno jogo de luz e sombra, dia e noite, ir e voltar – um fort-da que nos proporciona a alegria do reencontro, se tolerada a ausência pela confiança gerada na relação.

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Selfie e a multiplicidade de espelhos

“A face não tem profundidade nem planos mais baixos. É, precisamente, lisa. Carece de interioridade. Face significa ‘fachada’ (do latim facies)” 
Byung-Chul Han 

Aquilo que distingue um objeto tridimensional de um bidimensional é a sua possibilidade de ser olhado de diferentes ângulos. Também uma das maiores riquezas do trabalho psicanalítico é o permitir olhar questões internas de diferentes perspectivas, conferindo tridimensionalidade e profundidade ao pensamento.

A propósito do recente post de Inês Gomes, gostaria de colocar aqui um outro olhar sobre o fenómeno das Selfies, aproveitando para lançar o desafio para que o nosso Blog, espaço de reflexão da SPP, se torne também um espaço de debate e de diversidade de olhares.

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Selfie

Observo-a.
É uma rapariga bonita, os seus olhos sobressaem no rosto que parece esculpido a cinze, são grandes os olhos, com pestanas compridas, torneados por umas sobrancelhas que bem podiam ter sido desenhadas. Os cabelos compridos, ondulados, bem cuidados, são escuros num contraste que resulta muito agradável com a sua pele branca.

Numa postura que sinto algo ingénua e completamente despreocupada olha a sua própria imagem no ecrã do seu smartphone e vai fazendo com a câmara várias capturas.

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O quarto pilar da formação analítica

Ser analista em formação em tempos de pandemia é um desafio.

Iniciei o meu percurso analítico como candidata da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) ainda em modo presencial durante o meu primeiro ano. No decurso do meu percurso instalou-se a pandemia e a interrupção dos seminários presenciais e a interrupção das sessões em divã. Rapidamente e felizmente, a IPA (International Psychoanalytical Association) e a SPP se organizaram, permitindo a continuidade da formação analítica, das sessões clínicas e das supervisões. Nesta fase, mais do que em qualquer outra, pude vivenciar e “sentir na pele” a importância do que Stefano Bolognini denomina de quarto pilar da formação analítica.

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Como uma madeleine de Proust

Os dias de Setembro e de Outubro estão sempre impregnados de um sabor muito particular, como uma madeleine de Proust. Ecoam certamente num tempo de infância e adolescência e nos sentimentos que lhe estão associados, como reacções de aniversário de que nos fala Bruno Bettelheim, esses registos guardados na nossa memória afectiva inconsciente, que nos revisitam com dia e hora marcados.  

O tempo do regresso às aulas. Recomeçar, começar de novo.

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