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A “Linha Vira(l) Solidariedade” (por alguém que não a integrou)

O AMOR REDIME O MUNDO diziam eles
Mas onde está o mundo senão aqui?
Mário Cesariny*

A estranheza e a violência com que fomos surpreendidos pelo acontecimento “Sars-Cov-2”, revestiu a nossa vida de um sentimento de irrealidade, pela aparente perda de referências, pela descontinuidade, onde nada do que era familiar, quer no tempo quer no espaço, parecia passível de ser reencontrado. Tal como num sonho. Este ambiente com contornos oníricos onde em parte sentimos que passámos a viver, teve entre outros aspetos o “mérito”, tal como os sonhos, de evidenciar aspetos que antes pareciam “ocultos”, desde logo, em relação ao nosso próprio lugar e experiência do nosso lugar individual e coletivo no mundo; à nossa relação com “o que é isto de viver”.

Muito se irá assim continuar a escrever e a representar de todas as formas, por natureza infinitas, que o trabalho do sonho permite, sobre o impacto e a natureza não só da pandemia, como dos fenómenos que a antecederam, acompanharam e dos que a seguirão. Um desses fenómenos a que assistimos foi a criação da “Linha Vira(l) Solidariedade”, pela Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP).

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Tolerar ESTA frustração – uma curta reflexão sobre as defesas radicais suscitadas pelo clima pandémico

A maturidade faz-se acompanhar de uma crescente capacidade para tolerar a frustração. 

Habitualmente, as birras, manifestações de cólera e ira diante de uma contrariedade decrescem à medida que nos desenvolvemos. Vamos aguentando a contrariedade, o desprazer – manifestações de frustração – à medida que nos tornamos mais e mais maduros. 

Com a idade, o nosso aparelho psíquico vai ganhando robustez, conseguindo integrar a contrariedade – “Apetecia-me muito comprar aquela caneta, agora, mas, se o fizer, fico sem dinheiro para viver o resto do mês e assumir as minhas responsabilidades, os meus compromissos…” O prazer, no adulto, pode ser adiado, à espera de uma ocasião mais adequada para ser experimentado.

Os tempos que vivemos – crise pandémica e medidas sanitárias de combate à mesma – constituem um momento singular para testar a nossa capacidade integrativa, i.e., a nossa capacidade para, aceitando os sucessivos constrangimentos, vivermos o melhor possível, cientes de nos encontrarmos temporariamente privados de muitos dos hábitos e gestos que compunham a nossa vida… e a nossa felicidade!

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Liberté, j’écris ton nom

Quando, alguma vez, a liberdade irrompe numa alma humana,

os deuses deixam de poder seja o que for contra esse homem.

Jean Paul Sartre

A liberdade individual, compromisso para a vida, manifesta-se em relações internas ao próprio sujeito, assim como em redes de relações que se atualizam no coletivo. Os contextos sociais, próximos e alargados, também os institucionais, asseguram à vida psíquica as condições de existência e propõem continentes e caminhos que nos podem subjetivar ou submeter, que nos ligam à vida ou à morte, à liberdade ou ao medo. Por entre a sobredeterminação inconsciente de um Eu que não é dono na sua própria casa e o projeto de que Onde estava o Id possa advir o Eu, a Psicanálise afirma o primado da Liberdade e procura libertar o homem do destino trágico da compulsão à repetição, a fim de que possa conhecer a sua verdade e as suas amarras interiores e almejar a um funcionamento psíquico pautado por uma mais livre circulação entre as pulsões e as exigências da realidade, criando um espaço de emancipação e de criatividade que lhe abra novas experiências de vida. 

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As máscaras invisíveis das redes sociais

Em Março começámos a usar máscaras que fazem parte desta nova vida trazida pelo vírus. Há quem afirme termos ficado privados das expressões faciais eloquentes de uma certa emocionalidade. Para as crianças pode ainda ser mais complicado, pois, dependendo da idade não têm ainda um mapa interno representativo das emoções.

Para os adultos o olhar é suficientemente dizente e mesmo tendo perdido alguns dos indicadores de expressão podemos ainda ter o tom de voz, postura corporal entre outros.

E as máscaras anteriores ao Covid? Noutro dia uma paciente dizia-me que depois do período de confinamento, começou a sair indo a alguns jantares com amigos. Pareceram-lhe pobres alguns destes encontros. As máscaras invisíveis são as que colocam as pessoas em modo defensivo, fechadas atrás de rostos impassíveis e escudando-se a uma partilha emocional. Dizia ela: “Fala-se de um tudo que é nada porque nos defendemos da intimidade”. Fiquei a pensar no que ela disse. Estamos assim ou fomos sempre assim? Pensei nas redes sociais como o Facebook, Instagram, YouTube e em como elas nos despem em tantos sentidos. Há qualquer coisa de errado quando escolhemos, preferencialmente, estes meios para comunicarmos. 

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O Inimigo

“Perante o flagelo… perante o escândalo da morte anunciada, iminente e cega, as comunidades têm uma tendência irreprimível para se unir no medo…”  Bernard-Henri Levy (2020)

Naquela manhã de final de Agosto, dirigi-me à parafarmácia habitual, na tentativa de, pela terceira vez, furar as orelhas das minhas filhas (nestas tenras idades, mal se tiram os brincos, logo as orelhas repõem o que falta!). Perante o comentário firme e inamovível da farmacêutica – “já não furamos as orelhas” -, resolvi ingenuamente (ou por teimosia, ou curiosidade) perguntar porquê, e logo ela, de olhar indignado e ar de “beata”, me responde: “Não podemos, por tudo o que está a acontecer no mundo…” 

Aquele comentário irritou-me, pelo tom moralista, raiado do politicamente correto, semelhante ao que se sente quando se come uma sardinha em frente a um Vegan…
Senti que a minha atitude mais despreocupada punha em causa uma certa “tranquilidade” que o “terrível que está a acontecer no mundo” parecia dar àquela pessoa… Um sentido? Uma compreensão de todos os males? Um inimigo designado?

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Ser Velho neste Novo Tempo

A pandemia deixou-nos menos capazes de exprimir emoções, mais fechados sobre nós próprios? O medo subiu de tom, ao vermos um vírus mudar drasticamente as nossas vidas.

Ao mesmo tempo, penso que a distância e o isolamento social nos confrontaram com a saudade e a necessidade dos outros. De os ver, tocar, abraçar de lhes dizer a importância que têm para nós e o que sentimos por eles.

Todas as idades enfrentaram desafios, mas foram os idosos quem mais foi violentado psiquicamente, ao sofreram com o isolamento e ao verem discutido o valor da sua vida. A ideia de haver vidas que valem mais do que outras é indescritível. As notícias trouxeram-nos esta questão, que angustiou todos, pelo medo do que pudesse acontecer com cada um de nós, os que somos velhos e com cada um de nós, sobre os nossos velhos. Todos temos pais, tios, avós, e somente a ideia de os perder deixa-nos inexoravelmente mais pobres.

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A Máscara

“A epidemia é um fenómeno social tanto quanto médico” Bernard-Henri Levy (2020)

“When reality is surreal, only fiction can make sense of it” Decameron project, New York Times Magazine (2020)

Era uma vez uma máscara cirúrgica que se sentia desvalorizada por estar confinada nas bocas-narizes dos cirurgiões e dentistas: “Como é possível”, pensava, “que neste mundo cada vez mais globalizado, eu esteja restrita aos médicos, e que as pessoas só me olhem quando estão deitadas na marquesa”? Então, interrogou-se sobre quem a poderia ajudar a espalhar-se no mundo, e lembrou-se dos vírus: aqueles seres insignificantes, que nem sequer pertencem ao mundo dos vivos, mas que descobriram uma maneira extraordinária de utilizarem as células vivas para se multiplicarem. 

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Aquele Abraço

Após o golpe de Estado em 1964, o Brasil passou a viver tempos especialmente difíceis. Uma dessa ocasiões particulares deu-se em 1968 com o Ato Institucional nº 5. Promulgado pelo governo militar primava pela aplicação de restrições, nomeadamente no seio do movimento artístico com a censura prévia de música, cinema, teatro e televisão, por subversão moral ou dos bons costumes. 

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“I can’t breathe”

Nestes tempos de pandemia, em que assistimos ao poder de contágio à escala mundial de um vírus, o caso George Floyd, com o seu “i can’t breathe”, saltou igualmente fronteiras e tornou-se um símbolo da luta contra o racismo, injustiça e opressão, que reverberou por todo o mundo. 

O “não consigo respirar” é um estado que os psicanalistas conhecem bem. Desde logo quando os pacientes procuram ajuda por causa de uma crescente ansiedade que oprime o peito e a garganta, tornando a respiração presa, superficial, ofegante.

Mas também quando os pacientes, aos poucos, frequentemente em surdina, começam a falar de situações que oprimem e asfixiam. 

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Quarentena ou a descoberta da casa

Entrar no trabalho às nove, acabar de trabalhar às nove da noite. Muitos fins de semana ainda a trabalhar ou a fazer atividades associativas. Férias na praia, nas cidades, nas montanhas. Fins de semana em escapadinha, para relaxar.

E de um dia para o outro, a Covid-19 e ordem para ficar em casa. Proteção, segurança. E proximidade, atropelo, desordem, claustrofobia. 

O espaço da casa não está habituado a tanta permanência. Conta com algumas noites, pedaços de dia, conta com o grupo familiar todo junto apenas às vezes. Por isso desorganiza-se, os habitantes também, confundem-se as vozes do teletrabalho, os sapatos espalhados na sala duplicam, os assentos ocupados por computadores ou papéis irritam os que não são seus donos, o empilhamento para criar espaço confunde os papéis de todos, isto não é meu, o que está a fazer nas minhas coisas, vê lá se te incomoda, tenho aqui este livro que também não é meu, que confusão vai por aqui.  A casa que se suja a dobrar, a comida que tem de ser feita em quatro refeições por dia.

E a pouco e pouco, as  descobertas. 

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