Publicado em

Uma questão de confiança

People are lining in grocery stores
Silence is screaming the fear in their hearts
Don’t give up your faith, no, don’t let your light fade
Together we’ll get through the dark of these days

Andrà tutto bene
Vai ficar tudo bem

Estas palavras, cantadas por Cristóvan, em Março de 2020, tornam difícil imaginar que após toda esta longa vivência de medo, incerteza, isolamento social e restrição da liberdade, haveria pessoas a recusar usufruir da única solução que nos pode livrar do perigo da doença e da morte, e devolver a proximidade física e a liberdade nas nossas vidas – as vacinas!

Continuar a ler Uma questão de confiança
Publicado em

Carta a Coimbra de Matos

1 de Julho de 2021.
Morreu um dos pais da Psicanálise portuguesa, foram várias as gerações dos seus filhos. 

Querido Coimbra de Matos,

Ontem, antes de ter partido para outro lugar, pensei em si durante uma sessão de análise. A minha paciente, interna de psiquiatria, e que se tem vindo a desiludir com a abordagem psiquiátrica à doença mental, encontrou o seu livro “A Depressão”. Irá ela seguir os seus passos?

Também o guardo, na minha prateleira, com a primeira folha rabiscada por si: “Para a Rita, com um beijo. 31-05-01”.

Continuar a ler Carta a Coimbra de Matos
Publicado em

Deixem as crianças brincar!

A maturidade do homem é ter reencontrado
a seriedade com que brincava quando era criança
Friedrich Nietzsche

Estamos no final do ano lectivo, o início das férias escolares bate-nos à porta. Os constrangimentos virais do planeta arrastam-se. Mas esta é a altura do ano em que o brincar das crianças ganha um espaço majestoso. É tempo de nos ocuparmos profundamente do brincar. Afinal, que lugar lhe temos dado? E na Educação estarão a prestar-lhe a devida atenção? É hora de dizer: Deixem as crianças brincar!

Continuar a ler Deixem as crianças brincar!
Publicado em

Adolescer confinado

Isto tudo já acabava!

“Já é difícil ser adolescente, quanto mais agora sem poder fazer nada”  – dizia-me uma jovem de 16 anos que poderia chamar-se Aurora.

Dentro das paredes das casas, redutos seguros em tempos estranhos, as famílias tentaram organizar-se o melhor que conseguiram. Cansados da pandemia (todos estamos), suspenderam a respiração, como se mergulhassem em águas profundas e aguardassem o tempo de voltar à superfície. Mas alguns já lutam com a falta de ar.
E os adolescentes fervilham em fogo lento.

Continuar a ler Adolescer confinado
Publicado em

Um sorriso abre-se então num verão antigo e dura

À minha frente uma jovem empurra um carrinho de bebé. Vejo que não traz máscara e fico muito feliz pela bebé. Sorrimos. Por respeito para com os bebés nunca os cumprimento de máscara. A mãe autoriza-me a cumprimentar sem máscara a sua filha. Do seu carrinho-ovo a menina oferece-me um sorriso que é pés, braços e corpo inteiro e ficamos por ali numa conversinha de gente. A mãe entra na conversa, falo do sorriso social e ela diz que também já reparou. Como aprendi com João dos Santos, para comunicarmos com uma criança é preciso que nos coloquemos num lugar de onde ela nos possa ver inteiros. Um bebé não pode ver um adulto por detrás de uma máscara. Nem a si próprio, nas expressões entrelaçadas com o Outro. 

Continuar a ler Um sorriso abre-se então num verão antigo e dura
Publicado em

Um Método Perigoso

Escolhi o título de um filme de 2011 que, de forma ficcionada, ilustra as relações amigáveis e mais tarde conflituosas entre Freud e Jung, psiquiatra e psicanalista suíço e um dos primeiros discípulos de Freud, para uma breve reflexão sobre a especificidade e os imperativos da relação analítica, bem como sobre o significado da violação ética dos limites da relação analítica. 

O filme mostra também a relação íntima e perigosa que se estabelecera entre Jung e uma das suas pacientes, Sabina Spielrein, e também o sofrimento que esta situação tinha trazido para ambas as partes. Sabina Spielrein, fez uma segunda análise com Freud e tornou-se psicanalista.  Foi a primeira analista, não certamente por acaso, que concebeu o conceito   de pulsão de morte, que Freud veio a aprofundar.

Vem esta análise a propósito das notícias recentes sobre o comportamento inapropriado de um psicanalista, reveladas no âmbito do movimento “Me Too”. 

Continuar a ler Um Método Perigoso
Publicado em

Fogachos Pandémicos IV: Distância Encurtada

No final de 2019, quando pela 1ª vez ouvi falar num doente com Covid, na distante Wuhan, lidei com a notícia com comparável distanciamento. Nessa mesma noite fui deitar-me com uma tranquilidade, percebo agora, pueril: é só mais um problema, que os cientistas, os que tudo sabem, vão resolver. 

Em Março de 2020 são identificados os primeiros doentes com Covid em Portugal, a OMS declara a doença Covid-19 como uma pandemia e é decretado no nosso país o estado de emergência…. Enquanto isso, dentro de mim, um burburinho surdo de sentimentos, de desejos, de receios e, mais uma vez, a negação do medo: ficamos todos em casa, confinados, terei mais tempo e mais disponibilidade mental para ler, retomar hobbies. Na imaginação todos os possíveis têm a mesma realidade. Ao recorrer a mecanismos mentais primitivos, precoces, a nossa mente evita experimentar uma confusão e uma ambiguidade intoleráveis e cria um sentimento ilusório de movimento e de alívio. E o medo da morte está intimamente relacionado com a solidão, medo do abandono e da dependência (Klein)

Continuar a ler Fogachos Pandémicos IV: Distância Encurtada
Publicado em

Volto já, meu pai

Seres gregários, o desejo de nos ligarmos aos outros é o que nos mobiliza, desde o nascimento. A procura do Outro é um impulso profundamente ancorado na nossa organização psíquica, corporal e visceral e é a qualidade da resposta a esta necessidade primeira que nos garante um equilíbrio biológico e psíquico elementar e a possibilidade de prosseguirmos a vida. O nosso sopro vital. A proximidade e o laço social afectam profundamente a nossa saúde física e mental, desde sempre e para sempre, até ao fim. 

A necessidade do contacto humano não diz apenas respeito à infância. A sua carência precoce é a mais grave e a mais profunda, mas sempre que ocorre reactualiza o trauma ou introduz o mal-estar no tecido humano e rompe o equilíbrio somato-psíquico, rasgão que é preciso voltar a tecer, com todo o cuidado e vagar, trabalho que se fará de novo através da relação humana e do laço. Não há outro modo.

Continuar a ler Volto já, meu pai
Publicado em

Fogachos Pandémicos III: Entre a violência e o cuidado

Mutirão
Origem: tupi
Significado: Trabalho em comum.

Segundo o Wikipedia, mutirão caracteriza-se pela “Mobilização coletiva para lograr um fim, baseando-se na ajuda mútua prestada gratuitamente. É uma expressão usada originalmente para o trabalho no campo ou na construção civil de casas populares, em que todos são beneficiários e, concomitantemente, prestam auxílio, num sistema de rodízio e sem hierarquia. Atualmente, por extensão de sentido, “mutirão” pode designar qualquer iniciativa coletiva para a execução de um serviço não remunerado.”

Tomando a radicalidade que esse conceito-ato sugere, poderíamos assumi-lo, como uma boa forma de vida coletiva, impregnada daquilo que Vladimir Safatle nomeia de solidariedade genérica.

Continuar a ler Fogachos Pandémicos III: Entre a violência e o cuidado
Publicado em

Progresso e Apocalipse

A narrativa do progresso tem sido central na nossa cultura nos últimos 300 anos. Induz-nos a acreditar que o tempo é uma seta que avança para a frente, fazendo-se acompanhar de cada vez mais e melhor em todas as áreas: maior progresso tecnológico, científico, económico, moral, etc. Tende a ser acompanhada por modelos económicos que insistem no crescimento independentemente da sustentabilidade e numa fé cega na tecnologia. 

Esta narrativa lida mal com a noção de limite. Por exemplo, que vivemos num planeta com recursos finitos e limitados, pelo que o crescimento não pode ser ilimitado. Talvez por isso, dentro dos temas ambientais, haja temas mais populares que outros. Por exemplo, o das alterações climáticas é mais popular que o tema do fim das reservas de petróleo. Este apresenta-se como narrativa de limite: energias fósseis que demoraram milhões de anos a constituir-se, poderão esgotar-se dentro de alguns anos. O outro, esconde ainda uma narrativa de poder: a humanidade tem tanto poder tecnológico que é capaz de alterar o equilíbrio da natureza! Mas o gênio humano também será capaz de encontrar soluções quando a situação o exigir.

Continuar a ler Progresso e Apocalipse