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Sexdução na TV – o eleito, o escolhido e o impostor

Os reality shows banalizaram-se, isso parece certo. Por vezes conseguem revelar um quê de criatividade surpreende, mesmo que algo degrante, polémico ou incomodativo.

Um pouco como a pornografia, encoberta em aparente crítica desvalorizante, conseguem conter um poder atractivo manifesto nas audiências e visualizações ou nas discussões que suscitam.

Confesso não ter visto com atenção os últimos “ensaios de programas” com que vários canais orgulhosamente nos brindaram recentemente. Mas a razão da minha escrita prende-se com o lugar do espectador, do concorrente e do produtor, e não propriamente com a apreciação do programa em si.

O sexo, e não exactamente o sexual, é sempre assim como que o ingrediente indispensável – a paprica do Herman dos anos 80 e 90, ou o chocolate na sobremesa infantil! Pelo sim pelo não, o melhor é incluir. Nunca falha. Mas é apenas para temperar ou adoçar.

Envolto numa áurea de exclusividade somente acessível aos grandes e magníficos deste mundo, revela-se algo mais simplista que desperta a curiosidade quase mórbida dos muitos esbugalhados espectadores: afinal o que se apresenta no final como o eleito, pelo júri, público ou talvez mais importante, pela espontaneidade dos espectadores em visualizações contabilizadas nas redes sociais, não lhe exigiu um esforço, penalização ou dedicação extrema, capaz de suportar a espera do reconhecimento, convicto da sua ideia ou de cumprir uma qualquer nobre missão.

Embora por vezes assim se apresente, revela-se na verdade num desejo de ser o escolhido e adorado, convicto de ser o genuíno merecedor do amor e idealização de todos. Merece sem dúvida ser o escolhido por que… existe! E magicamente tornar-se o adorado e invejado de todos, entusiasmados espectadores que assim alimentam também, estupefactos, a sua secreta e infantil possibilidade de um dia metamorfomisar a sua vida e virar o CR7 das suas escassas redes sociais, conquistando os likes e visualizações que tanto anseiam e que injustamente a vida parece não confirmar.

Vendidos como puras e bem intencionadas donzelas, os programas sedutoramente entranham-se como os fundos abutres, que sugam dignidade, privacidade e futuro, que muitos suspeitamos que afinal não virá a ser assim tão gratificante para os ditos concorrentes. Entretanto, quem tem responsabilidade da produção transformou a disforme abóbora em mais uma carteira Louis Vuitton, dobrando ética e responsabilidade com o desembaraço de um ilustre impostor, que garantindo o bom e o melhor a todos, recolhe no fim as cintilantes moedinhas que orgulhosamente amealha.

Imagem: Fotografia da autoria de Rui Aragão Oliveira