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Sem-abrigo: evitemos slogans!

O discurso acerca dos sem-abrigo tende a radicalizar-se à volta do eixo factores individuais vs estruturais. Ou, se quisermos, o que está dentro ou fora do indivíduo.

Por exemplo, podemos ouvir que a problemática sem-abrigo tem a ver com a doença mental e consumos. Mas também podemos ouvir que é sobretudo um problema de pobreza e de falta de casa. 

Esta discussão é importante e tem consequências. Um dos perigos é poder conduzir a uma atribuição errónea de responsabilidade. Por exemplo, tomar como patologia individual, algo que é da ordem da crise colectiva.  Ou vice-versa. 

Para ilustrar o problema, invoquemos um exemplo. Antes da guerra civil, na América esclavagista, inventou-se o termo “dromomania”, para explicar os comportamentos de fuga dos escravos.  Argumentava-se que as pessoas de origem africana sofriam de uma peculiar doença mental, uma compulsão irracional para fugir de casa. Uma teoria conveniente para evitar reconhecer o comportamento de fuga como resposta a uma realidade social com aspectos intoleráveis. 

Curiosamente, o mesmo termo foi usado para explicar o vagabundear dos sem-abrigo. O problema mantém-se: o de saber o que é da ordem da peculiaridade individual ou o que é resposta a uma realidade social. 

 O debate não é meramente científico mas também ideológico, político e corporativista. Se os sem-abrigo são um problema de doença então os intervenientes mais importantes são os profissionais de saúde.  Se o problema é social então a atenção máxima deve ser para os profissionais da área social, económica e política.

 O choque de visões por vezes é inevitável. E bem.  Porque a discussão é necessária para o evitar de slogans que, no limite, ignoram o outro lado da questão, como afirmar que a pobreza é uma doença mental  ou que é da responsabilidade do indivíduo, ou então fazer tabula rasa de uma eventual psicopatologia porque isso não encaixa na narrativa ideológica. 

O debate sobre o peso das realidades interna e externa também é familiar à psicanálise. Não se trata de escolher um ou outro, mas de compreender como eles se interpenetram e influenciam mutuamente. 

 Atitudes como “eu sou o mais importante para a resolução do problema” não ajudam. É preciso o contributo de muitos.

Nos últimos anos, Portugal tem feito uma evolução positiva no sentido de juntar diferentes instituições e profissionais para um trabalho articulado e complementar com pessoas em situação de sem-abrigo. Destaca-se a criação de Núcleos de Planeamento e Intervenção Sem-abrigo (NPISA) em todos os distritos e, mais recentemente, uma estratégia nacional para os sem-abrigo. Não esquecendo que o assunto tem merecido uma maior atenção por parte do sector político.

Há contudo uma dimensão que pode passar facilmente despercebida nos planos e estudos: a dimensão pessoal e subjectiva que só se conhece através da relação.

Frequentemente as pessoas em situação sem-abrigo têm histórias de vida complexas, com rupturas e traumas múltiplos, desde cedo. Basta olhar para a quantidade de pessoas que foram criadas em instituições e escutar as suas histórias familiares. 

Os seus vínculos são frágeis como tive oportunidade de observar num estudo sobre pessoas em situação sem-abrigo do ponto de vista da vinculação (Barreto, 2000).

Por isso a qualidade do acompanhamento é fundamental.  Não pode reduzir-se a um “O que é que precisa? Tome lá.” É necessário um acompanhamento individualizado, continuado, respeitoso e disponível para conhecer o outro.

Trata-se não só de dar coisas mas de restaurar sistemas de segurança que estas pessoas há muito perderam ou talvez nunca tiveram. E isso pode significar permitir que estas pessoas encontrem lugar dentro de nós e nós dentro delas. 

Há anos tive a oportunidade de visitar uma mulher no seu quarto alugado, depois de deixar a situação sem-abrigo. Em cima da mesa-de-cabeceira estava uma única fotografia, tirada numa festa de Natal institucional, onde se via ela com os técnicos que a acompanhavam. Era esta a sua família! 

Recordo ainda duas pessoas que, imediatamente antes de falecerem, encontraram maneiras inusitadas de avisar um técnico que os acompanhava.

O que leva a alguém, à beira da morte, a pensar no seu técnico? Quantos profissionais se darão conta do papel que desempenham na vida psíquica das pessoas que acompanham?

Bibliografia: 

Barreto, E. (2000). “Vinculação e Relações de Objecto de pessoas sem-abrigo: um estudo exploratório.” Dissertação de Tese de Mestrado. ISPA.

Imagem: Caytlin Wilson (Unsplash)