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Sair do Inferno dantesco*

A metáfora da travessia é amiúde convocada perante a ameaça sentida em momentos traumáticos.

A representação do Inferno, na Divina Comédia (DC), é a “selva escura”, onde o autor diz ter deparado com “as três feras”. 

Porém a “fera” que mais impacto causa é a loba/Avareza. A sua figura provoca susto, pavor, barra o caminho à progressão, numa ascensão anteriormente iniciada:

“a esperança em progredir me era defesa”

– “assim, sem paz, a fera me encurrala”

– “a empurrar-me lá onde o sol se cala 

 – para baixo me desloco

É uma loba que parece arcar com a carga de todos os desejos insaciáveis, na sua magreza. Com efeito, os brame, aparecem, nos dicionários, ligados ao excesso de ambição, à perda de noção de limite e equilíbrio naquilo que se deseja, estando ligados ao desmedido, à veemência na exigência desejante, à cobiça rapace.

Estamos perante a figuração de criaturas a quem o desejo consome, mas apenas como uma maldição.

Talvez “o susto” se deva também ao facto de a loba evocar a visão de um cadáver, de uma criatura que se auto-devora em vida, uma prefiguração da morte.

Algo que o próprio Dante terá antevisto na sua conturbada vida, desligado brutalmente da cidade de Florença e da sua circunstância até então, desligado da confiança nos seres humanos.

Contudo, a personagem Dante, perante a travessia do Inferno e perante a visão da loba insaciável, mostra-se disposta a aceitar entusiasticamente a ajuda de Virgílio.

Dante, na DC, imagina uma Beatriz que por ele vela, durante uma passagem extraordinariamente arriscada.

Beatriz insta Virgílio a que vá ajudar “um amigo”, no momento em que ele soçobra ante a imagem da loba.

Com Virgílio, a personagem Dante pode mostrar-se frágil, recuar, deslocar-se “para baixo” (61), reconhecendo-o como mestre (86) e pedindo-lhe protecção (89); aspectos que, segundo alguns autores, não evidenciaria na sua vida pública.

A DC será também uma viagem de auto-conhecimento e um processo de integração do seu autor, tentando reunir o que restava, depois da derrocada de tudo aquilo em que acreditara, após condenação à morte em Florença.

A viagem terapêutica também fará temer pela perca do mundo da significação, para o próprio, uma forma de morte.

Destas paragens, dentro e fora de nós mesmos, não se sai sem o estabelecimento de uma relação. Há, na relação com as personagens de Virgílio e de Beatriz, por parte do Dante da DC, uma semelhança com a relação analítica e com a transferência.

No Canto II, Beatriz é enaltecida e há um hino de gratidão (132-135) e o desejo de empreender a dificultosa viagem por parte da personagem Dante (139-140).

É, nestes versículos, muito visível o recobro da esperança para a travessia a empreender, com o experimentar da ajuda pela qual se ansiava.

O autor Dante, socorrendo-se do seu génio, do seu percurso e de tudo aquilo de que podia lançar mão, concebe um espaço onde lhe seja feita justiça. 

A DC constituiu-se num portentoso ajuste de contas com os tiranos que atormentaram Dante, com a perversidade da violência sem freio, no uso do poder, a ressoar enquanto houver quem a leia.

Esse espaço, onde pontifica Beatriz, converter-se-á, para ele, num caminho de conhecimento e de elaboração da dor mental. Esta Beatriz será o objecto possibilitador e propulsor da sua criação artística. 

É nas situações que parecem sem saída que pode também surgir a predisposição para a busca da companhia que esteja bem talhada para ajudar a encontrar outro lugar que se faça caminho. 

Para sair da “selva escura”, Dante reactiva interiormente a relação com uma certa Beatriz, fantasiada a partir daquela que vivera em Florença e cria a Beatriz da DC, abre um horizonte de esperança, retomando a travessia da vida. 

*Nota: Sigo a tradução de Graça Moura em todas as referências à DC.

Versão condensada da participação no Projecto “Dante no Porto” – Associazione Socio Culturale Italiana del Portogallo Dante Alighieri, ao longo de 2019.

Imagem: Gustave Doré