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Saberei (con)viver com aqueles que (des)amo? Que impactos estão a surgir nos casais e nas famílias?

Viver e sonhar num mesmo espaço compartilhado física e emocionalmente de um dia para o outro, 24 horas seguidas sem interrupção, é o novo desafio inquietante das famílias que se confrontam numa coabitação forçada: onde o tempo é continuo; onde o tempo de lazer, de convívio e de trabalho se intercomunicam; onde se pode confundir o espaço individual com o coletivo; e onde o íntimo com o privado e ainda o público se combinam…se atropelam…

Viveremos, então, segundo o postulado do provérbio chinês: o passado é história, o futuro um mistério e o presente uma dádiva?

Realidade ou ficção? 

Estaremos a protagonizar um filme distópico, insólito, e a ensaiar diferentes posições existenciais e relacionais?

O planeta gira parado em torno de um estranho invisível – desconhecido vírus –, que perturba, atormenta e mata, não se deixando destruir, porque ainda resiste a tratamentos e a protocolos médico-curativos.  E até parece poder matar o modus vivendi societal/familiar que muitos de nós já sentíamos algo adoecido, frágil e em vias de pulverizar ou estilhaçar a vida emocional dos humanos, cujos grupos familiares já denominei famílias de vidro.

Não se tratará de desesperança nesta entidade tão arcaica, sonhada e imaginada? 

É esta a experiência que atravessa a Humanidade neste tempo de quarentena!

De repente fomos coagidos a permanecer em casa: uns sozinhos, mais fechados e/ou abandonados; outros em convívio mais ou menos intenso e conturbado com os maridos, filhos pequenos; alguns em acúmulo de funções parentais, conjugais e em teletrabalho, num frenesim sem escapes e sem precedentes.

E há aqueles que, encerrados na solidão, acompanhados pelos seus múltiplos fantasmas, vazios e com memórias das suas famílias internas quase esquecidas aguardam, num silêncio ensurdecedor, as vozes confusas do unheimliche. Privados de contacto e de afetos esperam, esperam tempos melhores! 

Recordo a belíssima obra – Um, ninguém e cem mil – de Luigi Pirandello,  onde o autor retrata como se pode viver sozinho em sociedade, em casal ou em família, com quantos mais Outros que ali convivem no interior de cada ser, que nos devolvem identidades ou partes delas, projetadas por nós, mas que em retorno, desconhecemos e nos levam para faces do mundo  interno, inóspito e plural, tão surpreendente como terrível… não me sinto nem me imagino ser assim para ti…

Neste confinamento existencial familiar imprevisto emerge esse ser, entre e dentro dessas tensões familiares, desencontros e ressentimentos, como um qualquer desespero grupal privado, que não foram atempadamente cuidados entre aqueles que se podem amar e odiar. 

Estaremos a apreender de uma forma impositiva a noção da alteridade – compreensão e aceitação da existência do Outro, como sujeito desejante, que nos confere existência/identidade e nos reconhece essa essência singular e única? 

Que consequências para a Saúde Mental?

Escutando e perscrutando estes silêncios adiados, agora num novo setting terapêutico, preferencialmente em Skype, confirmo que desta convivência porosa e transparente [muitas vezes convívio em espelho, em ressonância à porta fechado ao Outro] as mágoas emergem no sofrimento partilhado em voz falada, esperando da minha presença qualquer trans-formação como terceiro liberto. 

É verdade e fico surpreendida com a ingenuidade daqueles casais que estão a tentar resgatar a esperança e o amor inicial, de fazer ninho

Contrariamente ao que se difunde, não há que ser forte, nem estamos numa guerra… Estamos, sim, num tempo de incertezas, num tempo enigmático, num ambiente experimental, terra de ninguém, no man’sland, num novo e único campo relacional – por favor fique em casa – lugar seguro, conhecido versus escolhido, agora desconhecido, porque foi esquecido ou desprezado do seu valor intrínseco numa sociedade volátil, apressada e de desperdícios…

Ficamos perplexos com esse retorno à génese da dor inicial e com a dúvida: estaremos a (re)nascer como Homo Sapiens, Sapiens e Socius, nesta nova coexistência?

O vínculo da coabitação implica, pois, que o corpo familiar se reencontre e se fortaleça em grupalidade, para além da sobrevivência psíquica individual, em reinvenção relacional com aqueles que nos estão próximos, embora, paradoxalmente, correndo o risco de repor um funcionamento anti-socius, face aos estranhos, esses desconhecidos.

Não há que ser forte, mas flexível, pensamos olhando para dentro e escutando/sentindo o Outro em liberdade contida!

Que estranha forma de amar!

Imagem: Alberto Giacometti, “Dança da Primavera” (1922)