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Retrato de Família

As crianças desenham a sua família de mil maneiras. Para além de construírem diferentes cenários familiares, estes desenhos parecem ser verdadeiras encenações em que elas inventam várias famílias e experimentam outras tantas maneiras de nelas e com elas viverem. Colocam no desenho só quem querem que lá esteja e a fazerem o que elas querem que eles façam, realizando assim os seu desejo, ou então desenham quem receiam que lá possa estar, para os controlarem melhor. Posicionam-se a si próprias, em relação aos restantes, na posição em que se vêem na sua família, outras vezes naquela em que gostavam de estar, outras ainda naquela em que mais temem vir a ficar, fazendo neste caso desenhos que mais parecem rituais de exorcização dos seus medos. Quando um desses desenhos materializa de forma particularmente conseguida algum dos mitos mais inquietantes daquele que o desenhou, fica condenado a permanecer colado na parede por mais tempo do que seria de prever. Por vezes não é fácil perceber porquê. Nessa altura intervêm os pais.

— Quando fizeste esse desenho ainda não desenhavas as pessoas tão bem como agora.

— Mas eu gosto delas assim.

— Porque é que em vez desse não pões na antes aquele, que é mais bonito, que desenhaste ontem?

— Porque não! Tem que ser este!

E lá permanece pendurado no mesmo local — da parede o do desenhador. E lá continua aquela criança todos os dias a olhar para ele, pois aquele desenho, mais do que a tradução que o lápis conseguiu fazer do que se passa à sua volta, é um sítio em que ela se vê e revê qualquer coisa que sabe ter a ver consigo, substituindo com vantagem os espelhos na parede do quarto. Quando a tal “coisa que sabe ter a ver consigo” já não for sentida de forma tão inquietante, pode então substituir aquele por outro desenho que na altura se imponha.

A maior parte dos adultos, pelo contrário, parece ter perdido o hábito de desenhar, tanto a família como tudo o resto. No entanto, ela não deixou de ser importante, eles não deixaram de ter medos ou anseios, nem deixaram de ter a necessidade de pendurar nas paredes partes de si e olhá-las de forma repetida, para que vão conseguindo compreendê-las, até que com elas se reconciliem. Talvez seja para substituírem aqueles desenhos, da altura em que estes adultos eram crianças, que servem os retratos de família. Também eles podem ser desenhados e encenados de mil maneiras, ter as mais diversas combinações de personagens e ficar, que nem páginas remotas da vida desses adultos-crianças, pendurados na parede durante o tempo necessário para que neles se revejam. Uns mais triviais, outros especiais…

Quando uma das modelos da fotografia que está por cima destas linhas, que tinha povoado de infância a nossa infância, nos surpreendeu com o seu desaparecimento, mais do que triste, vi-me invadido por um estranho sentimento de culpa: como poderia agora retribuir o que me havia dado? Já não podia. E viver com a consciência dessa impossibilidade? Nos dias seguintes, estas perguntas alimentaram o lume em que se foi cozinhando o esboço de uma resposta: o que não tem preço não é para ser pago, nem o que é feito por generosidade fica à espera de retribuição. É mais como nas corridas de estafetas, em que nunca voltamos a dar o testemunho àquele de quem o recebemos, nem sequer ele espera isso de nós. Mas se não o dermos a quem vem a seguir traímos aquele que a nós o confiou. Na altura, esta resposta, se não acertada, pareceu-me pelo menos suficientemente apaziguadora para que durante algum tempo eu pudesse deixar de olhar repetidamente aquele retrato.

Imagem: “Foto Cabecinha”, Setúbal