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Quovadis-Covid?

No último webinar da IPA “L’accident Covid au coeur de l´humain” Martin Gauthier, psicanalista Canadiano, afirmava “A psicanálise foi infetada, qual o remédio para a desinfetar?”. Com esta frase pretendia falar das transformações do setting analítico e das repercussões criadas pelas novas respostas de atendimento.

Com esta frase fui chamado por outra, essa sim bíblica, onde, segundo o evangelho apócrifo, S. Pedro fugindo de Roma para não ser crucificado encontra Cristo ressuscitado na Via Ápia e pergunta-lhe “ Quo vadis Domine?” – “para onde vais Senhor? Ao que o Senhor lhe responde: “Roman vado iterum crucifigi“ – “volto a Roma para ser crucificado de novo”. Depois dessa afirmação, Pedro arrependeu-se e regressou a Roma.

Numa perplexidade face à ameaça pandémica alguns de nós fugimos da nossa Roma, da crucificação pelo nosso Superego e com o peso da culpabilidade, pois não poderíamos trabalhar no que já não seria a ”nossa” psicanálise. De que crucificação os psicanalistas escapariam? Como viver ou sobreviver com o virus que nos afeta e alterou a nossa imunidade psicanalítica? Quais seriam as sequelas deste virus a longo prazo?

Enquanto me interrogava encontrava à minha volta, sob a pretensão de liberdade, olhares contaminados por pensamentos viralizados entre denegações e atitudes de pânico. Alguns destes pensadores tentavam aplicar o conhecimento psicanalítico do intrapsíquico de uma maneira literalizada, à explicação do absurdo do confinamento, e à urgência do desconfinamento, como se a ciência se constituísse num ataque à verdade e à liberdade num sentimento de profunda desconfiança.

Na minha via Ápia encontrei Freud, já doente, e perguntei-lhe: Quovadis? Freud respondeu-me que voltaria ao edifício psicanalítico nesta fase difícil da sua vida mas que estava cansado pois tinha formulado dois princípios básicos e específicos da psicanálise que poderiam estar a ser violados por muitos dos seus seguidores. Fez-me recordar que o conceito da sobredeterminação – Freud (1901) – se referia não somente às imagens do sonho, mas que todos os pedaços de comportamentos e experiências são sobredeterminados, isto é, expressam muitos diferentes significados. De acordo com este princípio qualquer compreensão do comportamento não devia estar limitada a uma única dimensão dinâmica e que, quando aplicado, deveria permitir saídas mais colaborativas.

Freud relembrou-me um segundo princípio da teoria psicanalítica que é também violado por, implicitamente, equacionar psicodinâmica com patologia. Referia-se à importância da “falácia genética“, ao equacionar o comportamento com as suas origens, e que ocorre quando as explicações causais são usadas como a única razão para rejeitar uma ideia. Após estas palavras pensei que apesar da importância dos conflitos e ansiedades precoces na nossa construção psíquica, estes poderiam ter deixado de ser os motivos principais do nosso comportamento, encontrando-se agora secundariamente autónomos, e que a minha dor pandémica devia assentar na presença de aspectos adaptativos ou defensivos excessivos atuais, na qualidade das minhas relações interpessoais, no grau de desenvolvimento e integração da minha globalidade, e que havia lugar para o meu setting interno enquanto psicanalista na partilha das minhas vulnerabilidades face a um inimigo tão imprevisível.

Imagem: René Magritte, “L’art de la conversation” (1963)