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Quem não morre sempre reaparece: a História e o Teatro do Mal

Em 1978, Aldir Blac, grandioso compositor, vítima mortal do Covid-19, escreveu em Querelas do Brasil:

O Brazil não conhece o Brasil

O Brasil nunca foi ao Brazil

O Brazil não merece o Brasil

O Brazil está matando o Brasil

Partilhando a profunda tristeza expressa pela colega Sandra Pires no seu mais recente texto publicado no Blog para o qual também escrevo, confesso que, ao testemunhar o processo de desarranjo económico-ético-político, desde há muito em curso no Brasil e que atinge um estado de anomia social[1], o sentimento de perplexidade já não é superior ao de pessimismo realista. Este, só ganha proporções menos devastadoras por impulsionar a procura de espaços comuns de compreensão, de constante interlocução e de boa atuação.

Parece que foi ontem que ouvíamos mundialmente os gritos orgulhosamente sádicos do então deputado federal Jair Bolsonaro que, ao votar a favor da impugnação da Presidente Dilma Roussef, homenageava o Coronel Brilhante Ustra, único oficial militar condenado judicialmente pela prática de tortura durante a ditadura militar brasileira. 

Quando uma sociedade que viveu 21 anos de nefasta ditadura militar reprime a criação de condições para um real enfrentamento da sua história, não elabora os seus traumas, pois não os reconhece. Assim, não há memória evocativa do passado que, integrada no presente, desafia alternativas de futuro.

Há sim, toneladas de corpos e de massa violenta putrefata forcluídas do julgamento sadio, criativo e potenciador de possibilidades de construção de um coletivo-nação que possa conviver critica e dialeticamente com a arqueologia histórica do seu percurso constitutivo.

A elite brasileira, e mesmo a influente elite internacional, tão presente na condução dos designados países em desenvolvimento, sempre se ampararam – tal como se de uma bengala se tratasse – em uma estrutura social escravocrata, assente na desigualdade e na servidão.

Não é demais lembrarmos que o Brasil foi o país que recebeu quase metade dos africanos e africanas escravizados mundialmente.

Tendo sido o último país a abolir a escravatura, há 132 anos, contém, na sua bagagem histórica, soluções oficiais de “integração” dos escravos libertos, como a proposta pela Teoria do Embranquecimento que, no início do século XX, advogava que em três gerações o Brasil, pela entrada de imigrantes e pelos efeitos da biologia, “embranqueceria”.

Diante esse caldo traumático coletivo fervilhando há séculos, podemos pensar que a par da banalidade do mal, tão bem apontada nas reflexões da colega, talvez o Brasil viva a normalização da latente violência, tornada ativa e despudoradamente manifesta.

O Brasil constitui um primoroso exemplo de como a necropolítica[2] se faz presente nos modelos fundados na lógica arcaica de dominação-dominado a partir da gestão da morte e do desaparecimento de corpos que não chegam a ser cidadãos.

“Bandido bom é bandido morto!”, bordão ostensivamente bolsonarista que faz parte do repertório condutor da desordem e do anti-progresso brasileiros e que parece suscitar regozijo delirante naqueles que se consideram fora do grupo marcado para morrer.

O filósofo Vladimir Safatle escreveu o seguinte, no seu artigo publicado no jornal El País, intitulado “Preparar-se para a guerra”: 

“Não será a primeira vez na história que uma dinâmica de afetos e crenças desta natureza ganhou corpo. Esta implosão aberta de qualquer princípio elementar de solidariedade, esse desprezo com os que morrem, esse culto do próprio suicídio como prova de “coragem”, essa violência cada vez mais autorizada até a formação aberta de milícias populares, esta crença em uma revolução nacional redentora, isto tudo tem nome. Costuma responder pura e simplesmente por “fascismo”.

Considerado por muitos como um laboratório de experiências em diversas dimensões, o Brasil é a expressão máxima das contradições que vagueiam entre o Paraíso e o Inferno.

O Brasil também é o Brasil que literalmente levou a Psicanálise para a Praça, que gerou os Movimentos Sem Terra (MST) e o dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), que no seu cotidiano integra, inexoravelmente, o sincretismo religioso e que agora, mais do que nunca, pode conhecer, revelar e transformar a sua história.

Do Brasil, SOS ao Brasil

Assim termina a música de Aldir Blanc.


[1] As convulsões sociais de 2013 que tiveram início com as reivindicações pelo passe livre, na cidade de São Paulo, abriram o espaço público para múltiplas e contraditórias demandas individuais e coletivas, o que também contribuiria para o início do processo de impeachment que destituiu Dilma Houssef.

[2] Conceito desenvolvido pelo filósofo camaronês Achille Mbembe no seu livro intitulado Necropolítica, de 2011.

imagem: Naoya Hatakeyama “A Bird” (2006)