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Quando as estrelas se apagam.

A 1 de Outubro chegou-nos a notícia de que morreu aos 94 anos, na sua residência no sul de França, o menino que cresceu por entre os palcos de Paris, e que fez a música francesa transpor todas as distâncias – Charles Aznavour. Eleito “artista do Século” pela CNN em 1988, deixa um rasto sonoro, uma inscrição mnésica que atravessa gerações fazendo com que muitos o entoem mesmo sem reconhecer por vezes a origem nas notas que trauteiam.

Acontece algo diferente em dias assim.
Nos dias em que “pessoas famosas” morrem.

Não nos são próximas. Não faziam parte do nosso dia a dia. Não trocávamos mensagens, nem telefonemas, nem lembranças no dia de aniversário. Não lhe comunicamos pensamentos, nem partilhamos segredos. Não lhes tocámos, não lhes falámos. Não havia qualquer espécie de reciprocidade.

E, no entanto, instala-se um vazio.

Há milhões de pessoas, pessoas anónimas, que se entristecem.

Como se o mundo ficasse um lugar diferente.

Como se ganhássemos consciência de que algumas pessoas são insubstituíveis, contrariando o que somos obrigados a pensar todos os dias – “não há ninguém insubstituível”! – como não?

Não há é quem se repita!

Em lugar nenhum!

Dever-se-á talvez à experiência estética? (boa ou má)

À emoção que ecoa, e ressoa em nós, face a esse outro, à sua obra, às suas ideias.

Somos mudados pelos outros, e sem dúvida, em maior ou menor escala, por quem “seguimos”.

Revemo-nos nas palavras de um poeta. Apavoramos com o semblante do terrorista. Encantamo-nos com a música.

Passam a fazer parte do nosso mundo interno, são personagem que nos habitam e evocamos sem dar por isso.

E quando uma pessoa famosa morre, o mundo assume contornos diferentes sim.

Talvez porque haja esta consciência colectiva do irrepetível.

Talvez porque saibamos melhor entender as reacções dos demais.

Há um antes e um depois, quase insignificante quando olhado com distância, que é reconhecido por todos.

Não é um drama pessoal.

Não doi, nem marca, da mesma maneira que a morte de quem nos é próximo.

É estranho…

…como se o recorte da paisagem que pisamos se tivesse modificado indelevelmente, uma mudança subtil, mas que faz com que o mundo seja percebido como diferente, com essa ligeira estranheza.

Como se faltasse de repente, na rua em que passamos diariamente, aquele prédio peculiar, em que nunca entrámos mas em que demorávamos o olhar e a curiosidade.

E depois, adaptamo-nos rapidamente.

E o mundo mudou-se.

E voltamo-nos novamente para os que estão perto. Para os que nos dão os bons dias, para os que nos dão um beijo, para quem nos cruzamos, quer nos façam bem ou mal, quer deles gostemos ou não, para aqueles que nos reconhecem.

Surgirão outros homens e mulheres únicos.
Não iguais.

Irão surpreender-nos pela sua diferença, e marcar o mundo com a sua presença.
E à escala do nosso pequeno mundo sabemo-nos, com maior consciência, responsáveis por aqueles que cativamos.

Youtube: Non Je n’ai rien oublié – Charles Aznavour no Palais du Congrès em 2000

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