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Psicodrama Psicanalítico e Técnicas Psico-dramáticas: a psicanálise fora do divã?

Foi no dia 1 deste mês de Abril, há 100 anos atrás, que aconteceu a primeira sessão de Psicodrama de Jacob Levy Moreno, a 1 de Abril de 1921.

No jogo do carretel, Freud (1920) relata como uma criança de 18 meses que ele observou, na ausência da sua mãe, inventara um jogo para elaborar a angústia de a ter perdido. Freud sublinhava a importância da mudança da passividade para a actividade (o protagonismo?) que o jogo propicia.

No júbilo que a criança sentia e mostrava ao ver que afinal o carretel reaparecia de novo, que não estava definitivamente perdido, contactamos com aquelas experiências de reencontro com tudo e com todos que julgávamos dolorosamente perdidos e afinal…não o estão. Estavam apenas fora de vista …na “place where the lost things go”, esse lugar que Mary Poppins vem estabelecer na família das crianças que tinham perdido a mãe. (Shaiman, M., Wittman, S., 2018).

O jogo, no psicodrama, “oferece a presença do outro”, “alguém com quem jogar” (Ferro, 1998, 87).

“A novidade introduzida por Klein, é a de olhar para a criança que joga [e que tem oportunidade para fantasiar durante o jogo] a partir de um vertex exclusivamente psicanalítico e dentro de uma situação de análise.” Assim, “cada situação, cada comportamento, para além das palavras, podem oferecer um caminho para compreender o que está sucedendo na mente da criança.” (idem, 90)

Klein organiza um setting para a observação e para a interpretação, partindo do jogo e do brincar infantis.

O Psicodrama Psicanalítico possibilita, com um grupo, observação e utilização da associação livre. Ela é captada através da sequência de jogos, comportamentos e histórias presentes/subjacentes no campo. A partir de certa altura a sessão é condicionada pela proposta do diretor, que se baseia em esboços pré-interpretativos, particularmente na formulação da hipótese terapêutica psicanalítica. Esta pode ser ainda alterada para que a interpretação final se aproxime do que aconteceu na sessão.

A compreensão psicanalítica do papel do duplo, como um semelhante que fortalece e apoia no contacto com o mundo interno assustador, no fortalecimento da identidade e do narcisismo, enriquece e expande a perspectiva kleiniana, quando se trata do jogar em grupo.

Partindo do pensamento de Winnicott, Ferro sublinha que pode favorecer-se a elaboração das emoções primitivas numa espécie de espaço transicional, no qual não é importante ajuizar “a qual dos elementos pertence aquilo que se propõe” e se “permite o desenvolvimento” de histórias, sem a preocupação de “descodificar símbolos e significados “verdadeiros” (…) pretendendo, sim, “aumentar a capacidade de pensar e a expansão da mente” ( Ferro, 1998, 96-7) 

Um rapaz pré-adolescente de 11 anos (que pesava quase 80kg) estava constantemente a “partir tudo”, tendo levado a que várias tentativas de terapia individual e institucional falhassem. De facto, podemos dizer que já toda a panóplia de terapias “tradicionais” tinha falhado quando ele foi internado na unidade do Dr. Berger. Após ter-se chegado à conclusão de que todas as formas de terapia tradicional tinham falhado, mesmo no centro de dia, o pessoal, que estava a ser levado ao seu limite por ele, pediu-me que supervisionasse os cuidados prestados ao rapaz. 

Após ter analisado o problema clínico e ter chegado à conclusão de que o pessoal estava desesperado, sugeri que fosse providenciado ao paciente algum suporte através do seu “envolvimento” num lençol, num quarto à temperatura ambiente. Depois de algumas tentativas e erros, conseguimos criar um procedimento que envolvia a participação de três terapeutas (todos com treino em psicanálise) em cada sessão. Uma das psicólogas tinha por função deitar-se ao lado do rapaz. Ela estaria igualmente embrulhada, funcionado assim como um “duplo” para o rapaz e procurando “estar com ele”, “ao seu lado” [esta psicóloga podia expressar em voz alta o que sentia, face aquela situação, durante a sessão]. Outros dois clínicos estavam presentes em cada sessão. [As sessões] tinham lugar três a quatro vezes por semana, com uma duração de 1h30. Sempre que o pessoal sentia que estava a chegar a um ponto de rutura, eu era chamado para ajudar, mas era por norma o Dr. Berger, o médico especialista no hospital de dia, que lhes prestava apoio. 

Essa parte do tratamento durou seis meses. Após dois meses, era o próprio paciente que solicitava uma sessão sempre que se sentia em pânico: essas sessões “a pedido” complementavam as sessões anteriormente agendadas. No final do referido período de seis meses, foi finalmente possível a psicoterapia psicanalítica (Roussillon, 2013, 263-264).

Identificaram as técnicas psicodramáticas, onde nem sequer falta o que poderíamos chamar um “desdobramento do eu”?  O enquadramento encontrado é subsidiário da “compreensão” psicanalítica do “caso”? Reconheceu-se o carácter primitivo da situação clínica em presença com esta proposta terapêutica?

As técnicas psicodramáticas, a compreensão psicanalítica e a adequação do setting, estruturado de acordo com essa compreensão, têm a ver com o psicodrama psicanalítico. 

A busca de um objeto que oferecesse um limite físico ao terror da fragmentação, estava exigindo dos terapeutas uma contenção, um limite. O dispositivo montado ofereceu um limite impessoal (o lençol) permitindo a dispersão da transferência/contratransferência, tornando-as suportáveis, tal como acontece no psicodrama. Simultaneamente a palavra do duplo abre para o processo secundário modalidades de integração pelo pensamento. Mas também oportunidades de escoamento da angústia no processo mesmo do falar que serve de veículo a essa angústia.

Foi provavelmente a sensação de abaixamento da tensão, a sensação de alívio, que permitiu que, ao fim de dois meses, este rapaz começasse a pedir, ele mesmo, as sessões de envolvimento pelo lençol, acompanhadas pela capacidade continente e de elaboração dos terapeutas (quais egos auxiliares), particularmente do duplo que abria a possibilidade da verbalização.

É no cruzamento, por um lado, de uma observação que permita que ressaltem a imagem do corpo, a postura ou o comportamento que “falam” no palco do psicodrama, com, por outro lado, o insight analítico, que pode manter-se vivo o importante potencial diagnóstico, terapêutico e de elaboração teórica do psicodrama psicanalítico.

Imagem: Ismael Nery – “Nós”, 1926 – Óleo sobre cartão

Referências: 

FERRO, A. (1998) Técnicas de psicoanálisis infantil. Editorial Biblioteca Nueva, S. L. Madrid

FREUD, S. (1920) Para Além do Princípio do Prazer. Obras Completas, tradução da Standard Edition, Rio de Janeiro. Imago. Vol. XVIII, 26-27.

ROUSSILLON, R. (2013) The function of the object in the binding and unbiding of the drives. Int J Psychoanal. 94: 257-276.

SHAIMAN, M., WITTMAN, S. (2018) Mary Poppins Returns.