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“Por isso não provoque, é COR DE ROSA CHOQUE!” Rita Lee

8 de Março de 2019 foi um dia histórico! Em Portugal, nunca tantas pessoas se reuniram sob a égide do feminismo. Mulheres, homens, crianças, pessoas transgénero cantaram em uníssono: “deixa passar, deixa passar, sou feminista e o mundo eu vou mudar“. 

Numa cidade ocupada por uma maré de gente sem constrangimento de se nomear feminista, não nos sentíamos só mulheres, só mães, nem ou só psicanalistas, mas cientes de que não temos apenas uma identidade e que podemos marcar presença em diferentes espaços, transitar por entre comunidades e engajarmo-nos num movimento plural, simbólico e simultaneamente intrínseco e coeso.

Freud pergunta-se: “O que quer a mulher?”

Possuir o Falo impossível? Não ser castrada de um falo que simbolicamente lhe atribui poder, liberdade e conhecimento? Será o Falo o significante estrutural do psiquismo?

Freud, amadurecido na Viena do século XX, situado num determinado contexto sociopolítico e cultural, reconhece o lugar das mulheres mais na Domus do que na Polis, nas festas mundanas ou na reclusão monástica. O feminino simbolizava passividade, o masculino actividade. 

Consensualmente uma sociedade machista, mas não impeditiva de que, no seu seio, fosse construída uma teoria revolucionária, fecunda, reconhecedora da bissexualidade psíquica e do desligamento entre a identidade biológico-anatómica e a vivência subjetiva da sexualidade e do género: a Psicanálise.

A relação entre feminismo e psicanálise é repleta de controvérsias, confrontos e ambivalência! Comummente, Freud é considerado como um oponente do feminismo (ou vice-versa?). Acontece que sem Freud e a sua Psicanálise do Inconsciente e da Sexualidade, o sonho de igualdade feminista não teria lugar.

Julia Kristeva, psicanalista e pensadora feminista abre o próximo congresso da IPA, em Londres. Tempos de conciliação?

A vida das mulheres mudou desde a insurreição das trabalhadoras russas, precipitando a Revolução Bolchevique de 1917, mas continua sendo algo revolucionário quando as mulheres saem às ruas e anunciam que os seus corpos lhes pertencem, que a vida pública é tanto delas como deles e que o espaço privado deve ter tanto de íntimo cuidador feminino como masculino.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades persistindo a mesma inquietante interrogação: o que desejam estas mulheres? 

Será a nova vaga feminista, intrinsecamente ligada às pautas identitárias,representante da crise dos valores imanentes do Masculino e do Poder?

A psicanálise nos reassegura de que as respostas são múltiplas, polissémicas e impregnadas de fantasias, equívocos, resistências e desejos.

Desancorar o falocentrismo do discurso, articular novos simbólicos, dar voz à estética corpórea femininapotenciando a gestação de novas possibilidades de articulação da mulher na sociedade, na família e consigo própria, poderão ser algumas das vias.

A pós-modernidade confronta-nos com a complexificação das relações interpessoais, das expressões identitárias e das novas formas de apropriação do tempo e do espaço.

Desenvolver vocabulários compatíveis e não temer a dúvida inerente ao convívio com as novas identidade(s) e desejos parece-nos inevitável!

No 8 de Março, a multidão bradou pela urgência de discursos livres de contingências empíricas ou históricas, assim como pela naturalização da educação das meninas para uma autonomia igualitária à dos meninos implicando outros modos de significar o fantasma do feminino místico e misterioso, capaz de originar e negar a vida.

A maré feminista, surpreendentemente poderosa, não foi “fálica”. Diversa, sensual e musical, en-cantou e não deixou quem lá esteve indiferente!

Imagem: Fotografia da autoria de Ana Charro Garcia