Publicado em

Os nossos apartamentos

SINAIS, a crónica de Fernando Alves, fez hoje pela manhã chegar às nossas casas a espuma dos dias em que navegamos. Falou ele dos velhos e do apartamento a que estão confinados. Escutei, memórias ainda frescas, as palavras de indignação que fui lendo e ouvindo durante a semana, por aqui e por ali, a respeito dos velhos que teimam em ir aos jardins, em procurar os amigos das jogatinas, sentar-se nos bancos (que agora estão vedados com fitas de bloqueio) ou passear por seis vezes até ao supermercado em vez da vez que lhes está destinada e que, assim, se infectam e nos infectam. Apartamento, dizia homem da rádio, buscando-lhe a etimologia: apartar, deixar de fora, excluir. Dizia também velhos e não idosos, que lembra leprosos. O homem da rádio, de uma Telefonia Sem Fios, procura diariamente os sinais da nossa humanidade e manter-nos ligados ao mais essencial, ao que a peste nos pode fazer perder ou esquecer, ao que fomos já apartando das nossas vidas mesmo antes de ela chegar, à nossa doença colectiva. 

Andamos preocupados com a saúde e as infecções dos nossos velhos, é razoável e saudável. Mas de onde brota tamanha reprovação incontida e o tom exaltado com que se fala da sua rebeldia e inconformidade com as normas deste estado de emergência que nos vai salvar a todos? 

Banho-me na espuma dos dias e chegam-me as notícias dos lares, profissionais de saúde clamando por socorro à janela, os infectados, as medidas de contingência que deveriam ter sido implementadas, as casas que abrigarão os que sim e os que não. E mergulho em pensamentos inquietos. Se quando se fecharam as escolas foi garantido, através de um suporte económico, a possibilidade de um dos pais permanecer em casa para apoiar os filhos, porque não se tomam iguais medidas, devidamente divulgadas e operacionalizadas, para que os nossos velhos dos lares possam isolar-se (neste caso aproximar-se) em casa e com a família? O ruído do nosso silêncio colectivo é assustador.

A directora-geral da Saúde explica em conferência de imprensa que a mediana dos óbitos nas mulheres é de 85 anos, nos homens é de 80 anos e que, sabem, a maior parte das pessoas, para além do factor idade, também tinha doenças e, na maior parte dos casos, mais do que uma.  Fica assim um número e uma razão. E então? Estariam os nossos velhos, a quem mais do que a todos o vírus infecta e afecta, mais protegidos se todos nós conseguíssemos envelhecer só por uns instantes e em ressonância afectiva colocarmo-nos no seu lugar? 

Um ex-presidente diz-nos que entregaria o ventilador a alguém que tivesse uma família para cuidar. Os mais novos agradecem-lhe o gesto de humanidade mas, de entre os mais novos, também há quem não descanse porque, tal como o homem da rádio, sabe que uma crise traz afinal pouco de novo e revela o que já cá está. Sim, é agora terrível e triste, mas já o era. Sabemos do enorme sofrimento, do qual nenhum código de ética protege, do médico que tem diante de si duas pessoas e um único ventilador, num hospital em Itália. E decidimos então sair do imediato da urgência, ventilar a vida, projectamo-nos para a frente e desejamos que nada venha a ser como dantes. Queremos um tempo e um modo de ser e de estar que nos proteja a todos de apartamentos desumanos, que nos mantenha ligados, desde o berço até à morte. 

3 de Abril 2020