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Observação da Relação Mãe-Bebé na Família: o Método Esther Bick

Em 1948, o método de observação de Esther Bick (1964) foi introduzido na formação de psicoterapeutas e de psicanalistas com o objetivo de desenvolver a função analítica dos mesmos. 

É um modelo tripartido que consiste em: observar uma díada mãe-bebé, durante uma hora, semanalmente, em casa de uma família razoavelmente estruturada; anotar à posteriori tudo o que foi observado fora e dentro de si mesmo; apresentar e discutir o registo no grupo do seminário de supervisão. 

Os seus três vértices assentam no paradigma intersubjetivo, relacional e potencial: na relação mãe-(pai)-bebé na família; na relação observador-família e na relação observador-grupo/supervisor. 

A observação da relação precoce, submete o observador à vivência de uma contratransferência “primária”, colorida por intensas angústias arcaicas e difusas, através das quais contacta aspectos profundos de intimidade consigo próprio e com o outro, revisitando o bebé que foi e as relações com os seus objetos internos.

Desde Setembro de 2018 decorre, pela primeira vez na SPP, um grupo de formação neste método. O esforço e a dedicação exigidos são recompensados pela riqueza da experiência emocional e estética perante os primórdios da constituição psíquica e da comunicação não verbal dos processos mentais primitivos. 

A intensa emocionalidade, partilhada na porosidade de fronteiras entre todos os elementos envolvidos, levanta resistências e angústias que precisam desde logo ser elaboradas no grupo do seminário. 

O quadro continente do seminário, tal como o da observação, deve ser flexível mas rigoroso. Assim também o papel do supervisor, terceiro contentor das ansiedades arcaicas, deve ser firme e delicado no trabalho das situações individuais e dos fenómenos de grupo, facilitando um clima de cooperação e favorecendo a elaboração de conjeturas psicanalíticas sobre a relação mãe-bebé e sobre as vivências do observador. 

Ao promover um espaço de intimidade intra (cada observador com os seus próprios sentimentos, sensações e fantasias) e intersubjetivo (cada observador com a sua família e com os restantes participantes do grupo), o supervisor facilita o crescimento da verdadeira intimidade do grupo. Mas, para que a intimidade não se torne intimidante é necessário que a relação supervisor-observador-grupo se transforme numa “mente receptiva”, continente da contratransferência, decorrente das características da personalidade de cada um e das angústias primitivas ativadas no funcionamento grupal. 

O treino da contenção das próprias fantasias e atuações e a indagação constante, propicia o desenvolvimento da “capacidade negativa” (Bion, 1970/2007) e da “mente receptiva” (Houzel, 2010) na relação observador-família, reeditando a continência/rêverie necessária na relação mãe-bebé.

Assim, pode dizer-se que a dinâmica da co-construção da relação mãe-bebé vai a par com a construção da função do observador na fluidez e oscilação permanente Ps<->D (Bion, 1962/1988) entre envolver-se e des-envolver-se, entre intimidade primária (consigo próprio) e secundária (relacional), entre fusão e diferenciação, entre simbiose e aparelho para pensar de modo a estabelecer uma boa distância emocional. 

Afinal, observar vem do latim observare, “cuidar de, guardar”, formado por OB, “sobre”, mais SERVARE, “manter seguro”.

Imagem – Stanislaw Wyspianski – A maternidade (1905). Pastel 58,5x91cm, Museu Nacional, Kraków.