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OBLIQUIDADES XII

Queixosas e uterinas,  tão pouco actualizadas e tão  pouco instruídas que  apesar das revigorantes novidades largamente   difundidas continuam a vislumbrar algumas pequenas diferenças entre o feminino e o masculino, grande parte das mulheres  gosta de  fingir que suporta a pretensa ascendência dos homens e persiste a admitir-se  representada em tão desequilibrado cenário, entendendo por ascendência a vertente cultural da  tribo que as configura.
Sorrindo um pouco, dir-se-ia que esse fingimento pelos primatas engendrado e pelos tempos fora lamentavelmente prosseguido  se expandiu por todo o  planeta   num formato   paradoxal,   porque ao contrário do que parece lhes conferiu um ultra-sensível somatório de poderes e uma superlativa capacidade de lidar com a inteligência dos medos, acrescentando-lhes  magníficos patamares… 

(No discernimento, óbvio, 
de que nada disso tem a ver
com igualizações profissionais
 ou potencialidades societais… )

mesmo quando milimetricamente preconizam o contrário e fingem que não fingem…
mesmo quando fingem desconhecer o seu eterno predomínio sobre os homens e  automatizam   os fascínios  por todos eles  avalizados…
mesmo quando já nada fingem porque da santidade teológica passaram  à santidade ideológica  e, num intenso e revoltado frenesim, apenas   superfícies socioculturais observam e suprimem particularidades fundamentais.

Fingir, aqui, não significa uma consciente reactualização  de teatros  de Conservatório. Significa uma requalificação  qualitativa do teatro interior, sem racionalidades ablativas nem malabarismos compensatórios. Todas as suas sofisticações se desenrolam sem esforço e na fluidez nativa da sua interioridade furtiva, jamais em  auto-repressão, negação, menos ainda    denegação.  
Tratar-se-á da especial argúcia de quem nas paralelas assimétricas  executa  mãos livres sem arranhar o pavimento. Condição que   o lado fracturante da cultura de hoje, na pressa de  associar discriminações e de imaginar   subserviências,  liminarmente  rejeita. 

Numa atitude mais construtiva  que defensiva e numa providência mais evolutiva que cautelar,  corresponderá também a uma antálgica forma de lembrar  Paraísos Perdidos e de  homenagear na vida os filhos-acontecimentos reais, imaginários ou simbólicos…

(Homenagear os bons que sempre tiveram 
e os maus que nunca tiveram
nas alegrias de  partilhar…)

numa linguagem  sem palavras, desde que a externalidade permita.

Todas as mulheres têm e terão medo dos homens, salvo aquelas que por medo excessivo com eles se identificam e neles se transformaram. 
Tal como os homens,  nem todas  disso terão consciência,  mesmo as porventura muitíssimo  ginasticadas nos arremessos dialogais e nos solstícios empresariais, porque de momentâneas alegrias ou  tristezas não depende. Enraíza mais fundo,  nas complexidades solares  que engrandecem as identidades.
Se  esses medos  se resolvessem, grande parte das estratégias securitárias  deixariam de fazer sentido. Milenares  cerimoniais se dispensariam, modelares  turbulências  seriam arquivadas. Mas considerando a  total dependência maternal dos humanos no seu início e a subjectividade de todas as relações,  tal resolução parece de insustentável processamento.
O  recalcamento anatómico dos seus órgãos genitais,  pela posição de pé conferido, será de  impossível contraposição. Nem se tratará de  negativos sentimentos de ausência, ou de incómodas presunções de perda como classicamente se referia. Trata-se  da  valorização da mais enigmática fonte de misteriosidade1   dos humanos e  do  carismático esconderijo   das  mais atractivas ondas de medo e condimento…

 (Com ou sem “empowerment”,
com ou sem “girl power”…
que por mais voltas que dêem 
 só ao espelho os observam…)

 que  certamente nos manterão no que somos.

Na prática, todas as mulheres vencem os seus pretensos vencedores fingindo aceitá-los como vencedores, num   movimento em que repovoam  inerências, aglutinam consistências e renovam  andamentos, sem necessidade de  reabastecimento.
Reconhecendo-os mais dotados na corrida (seja nos Jogos Olímpicos, seja na fuga à polícia) e no lançamento de peso (seja nos Jogos Olímpicos, seja no apedrejamento da vizinhança) nessa vitoriosa admissibilidade as suas marcas   recompõem e os seus medos  desvanecem. 
Depois daquela história da maçã no Paraíso, todas supõem e todas fingem não supor que   as outras, sobretudo as mais expeditas e requisitadas, ao postigo lhe cobiçam o   homem (o chamado “homem da próxima”), e cochicham penetrantes maledicências sobre as  suas  aberturas e posturas. 
Despachadamente omitem o que no  interior se passa quanto ao  desejo e  quanto ao  medo  de não ser desejada pelo objecto do desejo e do medo do desejo, adornando-se no despique com eles e na  luta com elas…

(Com sexo agido ou não,
como a “Equestrienne”  de Chagall …)

apesar das incontornáveis evidências  do pénis  levantado
apesar das inquestionáveis alusões aos de cima e aos  de baixo
apesar de eventuais trepidações na  moldura
apesar das Laudas Espirituais e das Turris Eburneas tais equações  condenarem por nas  íntimas entranhas regozijos adivinharem…  
apesar de novas  angulares  poderem  acontecer e de azimutes sem fronteiras poderem alcandorar.

Será a  celebração  simultânea de todas essas ordenações, puritanas e impuritanas, vencedoras e perdedoras, que relevando as pequenas diferenças em todos homens e em todas as mulheres propiciam  as grandes verdades, as grandes mentiras  e  as grandes motivações.

Será esse dinamismo que simbioticamente lhes propicia os mais oceânicos mergulhos e as mais inesquecíveis ausências de pensamento, elevando-os e reassegurando-os.

Será esse temporário bloqueio dos jogos de poder e de anti poder que  lhes ressuscita  as sinfonias   onde ninguém   duvida de ninguém e onde numa (a)creditação sem limite perpassam graças  despidas de toxicidade… 

 (Orgasmos são  epifanias da vitória sobre o medo. 
Há circunstâncias  orgásticas primordiais
“perder-se” e “ganhar-se” no outro com o outro
é muito diferente das “sexualidades” que confundem 
legalizações  com pessoas e   apenas promovem
aproximações masturbatórias da outra parte…)

mesmo que para isso tenha havido necessidade desses catalisadores imprecisos para perdidos vencerem.

Nas actuais  aparências, muitos homens e muitas mulheres nunca disso se aperceberam. Esforçam-se por descartar as  pequenas diferenças, porque na idealização das tecnologias  incómodas se tornaram. Aquilo a que chamam pessoas não são mais do que instrumentos dos  seus próprios instrumentos. 
Incapacitada(o)s de perceber as elegâncias  fecundantes das avantajadas deusas  do neolítico,  ignorantes  das exuberâncias  mamudas das Saraghinas de  Fellini que em si mesmas albergam os fantasmas mais  genuínos de todos os homens e de todas mulheres,   tentam apagar as origens e  os  inconcussos subsolos pela evolução  concedidos.
Seremos   uns meros produtos culturais. 
Na superficialidade da forma e  na magreza de calibragem esventram ideias, dissolvem memórias, atropelam histórias, como  se fosse  tangível    enclausurarmo-nos nas  imagens…

(Nos corpos assexuados pelo medo
as anorexias mentais anulam
as pequenas diferenças…)

torpemente arrasando erotismos e sonhos. 

Inundando a sexualidade de sociologias (in)capacitantes e de numerologias triunfantes, transformam-nos na razão das razões que  pontificam…

 (Nunca haverá nada para  celebrar,
todas as proximidades serão 
cedências ao inimigo.…)

cavando opacidades que, estranhamente, constituem a melhor prova da existência de Deus.

De facto, só uma divindade extra terrena e  com propostas do outro mundo poderia engendrar seres humanos tão irremediavelmente mastigados por fora e tão incrivelmente reduzidos por dentro.
Seres que desperdiçam as excelências  do Sapiens e que extasiados em mitológicas urdiduras confundem:
o vidro do espelho com o espelho da vida, o lado psicológico das pessoas com o lado social da cultura, as regras da  subjectividade com as regras da colectividade, os direitos familiares das crianças com os direitos  das repartições de  finanças, as intemporalidades evolutivas com as efemeridades intempestivas, as prisões do passado com as prisões do futuro…
e que, sobretudo, confundem as liberdades externas com as liberdades internas…

(Ninguém cria naturezas:
apenas   combina e ajusta
passadeiras intestinas
em mensagens cristalinas…)

encordoados em tais securas nas suas íntimas muralhas
abrigados em tais remendos nas suas impenetrabilidades oclusivas
que até os pêlos do púbis estiolam e retorcidos falecem.

Imagem: “Equestrienne”, M. Chagall (1927)