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O que seria de nós sem os viajantes!

Transversal a toda a aprendizagem do Encontro, a interculturalidade é uma aprendizagem do singular-plural. E de um lugar terceiro: Eu, Outro e o que podemos construir em conjunto. Um espaço entre, onde coabitam raízes identitárias com florescências criativas por acontecer. Lugar de co-vivência, como diria Edgar Morin, de mestiçagens, alternativa ao pensamento binário, na linha de tensão entre o universal e o singular.  

Diz-se que quando perguntavam a Georges Devereux, etnólogo e psicanalista, o que aconselharia a alguém que quisesse tornar-se etnopsicanalista, ele gostava de dizer: “Partam em viagem e quando regressarem, iniciem a vossa formação”. É esta capacidade de descentração de si que constitui a condição essencial a uma verdadeira comunicação e ao trabalho do encontro.

A Interculturalidade inscreve a diferença e nela, inevitavelmente, a descontinuidade, a estranheza e o desconforto. Mas não é assim desde o início? Desde sempre que nos conhecemos na diferença, na prova da relação com o Outro, na fronteira que nos liga e separa. Construir a identidade é afirmar uma parte da nossa diferença significativa.  A poetisa Ana Hatherly (d)escreve-o bem: (…) “A diferença é o que nos une e separa. Quando o Eu descobre o outro começa a guerrilha sem fim. O nó que se faz-desfaz. A escolha: o gelo da solidão ou a horrível queimadura da vida.”

Todo o encontro – e dentro dele o encontro intercultural – traz sentimentos ambivalentes e os riscos da travessia: repetição e novidade, endogamia e exogamia, medo e liberdade. A experiência da alteridade (e a elaboração dessa experiência) obriga-nos a ver o que nem sequer poderíamos imaginar e supõe um olhar amplo e de transformação de si mesmo, a partir dessa estranheza.

Mas a inquietante estranheza não ocorre, como postula a Psicanálise, apenas entre nós e os outros, mas em nós mesmos (Je est un Autre). O que muitas vezes nos inquieta e angustia no Outro é precisamente o que desconhecemos, tememos ou recusamos em nós mesmos. Como fazer entender aos que hoje se preocupam com a vedação de fronteiras entre os povos que o estrangeiro está no coração da nossa vida psíquica e que estaremos sempre expostos à contingência de uma inquietante estranheza? E que é o seu reconhecimento que nos salva da morte psíquica.

Somos seres do entre, seres de relação. O medo ao Outro desconhecido, fora de nós e em nós, só pode ser ultrapassado através da relação e do encontro. Nunca fora dele.

Em tempos tão perturbados, tempos de fechamento de fronteiras, de evitamento e separação como estratégias de sobrevivência, tempos dominados por uma lógica binária do bem e do mal, impõe-se como nunca o trabalho do Encontro que nos salve. Combate de Eros contra Thanatos, da cultura contra a Barbárie, da vida contra a morte, da ligação contra o desligamento, da humanidade contra o desumano no humano.

Imagem: Maria Teresa Sá