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O que foi feito ao direito à nossa privacidade?

Ao ler os BLOGUES DE NATAL DA SPP, nomeadamente os da Ana Marques Lito e de Jorge Câmara fiquei sensibilizada com as mensagens de solidariedade, de esperança numa sociedade mais inclusiva, reforçando a simbologia do renascimento que em cada ano o NATAL representa. Eu por exemplo, que sou agnóstica, voltei a montar o meu PRESÉPIO com delicadas figuras italianas, com um encantador MENINO JESUS comprado em Assis. O Cristianismo traz consigo esta mensagem de renascimento, esperança e boa-vontade, que supera, para mim todos os dogmas e rituais religiosos. Não preciso de missas, nem da virgem, nem de São José, nem sequer de acreditar na Ressurreição, mas a NATIVIDADE impõe-se.

Se não fosse a mensagem  do  Jorge Câmara, nem teria nada a dizer. Custa-me ficar em silêncio, cabisbaixa e envergonhada e confusa.
Perante o título  A ARTE É O AMOR QUE SE REVELA, depreende-se que o AMOR é tomado como arte e a exibição da privacidade é sinónimo de inclusão, abrangência indiscriminada da tolerância numa sociedade em que tudo é permitido, tudo é natural, belo e até artístico. Os exemplos dados são eróticos e não de AMOR OBLATIVO, como é comum nas mensagens natalícias.
A exclusão depende de princípios éticos e estéticos inerentes à regulação do comportamento humano em sociedade. EXCLUIR, PUNIR, ESCONDER, é tão necessário e natural como INCLUIR,PERDOAR, EXIBIR. Não são preconceitos de uma sociedade retrógrada, mas comportamentos inerentes à complexidade do psiquismo humano. Considerar que tudo é permitido, natural e instintivo, como nos animais irracionais, equivale a perder valores e princípios inerentes à racionalidade humana  que implica normas, origem da POLÍTICA, da ÉTICA, da ESTÉTICA que permitiram o avanço da CIÊNCIA e da CIVILIZAÇÃO que nenhuma outra espécie atingiu.
A privacidade nâo é exclusão, é respeito pelos limites, pela diferença, a que todo o indivíduo tem direito, é assegurar a ALTERIDADE, é respeitar e reconhecer o outro, e mesmo assim incluí-lo.

Meter aqui a verdade científica verso verdade subjectiva, ou VERDADE/ MENTIRA, é fora do contexto. O  que é criticável e inaceitável são os excessos, o autoritarismo repressivo, o fanatismo e narcisismo destrutivo de alguns líderes. A ESPÉCIE HUMANA É GREGÁRIA, e teve necessidade de se organizar para viver em grupo e para gerir os desmandos pulsionais (EROS /THANATOS). Daí que me parecesse ambígua e confusa a afirmação de que A ARTE É O AMOR QUE SE REVELA.

O facto da PSICANÁLISE libertar a sexualidade e o amor dos preconceitos patriarcais do sec. XIX, e que FREUD tivesse que se confrontar com a resistência da comunidade científica da sua época, como aliás aconteceu com todos os inovadores, não quer dizer que a sexualidade tenha perdido o pudor e privacidade e alguma vez a sua revelação fosse considerada artística. Não quer dizer que não sejam excluídas manifestações de violência, exibicionismo, narcisismo fálico e perversões que estão associadas à sexualidade porque lesam o outro.
O salto cognitivo que o homem deu em relação às outras espécies animais acrescentou-lhe responsabilidade  e capacidade de antecipação, A BIOÉTICA IMPÕE-SE.
O homem tem consciência da finitude da sua vida, ou seja consciência da sua morte o que lhe confere uma transcendência espiritual.

A autenticidade do afeto no AMOR NÃO LHE  CONFERE QUALIDADE ARTÍSTICA, A NÃO SER QUE SEJA  CRIADA POR UM ARTISTA , COMO ACONTECE NO BEIJO NA ESCULTURA DE RODIN , MAS NÃO NUMA FOTO OU VÍDEO POIS AÍ METE TERCEIROS E CORRE  O RISCO DE ALIMENTAR O VOYEURISMO, PORNOGRAFIA E PEDOFILIA, POR  EX,  NÃO SEJAMOS INGÉNUOS!

Imagem: “O Beijo”, escultura de Auguste Rodin (1888-89)