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O NOME DA ROSA: Umberto Eco e a importância da escuta

Uma recente sessão sobre a contratransferência, fez-me pensar numa afirmação do famoso escritor italiano Umberto Eco. E resolvi partilhar as reflexões que então fiz. Trata-se de um Universitário muito prestigiado, com vasta obra científica publicada, traduzida em várias línguas. Já avançado na sua carreira, resolveu escrever um romance, a que deu o título “O Nome da Rosa”.

Na badana da capa da primeira edição em italiano, que na altura comprei, contava que muitos lhe perguntavam porquê um romance, depois de tantos trabalhos científicos publicados. E explicava que, se depois de tantos trabalhos científicos, o autor publicava agora um romance, era porque, “in età matura, ha scoperto che di ciò di cui non si può teorizzare, si deve narrare “. Cito na língua original porque me parece uma afirmação fundamental quanto a uma conceção do funcionamento psíquico. (traduzindo: em idade madura, descobriu que, aquilo que não se pode teorizar, se deve narrar.) E de facto, a partir daí e continuando a sua atividade universitária, escreveu muitos outros romances (salvo erro mais 7). Narrou. Para que alguém ouvisse (no caso, lesse). 

Pensando na relação analítica, direi que a disponibilidade para ouvir a narração de uma experiência humana é um elemento essencial para que quem narra, descubra o sentido da sua narração. E trata-se de um processo espontâneo, antes que o ouvinte tente encontrar o modo de explicar. Percebeu porque contou e foi ouvido. 

Ainda na badana da capa da primeira edição, conta Umberto Eco que, na mesma altura, lhe perguntaram qual a razão da escolha do título “O Nome da Rosa”. Mas a isso, recusou responder.

Mas aconteceu um dia que, estando eu a ler um livro de um historiador holandês, sobre a Idade Média, me deparei com a longa citação de um texto, cujo autor se queixa da passagem do tempo, que faz desaparecer os heróis da história, de quem, depois, só temos os nomes. E termina em tom dramático exclamando: “A rosa primitiva só se mantem pelo nome. Só temos nomes vazios” E cita a expressão latina em que se inspirou para esta afirmação: “Stat Rosa pristina nomine. Nomina nuda tenemus”. Só temos a história. É preciso narrar. É significativo que Eco, embora faça muitas citações em língua estrangeira, nunca as traduz. 

O romance de que falo, passa-se no final da Idade Média, num Mosteiro onde acontecem estranhos delitos. Um monge prestigiado, de um outro mosteiro, é enviado para investigar o que ali se passa. Para o ajudar, leva, como assistente, um jovem noviço, chamado Adso. Este monge chama-se Guilherme de Baskerville, referência óbvia a um livro de Sherlock Holmes. O nome  Adso, do noviço, parece uma referência evidente a Watson, assistente do investigador nos romances do autor inglês.  

A investigação feita é muito interessante, mesmo para a compreensão daquela época. No final, encontramos Adso envelhecido, a tentar trabalhar no “scriptorium” do seu mosteiro. Cansado, deprimido, angustiado, exclama: Gott ist ein lauter Nichts, ihn ruhrt kein Nun noch Hier.(1)

Que na sua velhice um monge, que sempre viveu no mosteiro, faça sua esta exclamação é verdadeiramente dramático. E assim termina “O Nome da Rosa”.

É significativo que os romances de Eco se passam todos em contextos que foram reais. Só é “inventado” o herói da história, que percorre esses factos reais para através da sua experiência lhes descobrir o sentido (isto é, para que  o leitor, lendo, seja ele a descobrir). 

E, à procura do significado, Eco continua a escrever romances. Continua a narrar. 

Na tomada de Constantinopla pelas tropas da IV cruzada, um jovem, Baudolino (personagem inventado e herói desse romance) do séquito do imperador alemão, salva de ser morto o historiador bizantino Nicetas Coniates (personagem histórico). Quando se encontram a sós, Nicetas pergunta: Baudolino, tu quem és, o que dizes de ti mesmo? Muito confuso com tudo o que se tinha passado, o rapaz responde que já não sabe bem quem é. A resposta de Nicetas é lapidar: “Olha Baudolino, tu salvando-me, deste-me o pouco futuro que me resta. Eu ouvindo-te, restituo-te o passado que perdeste.” Era psicanalista, Nicetas?. 

(1)

Gott ist ein lauter Nichts,
Ihn ruhrt kein Nun noch Hier;
je mehr du nach ihm greifst,
je mehr entwird er dir.

Deus é um estrondoso nada,
O aqui e agora não lhe dizem respeito.
Quanto mais tentas agarrá-lo,
Tanto mais Ele te afasta.

Angelus Silesius (1624-1677) dt: Schleisischer Engel, eigentlich Johannes Scheffler, deutscher Atzt, Priester und Dichter

Imagem: Fotografia do autor