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O Fascínio de Leonardo

Neste tempo de incerteza e inquietação, em que a maioria de nós se encontra em casa de quarentena, será possível encontrar espaço para a arte? Sinto-o não só possível como necessário.

Uma obra, seja ela escultórica, literária, fotográfica, musical, cinematográfica, ou plástica, tem em si o potencial de desencadear em nós cadeias associativas, que abrem caminho para um pensamento menos saturado, aumentando a nossa tolerância ao desconhecido e assim a nossa capacidade de reverie (a capacidade de permanecer com uma atitude receptiva, de acolher, descodificar, significar e nomear as angústias, para depois as devolver devidamente desintoxicadas). 

E talvez por isso me surja a necessidade de convosco partilhar uma experiência de maravilhamento. 

Esteve patente no Museu do Louvre, em Paris, França, uma exposição rara, de extraordinário mérito, dedicada a Leonardo da Vinci. Juntaram-se pela primeira vez no mesmo espaço obras provenientes de todo o mundo, cedidas por empréstimo para marcar a data dos 500 anos da morte do génio da renascença.


Nesta exposição pudemos observar demoradamente – por as peças presentes serem quase encantatórias – pinturas, desenhos, manuscritos e esculturas do mestre italiano.
Experimentámos a magia da coisa real, e o prazer da entrega à experiência estética como experiência transformadora. Um sentimento interno de qualquer coisa que se situa aquém da palavra. Christopher Bollas(1) fala-nos de “uma experiência na qual os fragmentos do self serão integrados por meio de uma forma de processamento”, “[…] a experiência estética é uma recordação existencial do tempo em que o comunicar-se ocorria, basicamente, através dessa ilusão de profunda harmonia entre sujeito e objeto. O estar-com, como forma de diálogo, capacitou o bebé a processar a sua existência, antes de habilitá-lo a processá-la por intermédio do pensamento.

Para um psicanalista visitar uma exposição é ter presentes, entre outros, os trabalhos de Freud, Winnicott, Klein, sobre a obra e a pessoa de Leonardo da Vinci.

Frente aos cadernos expostos, folhas amarelecidas com uma caligrafia desenhada e incrivelmente simétrica, nunca rasurada, de onde surgem apontamentos vivos de botânica, matemática, física, anatomia, onde está patente a sua genialidade e criatividade, uma curiosidade sem fim, e a procura sistemática de soluções e explicações, surge-nos um bailado de conceitos como os de narcisismo, pulsão, sublimação, libido, impulso criativo ou identidade.

Os rascunhos psicanalíticos que se quedam mais ou menos conscientes na nossa leitura, misturam-se aos estudos minuciosos de Leonardo feitos antes da produção de cada obra.

Ressoam as palavras de Freud (2)“…o instinto sexual é dotado de uma capacidade de sublimação, isto é, tem a capacidade de substituir o seu objectivo imediato por outros desprovidos de carácter sexual e que possam ser mais altamente valorizados” ou “…uma pessoa deste tipo poderia, por exemplo, dedicar-se à pesquisa com o mesmo ardor com que uma outra se dedicaria ao seu amor, e seria capaz de investigar em vez de amar


Leonardo da Vinci permanecerá uma figura incontornável, que suscitará admiração e maravilhamento, pela sua inesgotável curiosidade e fome de conhecimento, que fazem parecer qualquer caminho incompleto.

Como esta exposição sinto que haverá poucas. 

Mas nestes dias de recolhimento necessário, lancemos mãos aos livros que aguardam leituras, aos filmes que estão por ver e à generosidade de alguns museus que abriram as suas portas virtuais e nos permitem contemplar algumas das suas obras. 
Aproveitemos!

(1) Bollas, C. (1992). A sombra do objeto. Psicanálise do conhecido não pensado. Rio de Janeiro: Imago.

(2) Freud, S. (1910). Leonardo Da Vinci e uma lembrança da sua infância. Edição brasileira (1969). Rio de Janeiro: Imago.