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Nostalgia da Presença (e da Liberdade)

O confinamento (palavra vã e gasta) traz a vontade de sair, de partir, fazer as malas para outro lugar, algures lá fora, algures no mundo e com alguém. A distância traz vontade de intimidade. O écran traz vontade da presença ou da Presença. O poema dá vontade de o reconstruir e pôr Pessoa a rir: Ai que prazer não cumprir um dever/ ter uma uma teleconsulta e não a fazer! Zoom é maçada, teclar é nada/O sol doura sem internet /O rio corre, bem ou mal/ Sem ligação original/ E a brisa, essa, De tão naturalmente matinal, Como tem tempo não tem pressa (…)O mais do que isto é Freud/ Que não sabia nada de skype/ Nem consta que tivesse banda larga….

Este tempo dá vontade da presença. Do corpo inteiro, face inteira, mente inteira, materializados no sólido e real divan. Dá vontade de ver sem écran, sem tela e sem indiscreta janela. Vontade da inteireza justa do encontro, da poesia incerta do desencontro, do perto, do dentro, do sonho acordado e da voz sem auscultadores nem falta de rede. Do cheiro (sem álcool), do toque (sem luva), entre olhares que se reconhecem, dos silêncios perdidos nas paredes entre dois seres num tempo, num espaço, num encontro físico, real, vivido e sentido. Experienciado em carne e osso, em pele e abismo amparado, num todo encontrado.

Este tempo dá saudade da presença, lenta nostalgia da liberdade que se instala: de ver as rugas nos sorrisos sem máscaras, de ver as lágrimas e as maçãs do rosto sem elásticos nem viseiras, de ver as caras inteiras! De sorrir de corpo inteiro, pés no solo, olhos na alma, “E a brisa, essa, De tão naturalmente matinal, Como tem tempo não tem pressa”.

Sei que é bom estar presente, fisicamente, quimicamente, lentamente, abraçar a presença novamente para a saborear numa liberdade redescoberta, a magia da vida vivida no ser, sem ter que olhar nem ligar…só escutar, com rede…a rede invisível da nossa corporalidade e inteireza. Surge no pensamento Ricardo Reis a declamar: “Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda brilha, porque alta vive.” É bom o regresso à presença, voltar a abraçá-la, vestir presença ao acordar e deixá-la estar, simplesmente ficar no encontro a ser feito presente.

Não sei se a nostalgia da presença e da liberdade é estado, futuro ou apenas fase.

Imagem: Retrato de Fernando Pessoa, pintura de Almada Negreiros (1964)