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No Dia Mundial da Criança, ouvindo João dos Santos

Diante das velhas pedras das antigas civilizações, sinto-me num estado emocional idêntico àquele que me invade quando observo as crianças pequenas a construir o seu mundo.

 João dos Santos

Em “O Interesse da Psicanálise” Sigmund Freud aponta como contribuição principal da Psicanálise para a Educação o reconhecimento da importância da Infância. É uma extraordinária coincidência que João dos Santos nasça em 1913, o ano em que este trabalho é publicado. Psicanalista e pedagogo, pioneiro da moderna Saúde Mental Infantil e dos diálogos entre a Psicanálise e a Educação em Portugal, João dos Santos faz do enunciado freudiano o fundamento da sua obra, convidando cada adulto a encontrar-se com a criança que guarda dentro de si, para que possa educar.  A motivação para os problemas da criança, escreve, reside na infância de cada um, a experiência infantil  acompanha-nos pela vida fora, tal como a obra tem uma estrutura de base e toda a construção um alicerce, também a personalidade tem uma base ou alicerce que é a infância e tal como o edifício depois de acabado, retocado e experimentado não pode dispensar os alicerces, também a pessoa não pode mentalmente anular a experiência e as vivências da sua criação . 

De 1983 a 1986 João dos Santos manteve com João Sousa Monteiro, seu amigo e psicanalista, um Programa na Rádio Comercial, conversa semanal de vinte e cinco minutos. Insistia João dos Santos que falaria de crianças para que os adultos se mantivessem por lá sintonizados,  mas que, na verdade, era do próprio adulto que estava a falar e  que era pela criança que todo o adulto guarda dentro de si que esperava ser escutado. Um trabalho de educação de adultos,  pois que não pode ser educador senão aquele que pode sentir do interior a vida psíquica infantil (S. Freud). 

Estas inusitadas conversas radiofónicas, entusiasticamente acolhidas pelo público, abriram um novo olhar sobre a infância, mas também sobre os lugares onde o homem pode continuar a encontrar a sua fonte de vida, a arte, a cultura, a criatividade, o verdadeiro encontro. Na Casa da Praia, Centro que João dos Santos fundou, mantém-se vivo este olhar, no dedicado trabalho de mediação pedagógica e terapêutica com crianças e famílias. E, uma vez por mês, a equipa sintoniza de novo a Rádio Comercial, em Serões habitados por pensamentos, escuta flutuante e palavra livre. Trata-se de um encontro de adultos com adultos e com a criança que guardamos dentro de nós, pois sabemos que a educação não é uma matéria que se ensine, mas fundamentalmente uma atitude que reflete o confronto entre as vivências do educando que fomos com o educador que pretendemos ser (JS) .  É que toda a pessoa guarda um segredo e o segredo do Homem é a própria infância. E  nos  dias em que julgamos que todo o lixo do mundo nos cai em cima, acontece ali, uns com os outros, regressarmos ao poema de Eugénio de Andrade: 

Há dias em que julgamos /que todo o lixo do mundo/nos cai em cima /depois / ao chegarmos à varanda avistamos/ as crianças correndo no molhe/enquanto cantam/não lhes sei o nome/uma ou outra parece-se comigo/quero eu dizer: com o que fui /quando cheguei a ser luminosa presença/ da graça/ou da alegria/Um sorriso abre-se então/num Verão antigo/e dura/dura ainda”.

Imagem: Candido Portinari, “Crianças brincando”.