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Luz desviada: A Bovarinha

Agustina Bessa Luís terá revisitado Madame Bovary (Flaubert), por sugestão de Manoel de Oliveira. A escritora acedeu ao pedido do cineasta, ressuscitando Emma e Charles, personagens essenciais da trama de Flaubert – figuras que, pela pena de Bessa Luís, se converteram em Ema e Carlos. Vale Abraão viu a luz em 1991, resultando deste cruzamento feliz. Escassos anos após a publicação da obra, Manoel de Oliveira adaptou-a ao cinema. Tal era o seu propósito quando desafiara a autora!

Em Vale Abraão, Agustina constrói uma trama situada na região do Douro – que Oliveira, com rasgo, tão bem retratou no filme homónimo, através de uma fotografia majestosa. Ema é uma mulher de beleza singularíssima, dotada de grande magnetismo. Seria perfeita, não fora a circunstância de coxear, marca de uma doença que a afectara na infância… Ema pertence à burguesia, movimentando-se nesse meio selecto, cuja decadência é precipitada pela revolução dos cravos. A figura central da trama enferma de um tédio característico. A insatisfação domina-a. Sem entusiasmo, acede a casar-se com Carlos, um médico medíocre, instalando-se doravante em Vale Abraão. Frívola e leviana, Ema entretém-se de roda de amantes, nutrindo-se de um adultério compulsivo, enquanto a tragédia não a visita…

Agustina Bessa Luís condensa na figura da Bovarinha (outra designação de Ema), dimensões múltiplas. 

“O que melhor a definia era uma gelada lógica que negava os fins e os princípios da raça humana.” (pág 238) 

A protagonista, ao mesmo tempo que se inscreve na ‘dinâmica’ burguesa, rompe com a moral da mesma, simbolizando (uma cert’)a emancipação feminina.

Ema cedo se entrega à luxúria, consumindo-se em torno do prazer. Colecciona amantes, uns atrás dos outros, num jogo dominado pela lascívia. Perdulária, gasta sem limites! A escritora dota Ema de uma liberdade infinita, deslimitada, tornando-a estranha ao apego. Qual serpente, avessa  a vínculos – e à culpa(bilidade), também -, tenta, seduz, usa… e tudo, e tudo! Move-a o desejo, sem amor – é impressionante, por exemplo, a frieza e desprezo com que se refere aos filhos, sangue do seu sangue!

A mestria de Bessa Luís, no tocante à construção deste personagem – e aqui, cabe-me sublinhar que desconheço a Emma de Flaubert, que espero vir a visitar em breve -, reside no lugar peculiar em que a situa: algures entre a absoluta liberdade (de costumes) – em ruptura com uma moral  conservadora, hipócrita – e o despudor do desapego, um desapego quase estrutural, cuja génese nos é dada perto do epílogo. 

“Dirão os leitores que uma mulher como Ema não existe. Eu direi que sim. A mulher, aos cinco anos, percebe o que há de exasperaste e triste na vida, em todos os detalhes. E Ema, especialmente avisada ao ver pelo ralo do confessionário a mãe defunta, foi para sempre, e plenamente impregnada de uma amargura horrível. Como alguém que sabia estar cumulada de riquezas e as vê perdidas. Nada mais ama; deseja apenas, mas é tudo parte da memória e não factor de concupiscência.” (pág 238)

Agustina terá visitado a psicanálise – ou o inverso… Esta convicção instalou-se em mim, quando li Os Meninos de Ouro, esse outro prodígio agustiniano. Tal não é o afã da escritora pela origem, pela génese, pela ‘chave do mistério’, que os psicanalistas tanto buscam num passado, algures, remoto, estranho à compreensão adulta tout court… um passado que se actualiza na transferência!

A grande escritora, com a sua intuição psicanalítica (!), em lugar de se quedar no visível, almeja o que se oculta, o mistério. Em superfície, Ema enfermará de um Super-Eu embrionário e parco, que explicaria a sua estranheza ao vínculo, ao respeito, ao amor pelo objecto. Contudo, Agustina vai além, sublinhando a lógica defensiva que mobiliza este estar de Ema: a perda precoce da mãe e amargura subsequente remetem-nos para um luto inacabado, para um desamparo, ocultos pela frieza, quiçá…

Agustina Bessa Luís é uma escritora extraordinária, de fruição difícil. A sua escrita é singular, de grande complexidade, com momentos e considerações ensaísticas de uma grandiosidade luminosa. Não devemos procurar em Bessa Luís o entretenimento – aliás, Manoel de Oliveira, esse outro génio, tampouco serve o propósito do entretenimento…

Agustinar é um Estar, um modo de ver o mundo, de procurar entendê-lo, que devemos conjugar e perpetuar!