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Liberté, j’écris ton nom

Quando, alguma vez, a liberdade irrompe numa alma humana,

os deuses deixam de poder seja o que for contra esse homem.

Jean Paul Sartre

A liberdade individual, compromisso para a vida, manifesta-se em relações internas ao próprio sujeito, assim como em redes de relações que se atualizam no coletivo. Os contextos sociais, próximos e alargados, também os institucionais, asseguram à vida psíquica as condições de existência e propõem continentes e caminhos que nos podem subjetivar ou submeter, que nos ligam à vida ou à morte, à liberdade ou ao medo. Por entre a sobredeterminação inconsciente de um Eu que não é dono na sua própria casa e o projeto de que Onde estava o Id possa advir o Eu, a Psicanálise afirma o primado da Liberdade e procura libertar o homem do destino trágico da compulsão à repetição, a fim de que possa conhecer a sua verdade e as suas amarras interiores e almejar a um funcionamento psíquico pautado por uma mais livre circulação entre as pulsões e as exigências da realidade, criando um espaço de emancipação e de criatividade que lhe abra novas experiências de vida. 

A ciência das profundidades sabe como este caminho de liberdade é difícil e sabe também como as pessoas, ansiando por liberdade, falando de liberdade, vivem presas a padrões que a contrariam, sem que muitas vezes sequer o consigam perceber. Freud, em Psicologia de massas e análise do Eu e  Eric Fromm em O medo à Liberdade, analisaram profundamente o fenómeno do medo que a liberdade traz. A maior parte das pessoas tem medo de assumir a condução das suas vidas, anseia por um líder, alguém que seja responsável pelo seu destino e que faça as escolhas por elas. Este medo à liberdade está disseminado na sociedade, em diversos aspectos do nosso quotidiano, na política, na cultura e nas nossas vidas. Embala os medos em que assentam e se alimentam todas as derivas e políticas securitárias e totalitárias, aprisiona-nos em relações fóbicas ao mundo fora de nós e ao nosso mundo interno, confina-nos diante da perigosidade do desconhecido, policia-nos as ruas em que nos movimentamos e os nossos movimentos mais íntimos.  Como nos lembra Zigmunt Bauman, liberdade sem segurança conduz-nos possivelmente ao caos, mas segurança sem liberdade, à escravidão.  A ética da Psicanálise é a afirmação da liberdade e da singularidade do sujeito e o questionamento em que essa liberdade nos implica. Refere Hanna Segal que « Quanto mais somos livres de pensar, melhor podemos julgar a realidade e mais ricas são as nossas experiências. Mas, à semelhança de toda a liberdade, ela é igualmente vivida como um entrave no que nos faz sentir responsáveis pelos nossos próprios pensamentos. Poderosas forças, internas e externas, militam, entretanto, contra esta liberdade. O psicanalista dá-se como tarefa ajudar o paciente, antes do mais, a reconhecer o valor incomensurável de uma tal liberdade, a ver como vale a pena lutar por ela e a ajudá-lo a adquirir essa liberdade numa maior dimensão”.

Foi este caminho da Liberdade, no cruzamento do psíquico e do social e na sua relação dialética com o Medo, que a Sociedade Portuguesa de Psicanálise interrogou no seu  XXVII Colóquio –  Da Liberdade e do Medo –  em Abril de 2016

Em Outubro de 2020, voltamos a sentar-nos nessa sala humanamente habitada, com as interrogações que nos levaram a esse Encontro, hoje talvez mais do que nunca em busca de respostas e com novas perguntas, que nos humanizem.

Imagem: Cadeira, Instalação no Jardin du Palais Royal, Paris.  Fotografia de Maria Teresa Sá