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Fogachos Pandémicos III: Entre a violência e o cuidado

Mutirão
Origem: tupi
Significado: Trabalho em comum.

Segundo o Wikipedia, mutirão caracteriza-se pela “Mobilização coletiva para lograr um fim, baseando-se na ajuda mútua prestada gratuitamente. É uma expressão usada originalmente para o trabalho no campo ou na construção civil de casas populares, em que todos são beneficiários e, concomitantemente, prestam auxílio, num sistema de rodízio e sem hierarquia. Atualmente, por extensão de sentido, “mutirão” pode designar qualquer iniciativa coletiva para a execução de um serviço não remunerado.”

Tomando a radicalidade que esse conceito-ato sugere, poderíamos assumi-lo, como uma boa forma de vida coletiva, impregnada daquilo que Vladimir Safatle nomeia de solidariedade genérica.

Ainda nos primórdios do fenómeno global que, segundo a historiadora Lilia Schwarcz, veio inaugurar o século XXI, o filósofo desabafou um desejo: “Uma coisa que poderia nascer dessa experiência de uma luta coletiva contra a pandemia é um afeto político fundamental de solidariedade genérica: minha vida depende de pessoas que eu nem sei quem são. Elas não se parecem comigo, não fazem parte do meu grupo, e essas pessoas são fundamentais. O que demonstra que nós temos um destino coletivo.”[1]

Essa linha de pensamento reconhece a dinâmica da solidariedade não como aquilo que resulta da associação de demandas particulares, mas sim como aquilo que quebra a particularidade das demandas.

Num exercício de abstração das nossas próprias vidas, melancolizamos com a constatação de que a boa forma de vida coletiva – na qual estaríamos sempre incluídos, caso houvesse – está tão longe da realidade como “o mar está do céu”[2].

E se há múltiplas mundividências, podemos supor que a antítese da subjetividade contida no Mutirão, pode ser ilustrada pelas palavras da Dama de Ferro, Margareth Thatcher, que, nos finais dos anos 80 do século passado, sentenciou: “…there’s no such thing as society. There are individual men and women and there are families. And no government can do anything except through people, and people must look after themselves first. It is our duty to look after ourselves and then, also, to look after our neighbours.[3] – 

Desenhados os cenários, ardilosamente polarizados – Mutirão, por um lado e família e indivíduos por outro -, o fosso, aparentemente inultrapassável, que os separa, parece acessível aos nossos olhos, aparece perto. Onde nós estamos, quando assistimos carregados de impotência a estranha economia libidinal que subjaz à corrida trôpega às vacinas, regida por valores esvaziados de vida perante as mais-valias que a “propriedade intelectual” da saúde pode atingir.

Quando o mundo e a economia querem as ruas com gente, a suspensão temporária das patentes é atrasada pelas nações mais “desenvolvidas” do planeta.

Mesclada com as partículas de vírus que viajam pelo ar, a tensão entre os extremos parece estar inquieta por gritar cada vez mais alto, ensurdecer as nossas mentes e enturvecer, enturvecer. Estamos todos fatigados, mas uns bem mais do que outros.

Mais uma vez nos afetamos pelas palavras melódicas de Vladimir Safatle:

“Por um momento, parecia que a cortina, essa cortina abafada e
definitiva, a cortina de cuja existência seria melhor esquecer, iria
se fechar.
A cortina que cai entre a respiração e o fôlego, entre a
existência e a presença, essa mesma que diz que é assim que o
mundo termina, não com um estrondo mas com um lamento.
Por um momento que parecia interminável a cortina iria se fechar,
porque o difícil não é passar 20 dias.
Difícil é passar 20 minutos quando o tempo perdeu sua costura,
quando os instantes se descoseram.
Não havia mais tempo porque não haviam mais ossos entre os momentos,
porque alguém teve a péssima ideia de negligenciar o cuidado a tal ponto que
os ossos do tempo se quebraram, descalcificaram.”[4]

Nesses loucos anos 20, o que ainda permanece em causa é o risco da destruição de um solo comum de valores, uma base ética que aja atentamente como guardiã do entrelace dançante das pulsões de vida e de morte.

Viviane Mosé[5] fala-nos de uma crise civilizatória só transmutada em processo de expansão de vida através da modéstia.

No contexto clínico da relação psicanalítica, é o contínuo cuidado ao setting que dá permissão à liberdade e ao imprevisível. Perante a pandemia, novos formatos foram abraçados, priorizando o cuidado e a relação.

Há social. Há muito mais do que homens, mulheres e famílias, não fosse o pressuposto da teoria freudiana a identificação do desamparo como o afeto que nos abre aos vínculos sociais. É o desamparo que nos organiza psiquicamente, sem que o nosso sentido de vulnerabilidade básica, de insegurança ontológica, seja alguma vez resolvido, já que o Outro transporta continuamente a imprevisibilidade e a indeterminação.

Também o vírus tem tanto de singularidade, de imprevisibilidade, como de realidade. 

Em meio do Tempo da Mentira, a grande Verdade é a imprevisibilidade da vida, só suportável por também existirem possibilidades múltiplas de cuidado. Mutirão é o cuidado mútuo, a mutualidade do cuidado.

Nessa senda, os fogachos pandémicos (I, II, III, IV…) são afetos pessoais que só ganham alguma costura de pensamento através do cuidado que a troca entre colegas pode proporcionar.

Passado um ano, talvez ainda seja muito cedo para esperarmos por pensamentos que nos apaziguem. Mas há o seguimento da canção que teima em anunciar os desejos de vida e de futuro:

“Há um vento que traz as frases que não aceitarão serem esquecidas pois
brotarão no solfejo das nossas filhas com a força milagrosa da
memória soberana do que ainda não precisa ser sequer vivenciado para existir.
Ai daqueles que nada querem saber da soberania do que
brota no solfejo de nossas filhas.
Esses, meus amigos, esses não verão os milagres que, afinal,
nunca foram mesmo para os que só conhecem o sol do meio dia.
Pois essas frases ainda soarão quando a queda deixar de cair 
e o corpo sentir esta estranha ascensão do que teima em não morrer
mesmo quando se está em queda,
do que aprende a voar na queda,
batendo os dentes uns nos outros em ritmo de síncope.
Porque até do bater de dentes se faz música.
Que se toque então mais uma vez as músicas que
nascem do bater em queda de nossos dentes,
porque não é de hoje nem de ontem,
é desde os tempos mais remotos que elas
vivem, sem que ninguém possa dizer quando surgiram.” [4]


Imagem: João Castro Silva, Draperies. Madeira criptoméria. Instalação – Cooperativa Agrícola Vila Franca das Naves.


[1] Entrevista, Agência Publica, 12 de abril 2020.

[2] Clã (1997). Problemas de expressão. Lisboa: EMI.

[3] Entrevista, Women’s Own, 1987.

[4] Safatle, Vladimir (2021). Solfejo de nossas filhas. São Paulo, SP: Selo Sesc. https://youtu.be/4pyzrp6kNvc

[5] Café Filosófico CPFL (25 Março 2021). Pandemia e o valor da vida.[Vídeo]https://youtu.be/dFM2kC6y3Pc