Publicado em

Flores de Abril

Ensinaste-me tudo sem que eu desse por isso. E talvez por isso tenha ficado o mistério, para sempre em mim, de não pretender entender. Ensinaste-me sem que te desses conta de que eu tivesse prestado atenção, e isso foi o melhor que pudeste dar-me. Encontro-me contigo vezes sem conta. Não que planeie ou atente ao instante desses momentos, mas é o que trago comigo, sem que saiba nomear, classificar ou contar para quem quiser ouvir. Lembro com exactidão detalhes minúsculos, pormenores e significados concretos da tua existência. Como traços, esgares ou palavras ditas. Lembro com exactidão onde íamos e de como o sol se mostrava nesse dia.

Aguardei o dia da tua partida, calculando pelas contas dos dedos quantos anos mais nos sobrariam, naquela infância já tão distante, naquele tempo sem pensar no seu fim. A tua presença e certezas transbordavam, ultrapassando o desafio do tempo e até mesmo o do meu temperamento, e talvez por isso não te importaste de saber que comemoraríamos a passagem do século olhando-me da tua velhice. Nesse dia rimos dessa profecia disparatada.

Ainda hoje não sei se a liberdade que convive em mim é aquela que eu escolhi ou se será aquela que eu admirava em ti. Vivias empolgado com as mudanças de Abril, embora no início vociferasses em vão para o televisor. Vivias tudo tão intensamente que eu juro que estava lá e também o vivi. Embora tal seja impossível, as imagens que tenho desse dia de Abril são tão nítidas e claras que me orgulho de lá ter estado, testemunhando o medo, a ânsia e a incerteza com uma alegria sustida.

Sei que esse dia ficou reconhecido como o primeiro dia do resto das nossas vidas. Mas para mim foi uma confirmação de uma certeza ou a mera concretização de uma inevitabilidade. A liberdade saiu à rua mas desde sempre te habitara, desafiando os cânones, as convenções, o expectável e todas as limitações contra as quais lutavas. Eras progressista, modernista, feminista, e muitos outros istas, defendendo, sempre com estrondo, a tua luta. Com ou sem utopias, lutaste sempre pelo teu pensamento, correste riscos, choraste perdas, mortes prematuras que não permanecem vãs e que alentaram ainda mais a tua determinação.

Muito depois daquele Abril a tua luta continuou sem que eu pudesse encontrar explicação para aquela tua permanente determinação e empenho. Como se sobrasse sempre uma causa, ou te bastasse qualquer singelo motivo de adesão. A tua vida sempre foi de luta, mas também de descoberta, de curiosidade e de paciência infinita para esta neta que, sem o prever, se juntou a ti na celebração da liberdade.