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Fantasmas em “Três Andares”: outro “andar” a propósito do filme de Nanni Moretti

Uma obra de arte a partir do momento em que é apresentada ao público deixa de pertencer ao seu autor passando a fazer parte de cada de um nós que a vê, ouve e sonha… (ideia “roubada” ao diálogo entre Maria do Carmo Sousa Lima e a pintora Ana Vidigal no último Colóquio da SPP). Embalado pelo nosso Colóquio sobre a criança e a psicanálise, o filme de Nanni Moretti: “Tri Piani”, e o excelente comentário da colega Sandra Pires sobre este mesmo filme, sonhei-o de novo e acrescentarei mais um olhar, ou mais um “andar”. 

A tradução portuguesa do título do filme permite transformar “três andares” numa metáfora, bastando para isso substituir o nome “andar” pelo seu verbo. E a partir daqui podemos fazer múltiplas associações. Três andares: Nanni Moretti andou às voltas com este filme, no seu pensamento e depois na sua realização; o filme traz-nos o andamento das histórias das personagens; e nós espectadores andamos com o filme dentro de nós.

Sandra Pires, no seu comentário, olha para a interioridade contida no filme e escreve-nos sobre os múltiplos fantasmas que andam dentro de cada uma das personagens. É a partir desta proposta que repenso o filme e procuro os fantasmas no quarto de cada um dos bebés das personagens adultas. Selma Fraiberg, no seu artigo: “Ghosts in the Nursery”, propõe uma figuração para o inconsciente na parentalidade ao designar os fantasmas (que andam) no quarto do bebé: “em cada quarto de um bebé há fantasmas. São visitas de um passado esquecido dos pais”. E estes fantasmas têm também três andares: os intrusos momentâneos, os que decidem andar pelo quarto do bebé por uma curta temporada, e os que passam a habitar nele em permanência.

Mas voltemos ao filme e a uma das suas primeiras cenas. É noite escura, somos levados para o exterior do prédio, na rua andam três pessoas. Uma mulher grávida em trabalho de parto (Mónica) aguarda pelo táxi que a levará ao hospital, outra mulher passeia tranquilamente um cão e, de repente, irrompe na estrada um carro desenfreado que atinge mortalmente a mulher que passeava o cão e embate numa parede, entrando dentro de uma divisão de um apartamento do prédio. Do carro sai um jovem visivelmente perturbado, Andréa (alcoolizado vem-se a perceber). A brutalidade desta cena, a da realidade externa, escancara a interioridade. É marcante a visão do dono da casa (Lúcio), ao olhar para o carro dentro do seu escritório. Um objeto exterior e estranho a uma casa acaba de destruir a barreira protetora da interioridade, da intimidade, de todo o mundo interno. E os fantasmas do passado, tão intrusos quanto um carro dentro de uma casa, parecem soltar-se das amarras do recalcamento, aproveitando-se da ferida agora aberta.

Lúcio é perseguido pelos fantasmas da sua própria sexualidade, projetando na relação entre a sua filha, uma criança, e um vizinho, idoso, uma sexualidade perversa, incestuosa. Este fantasma será residente durante uma longa temporada da sua vida e reatualizado: na violência física contra o vizinho; na aceitação da sedução da neta deste, uma jovem adolescente; e culminando na ruptura/renúncia à sexualidade com a sua companheira.

Em Mónica, sozinha com o seu bebé recém-nascido, o fantasma que a invade chega mesmo a ser personificado por um corvo, que aparece recorrentemente na cozinha da sua casa, imagem que nos vai dando conta do seu adoecer psicótico. Este seria um fantasma com residência permanente no quarto do bebé. Para Selma Fraiberg estes fantasmas apareceriam em pais que viveram precocemente na sua infância experiências traumáticas de terror e que acabaram por se identificar defensivamente ao agressor. Ainda para esta autora a perpetuação destes fantasmas dever-se-ia sobretudo à clivagem entre a memória dos eventos traumáticos e o afeto que lhes está associado. E com Mónica, Nanni Moretti leva-nos até à residência psiquiátrica onde vive a sua mãe, a avó do bebé, e não serão precisos diálogos para sentirmos o fantasma transgeracional. Neste momento do filme só ansiamos que alguém cuide de Mónica, que a maternalize. 

Por breves instantes dá-se um encontro entre vizinhas, Mónica e a mãe de Andréa (Dora), e colocamos todas as expetativas em Dora, finalmente alguém abraçará Mónica, mas Dora limita-se a ser funcional nos cuidados ao bebé. Que fantasma invade Dora que a impede de abraçar o desespero de Mónica, de ter uma existência própria, chegando mesmo a aceitar afastar-se do filho para manter o casamento? Será o mesmo fantasma que habita no filho, Andréa, e do qual ele tem consciência quando confronta o pai e reclama uma identidade própria?

Os anos passam, e os fantasmas parecem permanecer dentro de cada personagem. Para Selma Fraiberg os fantasmas só partirão quando for possível que os pais tornem consciente e experienciem as suas angústias infantis em contexto terapêutico.

Nanni Moretti apresenta-nos diferentes destinos para os fantasmas das suas personagens. 

Lúcio vê o seu fantasma desaparecer com a entrada da sua filha na idade adulta. Esta parentifica-o ao negar a existência do suspeito abuso sexual na sua infância. Com uma sexualidade já adulta, afasta-se dos pais com segurança e a leveza própria da juventude. É comovente assistir a sua despedida no aeroporto, todos dizem adeus ao fantasma do incesto.

Mónica não consegue ver-se livre do seu fantasma. A sua solidão agrava-se com o nascimento de um segundo filho. Mónica não teve a possibilidade de re-experienciar o seu trauma infantil, tendo-se mantido como sua única companhia o corvo, o fantasma de pelo menos três gerações.

Já Andréa e a sua mãe, Dora, conseguirão libertar-se do seu fantasma comum. A morte do pai de Andréa possibilitou a Dora olhar-se pela primeira vez. Mas é o estabelecimento de novas relações que permitirá um outro futuro para estas duas personagens. Andréa, agora ele próprio pai, consegue finalmente ver a mãe e não ver-se nela ele próprio, sem identidade, porque a mãe também já não é um fantasma, mas sim a mulher Dora.

História não é destino, e a psicanálise pode ser a história de um outro destino.

Obrigado Nanni Moretti!

Referência: Fraiberg, S. H., Adelson, E., & Shapiro, V. B. (1975). Ghosts in the nursery: A psychoanalytic approach to the problems of impaired infant-mother relationships. Journal of the American Academy of Child Adolescent Psychiatry, 14(3), 387-421.

Imagem: Montagem de cartaz do filme. (Autora da montagem: Madalena Pires)