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Ethos

Nesta época estranha que vivemos de confinamentos e recolheres obrigatórios, em que ficamos em casa resguardados do vírus, da chuva e do frio mas não de pensar e sentir, surgiu-me através de uma amiga uma série da Netflix, que vi recentemente, e que me parece uma boa sugestão para este novo confinamento.  

Chama se Ethos, palavra de origem grega que significa conjunto de costumes, práticas e crenças  característicos de um povo, como que uma espécie de identidade social.  De origem turca, de Berkun Oya e Ali Farkhonde, tem como personagem principal Meryem, uma empregada doméstica que inicia um processo terapêutico por desmaios sem razão aparente. A série vai-se  adensando trazendo para a história a sua terapeuta (Piri), a terapeuta da sua terapeuta (Gulbin), a sua família (irmão e cunhada Ruhiye), o hodja e sua filha Hayrunnisa.

Gostei muito desta série por ela nos levar para um universo longínquo, pelas suas paisagens e sonoridades distantes, a língua e a banda sonora, mas que também nos pode transportar para lugares bem conhecidos com as suas paisagens melancólicas, como a de um plano de um diospireiro à entrada da casa captada com uma luz que não precisa de palavras para nos fazer sentir. 

Põe-nos em contacto com o traumático, o irrepresentável e a ausência de palavras. Como acontece com Ruhiye parecendo estar fechada num mundo tenebroso, só dela, impossível de comunicar. O marido que se zanga parecendo não saber como se entristecer. Quando Ruhiye através de uma viagem externa mas também interna consegue, elaborar os seus traumas, o mundo da comunicação passa a ser possível e o seu filho até então mudo, começa a poder falar também.

A série evoca também à beleza das coisas simples, do amor quase pueril e do recalcamento da sexualidade.  

Aborda o uso do véu (hijabe) relacionando-o com a emancipação das mulheres e com os contrastes citadinos vs rurais. O citadino e moderno, muitas vezes como um velar de situações internas problemáticas, esquecidas ou mesmo negadas. Mostrando-nos que não podemos fugir das nossas raízes, das nossas origens, sendo a integração em nós o único caminho possível.

A importância da palavra, do trabalho clínico, como algo libertador de fantasmas internos e na tomada de consciência de afetos reprimidos que nem a nós mesmos podemos revelar mas: “Da mesma forma que a água encontra fendas numa pedra, essas emoções encontram fendas na nossa vida….”.

Da possibilidade de seguirmos o nosso próprio caminho como a filha do hodja (Hayrunnisa), elaborando e aceitando a sua própria individualidade. Mostrando que nem sempre censuras externas, sociais ou culturais implicam censuras internas. 

É curioso que a palavra ética deriva de Ethos (que significa também um conjunto de características ou valores de determinado grupo ou movimento) e que nos leva a reflectir com Gulbin e Peri até quando estão reunidas as condições éticas para a continuação de um trabalho terapêutico e quando este fica demasiado impregnado de aspectos pessoais, mostrando a evidente necessidade da constante elaboração da nossa contratransferência e da necessidade de pensar o que sentimos, distinguindo o que é nosso do que é trazido inconsciente pelo nosso paciente. E do perigo que corremos quando esta contratransferência é agida em vez de pensada.  A dificuldade do trabalho clínico quando somos confrontados com alguém que nos faz pensar e viver os nossos próprios fantasmas, como acontece com a Peri quando troca o nome da sua paciente Meryen pela antiga empregada da mãe.

É fácil envolvermo-nos com estas personagens, identificarmo-nos com os seus sentires e com as suas dificuldades e emocionarmo-nos. 

Imagem: Fotografia da personagem principal da série (retirada da Netflix)