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Entre a química e a biologia!

Entre o real concreto e o real ficcional!

Fiquei a saber que os filmes com zombies foram inspirados pelo conhecimento que temos dos vírus. São seres que se encontram no limite da vida e que só no contacto com um ser vivo, parasitando-o, usando-o, se tornam vivos, podendo a seguir ir-se embora. Que a sua própria sobrevivência depende da sobrevivência do ser que parasitam. Assim, este vírus ainda não aprendeu a viver e está a fazê-lo à custa desta pandemia.

Na falta de uma vacina ou remédio que salve ou amenize as sequelas, a forma de o conter, restringir, enjaular é confinando-nos a um espaço reduzido, restringindo os contactos, e tendo uma série de medidas que vão contra tudo o que faz parte do nosso reconhecimento mútuo. Alarma pela incerteza, pela ameaça da integridade física, pela segurança de quem amamos – e por isso nos restringimos – mas obriga-nos a conter as angústias mais antigas, contidas em pesadelos infantis de perdas temidas, tanto de seres como de sonhos e de realidades que precisamos para viver. Isto pode fazer zangar muito!

É pedido a cada um várias coisas importantes:

  • Ficar restringido espacial e socialmente: se não nos mexermos não contagiamos, não somos contagiados;
  • Confiar nas redes de liderança que coordenam os esforços para debelar o bicho; 
  • Manter os projetos e sonhos que decorriam e tiveram de parar ou que apenas sonhados esperavam a sua realização. Sonhos e projetos, muitos deles fruto de uma vida;
  • Manter uma economia em movimento, mantendo-nos parados e aceitando a evidente interdependência que emerge em dois grandes grupos: os que teletrabalham ou, não o podendo fazer, acatam a quarentena e os que vão para o terreno, para a linha da frente mantendo a nossa organização social. A partir destes dois grandes grupos, especializam-se outros: os que segundo a idade e estado prévio de saúde se encontram na situação mais ameaçada.
  • Calar a angústia e o medo, promover a adaptação ao novo espaço, aos novos horários, às novas formas de estar, aceitar e imprimir uma mudança nos ritmos corporal, espacial e temporal.

Haveria muito mais situações a descrever e haverá muitas histórias para contar; mas o presente torna-se difícil nas rápidas mudanças que exige e na incerteza do futuro. 

A perda dos referenciais quotidianos, põe questões interessantes a cada um destes exilados na sua própria casa e país. E penso que se a aceitação dos limites impostos é aceite pela racionalidade e ligação ao real, lidar com a contrariedade, a contenção da angústia claustrofóbica e do receio perante o futuro são mais difíceis de conter e de integrar.

Tudo isto nos torna mais predominantemente reativos, com menos tolerância, no duplo esforço de mudar, e de manter a ligação à vida. A desordem, o caos é talvez um companheiro do vírus que pode deitar por terra tudo o que está a ser tentado para o parar, tanto individual como socialmente. Há um tempo de organização, das pessoas, das instituições, dos serviços, das ligações que nos põe em espera mas que é preciso tolerar para que a ordem surja. 

Muitas das reações que têm surgido, como o alarme, a confusão, a indiferença, o prazer com a angústia dos outros, a apatia, pertencem-nos individual e coletivamente; todas elas nos pertencem em quantidades diferentes e isso obriga-nos a apurar a nossa capacidade de contenção e seleção das nossas próprias vivências e dos dados da realidade. Todas estas reações, oscilantes e ou simultâneas, trazidas pelos vários canais de comunicações e nomeadamente pelas redes sociais, são partes do nosso próprio funcionamento psíquico e daí o seu impacto.

Não sabemos o que se vai passar a seguir mas já nos foi dito que vamos viver um período doloroso a vários níveis: perdas humanas, perdas profissionais e de capacidade de sobrevivência económica e perda de certezas sobre o devir. Sabemos que o humor, a criatividade e a solidariedade são instrumentos que nos permitem manter a esperança e a confiança em nós e nos outros. Mas acima de tudo como podemos impedir que esta invasão do perigo externo coloque em risco o que somos e nos possa transformar no monstro que receamos? 

Isto leva-nos à dificuldade de entender as várias realidades, excepto se forem contadas e aceites. Os nossos medos, desconfianças e receios não podem ser alterados, amenizados, se não forem entendidos, expressos e respeitados. Tudo o que leva à inibição do nosso viver, leva à perda de subjectividade, esconde-se num grande baú onde a memória e o significado se perdem. Podemos ambicionar um corpo são com uma mente sã, numa sociedade saudável.

A esperança vem com a verdade, mas essencialmente com a crença de que seremos capazes de lidar com o que a vida nos apresenta: com a angústia, com a culpa, com a perda e com a solidão. Sempre mantendo a esperança de que a solidão pode ser uma solidão acompanhada.