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E quando a psicanálise sai de casa…

No seu comunicado de Bom Ano Novo, Virginia Ungar identificou, como uma das prioridades da administração actual da IPA, a intensificação do contacto e da presença da psicanálise junto da comunidade.

Salientou a importância de os psicanalistas “saírem dos seus consultórios” para que a expansão da psicanálise também resulte em real contribuição para o confronto com problemáticas humanas de especial dificuldade, devastação e complexidade.

As suas palavras fizeram-nos pensar no trabalho diário desenvolvido em ambiente institucional, mais precisamente no Centro de Atendimento Mulher (CAM) – onde uma equipa multidisciplinar, da qual fazemos parte, intervém e acompanha mulheres vítimas de violência doméstica.

Trabalhar com mulheres vítimas de violência doméstica confronta-nos com as extremas fragilidade e brutalidade inerentes ao ser humano. Eventualmente mais compreensíveis, se reconhecermos a grandiosa força inconsciente que as pulsões de vida e de morte contêm e semeiam nas dinâmicas intra e interpessoais.

Retomando as palavras de Virginia Ungar, perguntamo-nos:

Como um centro gratuito e multidisciplinar de acompanhamento a mulheres vítimas de violência doméstica poderá integrar um serviço de psicoterapia psicanalítica?

Esta questão nos tem acompanhado há muito anos, sendo esclarecida e também problematizada a medida que os processos de acompanhamento vão ganhando consistência, aprofundamento e transformação.

“In terror, one does not think” (Viñar, 2005),

Quando encaramos problemáticas de violência familiar, ao longo do processo de ajuda, a realidade externa pode estar híper-presentificada, dado a natureza intrusiva das dinâmicas abusivas. Assim, a equipa do CAM debate-se continuamente com a imposição urgente para agir sobre o tempo e mesmo agir contra o tempo, contendo o impacto nefasto e imponente do real violento. A esta dimensão relacional com o tempo designamos por Temporalidade Agida.

Contrariamente e em constante dialéctica com a anterior, a disponibilidade do serviço de psicoterapia psicanalítica propõe a dimensão da Temporalidade Suspensa, na qual a “suspensão” possível da realidade externa abre caminho ao reconhecimento e significação das experiências internas, para além (e aquém) da vitimação e da eventualidade do trauma.

No CAM, os processos psicoterapêuticos a diferentes ritmos -contratos terapêuticos com frequência até 3 X semana-, sem prévio limite de tempo e conduzidos por psicoterapeutas com formação psicanalítica, contêm, através da escuta analítica, a porta de acesso ao simbólico e a proposta de construção de narrativas elaborativas que ligam, “pelo fio do desejo” (On the thread of the wish Freud, 1908), o passado ao presente, reestruturando o futuro como o lugar da compreensão e da alternativa à repetição compulsória.

Distinto do setting psicanalítico clássico, no qual “o externo” ocupa o “mínimo indispensável”, o trabalho psicoterapêutico institucional pode ser confrontado com ameaças desconcertantes. No entanto, a função analítica da mente- investigadora e potenciadora dos diálogos intra e intersubjetivo- constitui-se como ingrediente primordial para a estruturação da relação terapêutica transformadora, quer esta esteja inserida e protegida pelo consultório– a casa da psicanálise-, quer funcione no seio do heterogéneo ambiente institucional ou comunitário.

Imagem: João Castro Silva, Quadrado de Céu, Land Art Lavandeira Oliveira do Douro, 2007