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De Corpo Presente

No texto A família institucional e fantasmática do analista, o psicanalista italiano Stefano Bolognini descreve com beleza poética como, ao longo dos anos, em seminários e encontros institucionais com colegas, dava por si a recordar-se de momentos da sua infância em que, ao redor de uma mesa comprida “na grande cozinha da casa de campo”, via reunida a sua família alargada (avós, pais, tios, primos, irmãos e vários parentes). Lembra-se de serem encontros “memoráveis e vivos” para cada um dos participantes. Ano após ano, as Jornadas Internas do Instituto Português de Psicanálise são um desses momentos ricos, fecundos e acolhedores de (re)encontro com a nossa família institucional

De Corpo Presente foi o mote para nos reunirmos, no passado dia 19 de Outubro, para as X Jornadas Internas, num clima bastante afetuoso, como sublinhou Maria do Carmo Sousa Lima, ao dar início aos trabalhos, na sua qualidade de presidente do Instituto de Psicanálise. A presidente da Comissão de Ensino, Maria José Gonçalves, lembrou que as Jornadas tiveram sua primeira edição sob os anseios de uma instituição que buscava estreitar os laços entre os seus associados e, sobretudo, constituir um espaço singular de discussão e produção de saber psicanalítico. O que começou de modo relativamente informal ganhou, ao longo destes dez anos, uma identidade própria, um corpo definido e a crescente adesão dos seus membros. Tornou-se, em suma, um momento incontornável da vida institucional da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. 

Foi realmente De Corpo Presente que vivemos estas Jornadas.  Presente porque vivo, dinâmico, em contacto. Presente esteve o corpo teórico-clínico da psicanálise através da riqueza das intervenções daqueles que partilharam o seu trabalho, presente esteve o corpo da Sociedade Portuguesa de Psicanálise através da participação entusiástica dos seus membros. Presente esteve o corpo que somos, que ocupamos e que nos ocupa, nós e os que connosco partilham viagens interiores, o corpo que nos interpela, que exige, convoca, excita, interroga e desafia o nosso pensamento.

Iniciámos a manhã pela mão de Ana Melícias, que nos levou a viajar pelas especificidades do mundo da psicanálise infantil, mas também do infantil que se presentifica em todo o encontro analítico, convocando-nos a refletir sobre os caminhos pelos quais a interpretação se corporifica na relação analítica, como a interpretAção toca, mobiliza, vitaliza. Acompanhámos depois Rita Gameiro pelas vicissitudes da experiência do corpo adolescente, corpo portador de histórias, palco de transformações, testemunho de receios mas também de esperanças. De seguida, Orlando Von Doellinger sublinhou a disponibilidade e a abertura da escuta psicanalítica à singularidade dos processos de significação que sustentam as modificações voluntárias da imagem corporal. E a fechar a manhã mergulhámos, com Rita Marta, no corpo do analista, palco da experiência de contacto mas também personagem presente, ativa, com falas e movimentos próprios, que com as suas transformações incide na cena analítica e mobiliza o corpo psíquico do paciente. Todos os colegas, cada um à sua maneira, nos falaram do importante papel que a contratranferência do analista desempenha neste processo.

À tarde, na maior intimidade dos pequenos grupos, as colegas Maria Bibas, Isadora Pereira, Sofia Rocha Vieira e Ana Pais generosamente partilharam as suas experiências, que foram comentadas pelas colegas Ângela Vila-Real, Maria de Deus Brito, Cristina Fabião e Elsa Couchinho, e pensadas pelos diversos grupos de participantes. 

A fechar o dia de trabalhos, Leonardo António partilhou connosco Soma, narrado ao vivo pelo próprio. Este filme convidou-nos a visitar os territórios do corpo biológico e a deambular oniricamente pelos espaços de interseção, de inquietação e de significação que se tecem nos encontros e desencontros entre o somático, o psíquico e o social.

E assim, juntos, todos crescemos mais um pouco e enriquecemos a nossa história familiar, De Corpo Presente, nestas Jornadas que são já uma tradição entre nós.