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Como uma madeleine de Proust

Os dias de Setembro e de Outubro estão sempre impregnados de um sabor muito particular, como uma madeleine de Proust. Ecoam certamente num tempo de infância e adolescência e nos sentimentos que lhe estão associados, como reacções de aniversário de que nos fala Bruno Bettelheim, esses registos guardados na nossa memória afectiva inconsciente, que nos revisitam com dia e hora marcados.  

O tempo do regresso às aulas. Recomeçar, começar de novo.

Entusiasmo, excitação, angústia, inquietação, ânimo ou desânimo, antecipação de sucessos ou de fracassos, as vivências que guardámos dessa época, continuam a habitar-nos. É que os tempos de escola, caminhada pelo mundo grande exogâmico, época longa e decisiva das nossas vidas, depositaram no nosso Eu, em claro escuro, importantes traços, mesmo que a escrita seja em tinta invisível.

Professora numa Escola de formação de professores, proponho com frequência aos meus alunos, nos nossos primeiros encontros, que registem sob a forma de uma escrita pessoal, o que recordam dos seus primeiros dias de escola e algumas das palavras que os tenham marcado, com o objectivo de construirmos, a partir dessas experiências singulares, um painel de conhecimentos que nos permitam compreender o papel que têm o acolhimento e as experiências relacionais dessa época distante e captar o foco de luz e sombra que lançam pela vida fora. 

Este recordar, etimologicamente fazer passar de novo pelo coração, este trabalho de memória, permite o reencontro com palavras, gestos e imagens de que não tínhamos consciência ou que julgávamos perdidos para sempre e experienciar como as vivências e emoções dos tempos de escola permanecem afinal guardadas, vivas e actuantes no mais intimo de cada um. 

Tem-se revelado uma experiência muito rica sob múltiplos aspectos, trazendo uma nova luz sobre o efeito das palavras, essa “primeira casa que o homem habita” como escreveu Heidegger. As palavras agem, situam-nos aqui ou ali, encaminham, propõem, constroem sentidos, os seus ecos têm um longo tempo de vida e ressoam em nós, à maneira dos pequenos seixos que, quando lançados à água, desenham círculos concêntricos.

Os tempos de escola e as modalidades relacionais e discursivas que os enquadram, desfilam na nossa biografia infantil e juvenil, como pequenas histórias aparentemente insignificantes,  mas que irrigam do nosso interior muito do nosso eu social e profissional pela vida fora. É enorme a importância da relação pedagógica que envelopa as aprendizagens e os comportamentos ao longo da escolaridade. 

Disse Freud que “ninguém pode ser educador se não puder sentir do interior a vida psíquica infantil”. Esta competência é solicitada e posta à prova no dia a dia de todos os que se ocupam de crianças e jovens e, julgo que de uma forma muito particular nos tempos que correm, num dia a dia que exige por parte dos adultos um permanente trabalho de leitura e descodificação do que muitas vezes se apresenta como desorganizado, caótico e desligado, a fim de lhe conferir sentidos e encontrar respostas adequadas. Dito de outra forma, a fim de educar.

Que podemos nós desejar neste tempo de regresso, senão uma escola que queira e saiba acolher todas as crianças e jovens com boas palavras, uma escola suficientemente boa, onde cada um possa encontrar um lugar que seja seu, que permita crescer, abrir-se ao mundo, e guardar estes inícios como bons acompanhantes internos para o futuro. Como uma deliciosa madeleine de Proust.

Imagem: Robert Doisneau , Les écoliers de la rue Damesme, 1956