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Um sorriso abre-se então num verão antigo e dura

À minha frente uma jovem empurra um carrinho de bebé. Vejo que não traz máscara e fico muito feliz pela bebé. Sorrimos. Por respeito para com os bebés nunca os cumprimento de máscara. A mãe autoriza-me a cumprimentar sem máscara a sua filha. Do seu carrinho-ovo a menina oferece-me um sorriso que é pés, braços e corpo inteiro e ficamos por ali numa conversinha de gente. A mãe entra na conversa, falo do sorriso social e ela diz que também já reparou. Como aprendi com João dos Santos, para comunicarmos com uma criança é preciso que nos coloquemos num lugar de onde ela nos possa ver inteiros. Um bebé não pode ver um adulto por detrás de uma máscara. Nem a si próprio, nas expressões entrelaçadas com o Outro. 

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Um Método Perigoso

Escolhi o título de um filme de 2011 que, de forma ficcionada, ilustra as relações amigáveis e mais tarde conflituosas entre Freud e Jung, psiquiatra e psicanalista suíço e um dos primeiros discípulos de Freud, para uma breve reflexão sobre a especificidade e os imperativos da relação analítica, bem como sobre o significado da violação ética dos limites da relação analítica. 

O filme mostra também a relação íntima e perigosa que se estabelecera entre Jung e uma das suas pacientes, Sabina Spielrein, e também o sofrimento que esta situação tinha trazido para ambas as partes. Sabina Spielrein, fez uma segunda análise com Freud e tornou-se psicanalista.  Foi a primeira analista, não certamente por acaso, que concebeu o conceito   de pulsão de morte, que Freud veio a aprofundar.

Vem esta análise a propósito das notícias recentes sobre o comportamento inapropriado de um psicanalista, reveladas no âmbito do movimento “Me Too”. 

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Fogachos Pandémicos IV: Distância Encurtada

No final de 2019, quando pela 1ª vez ouvi falar num doente com Covid, na distante Wuhan, lidei com a notícia com comparável distanciamento. Nessa mesma noite fui deitar-me com uma tranquilidade, percebo agora, pueril: é só mais um problema, que os cientistas, os que tudo sabem, vão resolver. 

Em Março de 2020 são identificados os primeiros doentes com Covid em Portugal, a OMS declara a doença Covid-19 como uma pandemia e é decretado no nosso país o estado de emergência…. Enquanto isso, dentro de mim, um burburinho surdo de sentimentos, de desejos, de receios e, mais uma vez, a negação do medo: ficamos todos em casa, confinados, terei mais tempo e mais disponibilidade mental para ler, retomar hobbies. Na imaginação todos os possíveis têm a mesma realidade. Ao recorrer a mecanismos mentais primitivos, precoces, a nossa mente evita experimentar uma confusão e uma ambiguidade intoleráveis e cria um sentimento ilusório de movimento e de alívio. E o medo da morte está intimamente relacionado com a solidão, medo do abandono e da dependência (Klein)

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O NOME DA ROSA: Umberto Eco e a importância da escuta

Uma recente sessão sobre a contratransferência, fez-me pensar numa afirmação do famoso escritor italiano Umberto Eco. E resolvi partilhar as reflexões que então fiz. Trata-se de um Universitário muito prestigiado, com vasta obra científica publicada, traduzida em várias línguas. Já avançado na sua carreira, resolveu escrever um romance, a que deu o título “O Nome da Rosa”.

Na badana da capa da primeira edição em italiano, que na altura comprei, contava que muitos lhe perguntavam porquê um romance, depois de tantos trabalhos científicos publicados. E explicava que, se depois de tantos trabalhos científicos, o autor publicava agora um romance, era porque, “in età matura, ha scoperto che di ciò di cui non si può teorizzare, si deve narrare “. Cito na língua original porque me parece uma afirmação fundamental quanto a uma conceção do funcionamento psíquico. (traduzindo: em idade madura, descobriu que, aquilo que não se pode teorizar, se deve narrar.) E de facto, a partir daí e continuando a sua atividade universitária, escreveu muitos outros romances (salvo erro mais 7). Narrou. Para que alguém ouvisse (no caso, lesse). 

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O inconsciente é o infantil

Na obra Notas sobre um caso de neurose obsessiva (1909), também conhecida como a análise do caso do Homem dos Ratos, Freud escreveu: O inconsciente é o infantil. Chamava assim a atenção para a importância do reconhecimento da existência de elementos inconscientes ligados às experiências e fantasias infantis presentes no mundo psíquico dos adultos. Na obra, Freud debruça-se particularmente sobre a rigidez dos mecanismos obsessivos instalados de modo a não permitir a conexão do seu paciente com as suas fantasias e desejos infantis, que permaneciam inacessíveis no seu inconsciente.

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Psicodrama Psicanalítico e Técnicas Psico-dramáticas: a psicanálise fora do divã?

Foi no dia 1 deste mês de Abril, há 100 anos atrás, que aconteceu a primeira sessão de Psicodrama de Jacob Levy Moreno, a 1 de Abril de 1921.

No jogo do carretel, Freud (1920) relata como uma criança de 18 meses que ele observou, na ausência da sua mãe, inventara um jogo para elaborar a angústia de a ter perdido. Freud sublinhava a importância da mudança da passividade para a actividade (o protagonismo?) que o jogo propicia.

No júbilo que a criança sentia e mostrava ao ver que afinal o carretel reaparecia de novo, que não estava definitivamente perdido, contactamos com aquelas experiências de reencontro com tudo e com todos que julgávamos dolorosamente perdidos e afinal…não o estão. Estavam apenas fora de vista …na “place where the lost things go”, esse lugar que Mary Poppins vem estabelecer na família das crianças que tinham perdido a mãe. (Shaiman, M., Wittman, S., 2018).

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Volto já, meu pai

Seres gregários, o desejo de nos ligarmos aos outros é o que nos mobiliza, desde o nascimento. A procura do Outro é um impulso profundamente ancorado na nossa organização psíquica, corporal e visceral e é a qualidade da resposta a esta necessidade primeira que nos garante um equilíbrio biológico e psíquico elementar e a possibilidade de prosseguirmos a vida. O nosso sopro vital. A proximidade e o laço social afectam profundamente a nossa saúde física e mental, desde sempre e para sempre, até ao fim. 

A necessidade do contacto humano não diz apenas respeito à infância. A sua carência precoce é a mais grave e a mais profunda, mas sempre que ocorre reactualiza o trauma ou introduz o mal-estar no tecido humano e rompe o equilíbrio somato-psíquico, rasgão que é preciso voltar a tecer, com todo o cuidado e vagar, trabalho que se fará de novo através da relação humana e do laço. Não há outro modo.

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Fogachos Pandémicos III: Entre a violência e o cuidado

Mutirão
Origem: tupi
Significado: Trabalho em comum.

Segundo o Wikipedia, mutirão caracteriza-se pela “Mobilização coletiva para lograr um fim, baseando-se na ajuda mútua prestada gratuitamente. É uma expressão usada originalmente para o trabalho no campo ou na construção civil de casas populares, em que todos são beneficiários e, concomitantemente, prestam auxílio, num sistema de rodízio e sem hierarquia. Atualmente, por extensão de sentido, “mutirão” pode designar qualquer iniciativa coletiva para a execução de um serviço não remunerado.”

Tomando a radicalidade que esse conceito-ato sugere, poderíamos assumi-lo, como uma boa forma de vida coletiva, impregnada daquilo que Vladimir Safatle nomeia de solidariedade genérica.

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SABER VEM DE SABOR

Chegou-me por mãos amigas, o link da Biblioteca Mundial da ONU – www.wdl.org. Lançada pela Unesco em Abril de 2009, esta dádiva para a humanidade, surpreende-nos logo na página inicial com os seguintes dados: 19.147 ítens sobre 193 países entre 8.000 a.C. e 2000. 

Disponível na internet, sem necessidade de registro, permite consultar gratuitamente o acervo de grandes bibliotecas e instituições culturais de inúmeros países. Desenvolvendo o multilinguismo, permite igualmente apreciar e conhecer melhor as diferentes culturas do mundo, nos sete principais idiomas da Unesco: árabe, chinês, inglês, francês, português, russo e espanhol.

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Progresso e Apocalipse

A narrativa do progresso tem sido central na nossa cultura nos últimos 300 anos. Induz-nos a acreditar que o tempo é uma seta que avança para a frente, fazendo-se acompanhar de cada vez mais e melhor em todas as áreas: maior progresso tecnológico, científico, económico, moral, etc. Tende a ser acompanhada por modelos económicos que insistem no crescimento independentemente da sustentabilidade e numa fé cega na tecnologia. 

Esta narrativa lida mal com a noção de limite. Por exemplo, que vivemos num planeta com recursos finitos e limitados, pelo que o crescimento não pode ser ilimitado. Talvez por isso, dentro dos temas ambientais, haja temas mais populares que outros. Por exemplo, o das alterações climáticas é mais popular que o tema do fim das reservas de petróleo. Este apresenta-se como narrativa de limite: energias fósseis que demoraram milhões de anos a constituir-se, poderão esgotar-se dentro de alguns anos. O outro, esconde ainda uma narrativa de poder: a humanidade tem tanto poder tecnológico que é capaz de alterar o equilíbrio da natureza! Mas o gênio humano também será capaz de encontrar soluções quando a situação o exigir.

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