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A vida em tempos de Corona II

”C’est ainsi qu’un sentiment de la séparation d’avec un être aimé devint soudain, dès les premières semaines, celui de tout un peuple.”  Camus, “A Peste”.

Como pode um pequeno bicho abalar um mundo inteiro?

A vida ficou suspensa. Veio a crise, o medo e as medidas de contenção, e tivemos que reinventar a vida em poucos dias…

Mas a onda de estranheza ainda paira no ar… 

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Entre a química e a biologia!

Entre o real concreto e o real ficcional!

Fiquei a saber que os filmes com zombies foram inspirados pelo conhecimento que temos dos vírus. São seres que se encontram no limite da vida e que só no contacto com um ser vivo, parasitando-o, usando-o, se tornam vivos, podendo a seguir ir-se embora. Que a sua própria sobrevivência depende da sobrevivência do ser que parasitam. Assim, este vírus ainda não aprendeu a viver e está a fazê-lo à custa desta pandemia.

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Mais voir un ami pleurer… !

Que tipo de sociedade é esta, em que se encontra a mais profunda solidão no seio de tantos milhões?

Karl Marx (1846)

A pandemia associada à COVID-19 tomou conta das nossas vidas e da nossa mente. Uma brutal irrupção bloqueou a fantasia e tornou-nos a todos prisioneiros do real, potenciais traumatizados de guerra, refugiados no conforto de uma casa própria. Na confluência do exterior e do interior, uma sensação de vulnerabilidade desconhecida, de incerteza e de falta de controle, fez colapsar áreas de confiança num ambiente habitualmente previsível. 

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O Fascínio de Leonardo

Neste tempo de incerteza e inquietação, em que a maioria de nós se encontra em casa de quarentena, será possível encontrar espaço para a arte? Sinto-o não só possível como necessário.

Uma obra, seja ela escultórica, literária, fotográfica, musical, cinematográfica, ou plástica, tem em si o potencial de desencadear em nós cadeias associativas, que abrem caminho para um pensamento menos saturado, aumentando a nossa tolerância ao desconhecido e assim a nossa capacidade de reverie (a capacidade de permanecer com uma atitude receptiva, de acolher, descodificar, significar e nomear as angústias, para depois as devolver devidamente desintoxicadas). 

E talvez por isso me surja a necessidade de convosco partilhar uma experiência de maravilhamento. 

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A arte faz-nos tão bem!

Au milieu de l’hiver, j’apprenais enfin qu’il y avait en moi un été invincible                         

Albert Camus

Arte a fim de não morrer de verdade, escreveu Nietzsche em Fragmentos póstumos.A arte rompe com a representação comum e utilitarista do mundo, dá-lhe e dá-nos descanso, autoriza a renúncia do provar, de tornar o mundo inteligível, previsível e útil. Podemos descansar do mundo e o mundo pode descansar de nós. Voltaremos a encontrar-nos em breve, nada mais certo, mas por agora repousamos da fadiga dessa negociação diária. O que seria a vida se não tivéssemos a coragem de tentar alguma coisa (Van Gogh)?

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A vida em tempos de Corona

Veio o Corona. 

No início eram os chineses, e as velhas questões racistas começaram a emergir: na rua eram olhados com desconfiança, aos poucos as pessoas deixaram de ir a restaurantes e a lojas dos chineses. 

Rapidamente, não foi só o Corona que se espalhou, foi também o medo, a sensação de perigo iminente. Foi um contágio viral, à medida deste mundo digital e globalizado.

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MãePaiFilho – A televisão culta e adulta

Num Portugal em que democracia e televisão a cores foram contemporâneas, a marca BBC sempre foi sinónimo de qualidade. Nesse tempo do correio escrito e do telefone fixo a dieta televisiva seguia uma prescrição semanal. O mundo mudou muito desde então; l’air du temps traz odores de imediatismo e de urgência, a relação com os écrans desconstruiu os conceitos de público e de privado e a influência entre informação e política tornou-se o assunto. Recentemente a RTP2 passou a série MotherFatherSun, título que aglomera sem espaço para respirar os elementos deste ancestral triângulo. 

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Identidades Psicanalíticas Invisíveis – Notas soltas

Nos passados 22-24 Novembro realizou-se em Lisboa o 25º encontro europeu IPSO, com candidatos de vários países e continentes (Europa, América do Norte, América do Sul, África), reunindo candidatos portugueses da SPP e NPP. Foi ocasião para reflectir sobre as identidades psicanalíticas invisíveis.

A riqueza e diversidade de comunicações torna impossível um resumo. Partilho apenas algumas notas soltas, de uma escuta necessariamente pessoal.

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1981 aqui ao lado

2019: A cena tem lugar num jardim, na sala de espera de um hospital, na sala de um infantário, na sala de uma habitação. Os intervenientes são adultos e crianças. As crianças têm a idade de bebé. O bebé faz um gesto na direção do adulto, há uma expectativa de que algo aconteça ali entre os dois. Uma agitação dos braços e das pernas, um balançar na cadeira. O adulto está concentrado no écran de um telemóvel, percebe-se que algo de muito forte o chama para ali e que tudo à sua volta se tornou um cenário. Incluindo o bebé. O bebé agita-se. O adulto olha agora a criança, procura um pequeno peluche que lhe coloca na mão e diz “pronto, pronto”, embala um pouco o ovo e regressa ao écran, percebe-se que algo de muito forte o chama para ali e que tudo à sua volta se tornou de novo um cenário. Incluindo o bebé. 

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