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Retrato de Família

As crianças desenham a sua família de mil maneiras. Para além de construírem diferentes cenários familiares, estes desenhos parecem ser verdadeiras encenações em que elas inventam várias famílias e experimentam outras tantas maneiras de nelas e com elas viverem. Colocam no desenho só quem querem que lá esteja e a fazerem o que elas querem que eles façam, realizando assim os seu desejo, ou então desenham quem receiam que lá possa estar, para os controlarem melhor. Posicionam-se a si próprias, em relação aos restantes, na posição em que se vêem na sua família, outras vezes naquela em que gostavam de estar, outras ainda naquela em que mais temem vir a ficar, fazendo neste caso desenhos que mais parecem rituais de exorcização dos seus medos. Quando um desses desenhos materializa de forma particularmente conseguida algum dos mitos mais inquietantes daquele que o desenhou, fica condenado a permanecer colado na parede por mais tempo do que seria de prever. Por vezes não é fácil perceber porquê. Nessa altura intervêm os pais.

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Luz e melancolia na pintura de Joaquín Sorolla

A recente visita à exposição Terra Adentro – A Espanha de Joaquín Sorolla, patente no Museu Nacional de Arte Antiga do Mestre da luz, desencadeou em mim sentimentos de comoção e curiosidade. Este acervo oferece uma perspectiva da sua evolução como pintor, reconhecido mundialmente pela sua técnica única de reprodução de paisagens e retratos. Continuar a ler Luz e melancolia na pintura de Joaquín Sorolla

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A outra  margem 

No quarto entrou a lua tão cheia e tão bela. É o entardecer de Dezembro e agarro a tua mão ainda quente, não sei se para te sentir ou porque esperas a passagem para a outra margem. Na sala não estamos sós. De pé atenta e invisível está uma dama de foice paciente e escura. Balbucias algo parecendo estar num tempo e espaço do pó das estrelas a que chamamos inconsciente.  Ainda não partiste? Porque esperas? A minha mãe antes de morrer sonhou que os avôs a vinham buscar calmos e sorridentes. Não sei para quem falas mas vejo-te menina na praia, sabes, naquela da Penha d’Águia onde parecias da cor das sereias. Paro mais um pouco e estamos no engenho do açúcar, o cheiro a peixe fresco saindo pelas escadas enquanto ouvíamos o coaxar das rãs e as pedras batidas no mar. Olho para a tua face sumida e espreito memórias da bebé de sua mãe. Não sei por quem chamas mas agarro a tua mão até entrares no bosque da nossa infância. Um dia voltaremos a brincar. 

Imagem: As etapas da vida (1834), Caspar David Friedrich

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Sodade

O método psicanalítico tem na associação livre um dos instrumentos para aceder ao inconsciente. Mas, se pensarmos bem, a associação livre é a chave do pensamento criativo, do pensamento que ousa explorar os continentes ignotos da mente. Quando isso acontece, encontramos nexos imprevisíveis na própria realidade, como se tudo tivesse a ver com tudo (o princípio da analogia soberano).  Continuar a ler Sodade

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Um regresso a casa – com Christopher Bollas em Paris

Ah
não me venham dizer
oh
não quero saber
ah
quem me dera esquecer


Só e incerto é que o poema é aberto
e a Palavra flui inesgotável!

Mário Cesariny

Longe de estar familiarizado com toda a metapsicologia de Christopher Bollas, ou sequer com a sua maior parte, tinha tido contacto apenas com alguns conceitos e implicações técnicas, que haviam despertado em mim a curiosidade suficiente para nunca mais o largar. Continuar a ler Um regresso a casa – com Christopher Bollas em Paris

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Casas e Pessoas

Há casas
cuja beleza começa no projecto (…) 

Há casas feitas à medida do homem (…)

Eugénio de Andrade 

A figura humana e a casa são dos primeiros temas que a criança representa nos seus desenhos. O tempo que lhes dedica e a concentração com que o faz revelam a importância que têm na sua vida. As primeiras representações gráficas da casa são por vezes curiosamente humanizadas, as “casas/pessoa”.  Continuar a ler Casas e Pessoas