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Selfie

Observo-a.
É uma rapariga bonita, os seus olhos sobressaem no rosto que parece esculpido a cinze, são grandes os olhos, com pestanas compridas, torneados por umas sobrancelhas que bem podiam ter sido desenhadas. Os cabelos compridos, ondulados, bem cuidados, são escuros num contraste que resulta muito agradável com a sua pele branca.

Numa postura que sinto algo ingénua e completamente despreocupada olha a sua própria imagem no ecrã do seu smartphone e vai fazendo com a câmara várias capturas.

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Ler Freud

Freud atingiu um tal estatuto que se arrisca a ser como um daqueles gigantes da literatura (Homero, Virgílio, Camões, Shakespeare,etc), considerados incontornáveis mas que poucos leem diretamente, exceto alguns estudiosos. 

A maioria foi conhecendo Freud indiretamente, pela mão de académicos, sistematizadores, comentadores, críticos, cada qual apresentando uma versão filtrada de acordo com as suas grelhas de análise.

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O quarto pilar da formação analítica

Ser analista em formação em tempos de pandemia é um desafio.

Iniciei o meu percurso analítico como candidata da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) ainda em modo presencial durante o meu primeiro ano. No decurso do meu percurso instalou-se a pandemia e a interrupção dos seminários presenciais e a interrupção das sessões em divã. Rapidamente e felizmente, a IPA (International Psychoanalytical Association) e a SPP se organizaram, permitindo a continuidade da formação analítica, das sessões clínicas e das supervisões. Nesta fase, mais do que em qualquer outra, pude vivenciar e “sentir na pele” a importância do que Stefano Bolognini denomina de quarto pilar da formação analítica.

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Complexo de Édipo

A nossa grande escritora Agustina Bessa-Luís descrevia com enorme perspicácia psicológica as suas personagens, e não sei se sabem que era uma senhora culta, com vasta leitura que não se limitava à Literatura, tinha a obra de Freud e leu muitos dos seus textos. Saía-se com comentários e afirmações irónicas e paradoxais que ainda hoje se comentam. Uma delas é esta: “O COMPLEXO DE ÉDIPO é uma espécie de Romance Policial, que torna a Psicanálise interessante “

Eu propus este tema para o Blogue da SPP, mas foi-me pedido um breve comentário para estimular o diálogo entre nós. Aí vai.

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Amor, Ódio & Redenção

Corpus Christi, A Redenção (Boze Cialo, Polónia – 2019), de Jan Komasa, narra a história de Daniel, um jovem que cumpre pena num centro de detenção para menores, aspirando a ingressar no seminário após resolvidas as suas contas com a justiça. O projecto de abraçar a vida eclesiástica vê-se, porém, liminarmente barrado, em virtude do cadastro do protagonista – a sentença fora decretada na sequência da participação num assassinato. 

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Como uma madeleine de Proust

Os dias de Setembro e de Outubro estão sempre impregnados de um sabor muito particular, como uma madeleine de Proust. Ecoam certamente num tempo de infância e adolescência e nos sentimentos que lhe estão associados, como reacções de aniversário de que nos fala Bruno Bettelheim, esses registos guardados na nossa memória afectiva inconsciente, que nos revisitam com dia e hora marcados.  

O tempo do regresso às aulas. Recomeçar, começar de novo.

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Teresa Ferreira – Com os Deuses dentro

Numa entrevista, Eduardo Galeano disse faltar ao mundo Vitamina E, de Entusiasmo, acrescentando que o seu significado etimológico é ter os deuses dentro (enthousiasmos<en+theos).

Passaram 20 anos da súbita e prematuríssima partida de Teresa Ferreira, aos 62 anos, no dia 18 de Agosto de 2001. Arrancada, no auge da sua plenitude profissional, a muitos que com ela conviveram, aprenderam, trabalharam, refletiram. Eclipsada da vida de muitos que com ela estabeleceram uma relação de verdadeira reciprocidade afetiva. A palavra Entusiasmo sintetiza, como nenhuma outra, a vitalidade e a paixão colocada em tudo o que fazia. No plano profissional, tanto como pedopsiquiatra quanto como psicanalista, Teresa tinha definitivamente os deuses dentro.

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Uma questão de confiança

People are lining in grocery stores
Silence is screaming the fear in their hearts
Don’t give up your faith, no, don’t let your light fade
Together we’ll get through the dark of these days

Andrà tutto bene
Vai ficar tudo bem

Estas palavras, cantadas por Cristóvan, em Março de 2020, tornam difícil imaginar que após toda esta longa vivência de medo, incerteza, isolamento social e restrição da liberdade, haveria pessoas a recusar usufruir da única solução que nos pode livrar do perigo da doença e da morte, e devolver a proximidade física e a liberdade nas nossas vidas – as vacinas!

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O Homem é aquilo que lê

O homem é aquilo que lê
Joseph Brosky

O “Cidades Invisíveis” de Italo Calvino, aguarda na mesa aqui ao lado para que eu possa continuar a viagem imaginada de Marco Polo, em fantásticos relatos, pelas maravilhosas cidades com nome de mulher. Para trás acabaram de ficar “Uma mulher desnecessária” de Rabih Alameddine, que me emprestou por uns dias a companhia de uma mulher, incógnita mas fascinante, no coração de Beirute, e “O Alegre canto da perdiz” de Paulina Chiziane, um mergulho na imensidão da Zambézia e na história do negro e do branco no continente africano. 

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OBLIQUIDADES XII

Queixosas e uterinas,  tão pouco actualizadas e tão  pouco instruídas que  apesar das revigorantes novidades largamente   difundidas continuam a vislumbrar algumas pequenas diferenças entre o feminino e o masculino, grande parte das mulheres  gosta de  fingir que suporta a pretensa ascendência dos homens e persiste a admitir-se  representada em tão desequilibrado cenário, entendendo por ascendência a vertente cultural da  tribo que as configura.
Sorrindo um pouco, dir-se-ia que esse fingimento pelos primatas engendrado e pelos tempos fora lamentavelmente prosseguido  se expandiu por todo o  planeta   num formato   paradoxal,   porque ao contrário do que parece lhes conferiu um ultra-sensível somatório de poderes e uma superlativa capacidade de lidar com a inteligência dos medos, acrescentando-lhes  magníficos patamares… 

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