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O inconsciente é o infantil

Na obra Notas sobre um caso de neurose obsessiva (1909), também conhecida como a análise do caso do Homem dos Ratos, Freud escreveu: O inconsciente é o infantil. Chamava assim a atenção para a importância do reconhecimento da existência de elementos inconscientes ligados às experiências e fantasias infantis presentes no mundo psíquico dos adultos. Na obra, Freud debruça-se particularmente sobre a rigidez dos mecanismos obsessivos instalados de modo a não permitir a conexão do seu paciente com as suas fantasias e desejos infantis, que permaneciam inacessíveis no seu inconsciente.

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Psicodrama Psicanalítico e Técnicas Psico-dramáticas: a psicanálise fora do divã?

Foi no dia 1 deste mês de Abril, há 100 anos atrás, que aconteceu a primeira sessão de Psicodrama de Jacob Levy Moreno, a 1 de Abril de 1921.

No jogo do carretel, Freud (1920) relata como uma criança de 18 meses que ele observou, na ausência da sua mãe, inventara um jogo para elaborar a angústia de a ter perdido. Freud sublinhava a importância da mudança da passividade para a actividade (o protagonismo?) que o jogo propicia.

No júbilo que a criança sentia e mostrava ao ver que afinal o carretel reaparecia de novo, que não estava definitivamente perdido, contactamos com aquelas experiências de reencontro com tudo e com todos que julgávamos dolorosamente perdidos e afinal…não o estão. Estavam apenas fora de vista …na “place where the lost things go”, esse lugar que Mary Poppins vem estabelecer na família das crianças que tinham perdido a mãe. (Shaiman, M., Wittman, S., 2018).

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Volto já, meu pai

Seres gregários, o desejo de nos ligarmos aos outros é o que nos mobiliza, desde o nascimento. A procura do Outro é um impulso profundamente ancorado na nossa organização psíquica, corporal e visceral e é a qualidade da resposta a esta necessidade primeira que nos garante um equilíbrio biológico e psíquico elementar e a possibilidade de prosseguirmos a vida. O nosso sopro vital. A proximidade e o laço social afectam profundamente a nossa saúde física e mental, desde sempre e para sempre, até ao fim. 

A necessidade do contacto humano não diz apenas respeito à infância. A sua carência precoce é a mais grave e a mais profunda, mas sempre que ocorre reactualiza o trauma ou introduz o mal-estar no tecido humano e rompe o equilíbrio somato-psíquico, rasgão que é preciso voltar a tecer, com todo o cuidado e vagar, trabalho que se fará de novo através da relação humana e do laço. Não há outro modo.

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Fogachos Pandémicos III: Entre a violência e o cuidado

Mutirão
Origem: tupi
Significado: Trabalho em comum.

Segundo o Wikipedia, mutirão caracteriza-se pela “Mobilização coletiva para lograr um fim, baseando-se na ajuda mútua prestada gratuitamente. É uma expressão usada originalmente para o trabalho no campo ou na construção civil de casas populares, em que todos são beneficiários e, concomitantemente, prestam auxílio, num sistema de rodízio e sem hierarquia. Atualmente, por extensão de sentido, “mutirão” pode designar qualquer iniciativa coletiva para a execução de um serviço não remunerado.”

Tomando a radicalidade que esse conceito-ato sugere, poderíamos assumi-lo, como uma boa forma de vida coletiva, impregnada daquilo que Vladimir Safatle nomeia de solidariedade genérica.

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SABER VEM DE SABOR

Chegou-me por mãos amigas, o link da Biblioteca Mundial da ONU – www.wdl.org. Lançada pela Unesco em Abril de 2009, esta dádiva para a humanidade, surpreende-nos logo na página inicial com os seguintes dados: 19.147 ítens sobre 193 países entre 8.000 a.C. e 2000. 

Disponível na internet, sem necessidade de registro, permite consultar gratuitamente o acervo de grandes bibliotecas e instituições culturais de inúmeros países. Desenvolvendo o multilinguismo, permite igualmente apreciar e conhecer melhor as diferentes culturas do mundo, nos sete principais idiomas da Unesco: árabe, chinês, inglês, francês, português, russo e espanhol.

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Progresso e Apocalipse

A narrativa do progresso tem sido central na nossa cultura nos últimos 300 anos. Induz-nos a acreditar que o tempo é uma seta que avança para a frente, fazendo-se acompanhar de cada vez mais e melhor em todas as áreas: maior progresso tecnológico, científico, económico, moral, etc. Tende a ser acompanhada por modelos económicos que insistem no crescimento independentemente da sustentabilidade e numa fé cega na tecnologia. 

Esta narrativa lida mal com a noção de limite. Por exemplo, que vivemos num planeta com recursos finitos e limitados, pelo que o crescimento não pode ser ilimitado. Talvez por isso, dentro dos temas ambientais, haja temas mais populares que outros. Por exemplo, o das alterações climáticas é mais popular que o tema do fim das reservas de petróleo. Este apresenta-se como narrativa de limite: energias fósseis que demoraram milhões de anos a constituir-se, poderão esgotar-se dentro de alguns anos. O outro, esconde ainda uma narrativa de poder: a humanidade tem tanto poder tecnológico que é capaz de alterar o equilíbrio da natureza! Mas o gênio humano também será capaz de encontrar soluções quando a situação o exigir.

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Fogachos Pandémico 2 – Desafios à Psicanálise e à sua criatividade

Quando há poucos dias vi na televisão um documentário sobre as aterradoras desumanidades cometidas pelo Estado Islâmico no Iraque, senti que a pandemia e os seus efeitos não se comparavam com aquele terror. A pandemia tem provocado um grande sofrimento, mas quando se assiste a crimes bárbaros feitos por homens sobre os seus semelhantes, o impacto é brutal. Há uma maldade sem qualquer tipo de piedade e um horror inimaginável nas vítimas. 

Mas talvez esta comparação seja uma defesa que procure suavizar os efeitos da pandemia, que também nos tem perseguido e criado cenários de grande temor. Pandemia que introduziu uma ameaça de morte e de ruína por todo o mundo, deixando-nos muitas vezes “sem palavras” para descrevermos o que sentimos.  Fazer uma psicanálise pode ajudar-nos a criar essas palavras, dando forma e nome a “estados de impensabilidade” (L. Nosek), ou à possibilidade de colocar em gesto a realidade interior. Uma psicanálise deve ser uma experiência emocional partilhada e transformadora. A. Ionescu (1998), diz-nos que somos seres capazes de criar um saber da própria existência, um saber de si existindo, que não tem nada a ver com um saber intelectual,” um saber que é ser.”  

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O meu nome é Corona

O flagelo não está à medida do homem, dizem então que o flagelo é irreal, é um pesadelo que vai passar. Mas ele demora em passar e, de pesadelo em pesadelo, são os homens que passam (…)”

Albert Camus (1947). A Peste

O meu nome é Corona e a minha chegada não é bem-vinda. Não estou aqui por vontade própria, não tenho vontade, quanto mais própria. Desconheço quem trespassou a minha morada, mas vou esclarecer alguns pontos contigo, humano. Fui convidado pela tua insensatez. Sei qual o teu maior desejo: fechar a porta que me permite entrar, sem ser convidado, e possuir-te literalmente por dentro. Sou simples e há quem diga que não sou um ser vivo, mas o que é um ser vivo? Tens respeitado a vida? Sou eu o único responsável pelo teu desespero?

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Um irrespirável Confina-Mesmo

Um ano depois estávamos cansados de olhar o mundo através de janelas e ecrãs…

Há umas semanas dei por mim a pensar como tem sido mais difícil este confinamento face ao primeiro, entre Março e Maio de 2020. “Viciada” num pensar psicanalítico, procurei encontrar imagens e palavras dentro de mim que pudessem construir um retrato do meu interior, sinalizando também aquilo que na realidade externa o tinha alterado. Na psicanálise, as imagens internas ajudam-nos não só a encontrar palavras e sentidos para descrever realidades psíquicas, mas também nos conduzem a uma melhor perceção da realidade externa, sejam acontecimentos da realidade, seja a relação com o outro exterior a nós. Noutras palavras, é a contratransferência que nos permite compreender as pinceladas da nossa realidade emocional, desenhadas em conjunto com o outro.

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Uma valsa a Dois Tempos: depois do Inverno virá sempre a Primavera

Jacques Brel cantava La Valse à Mille Temps (1959). Entoava amorosamente os vários compassos da vida.

Hoje parece que dançamos uma valsa a dois tempos: um compasso de tempo perdido e um outro onde a vida se mantém, desenvolve, irremediavelmente ininterrupta. 

A solidariedade, como o amor, como muitas outras vivências emocionais humanas, não é necessariamente espontânea. A grande percentagem é aprendida, criada, desenvolvida. Não no sentido hipócrita ou falso, mas porque se radica no conhecimento de nós próprios e dos outros ao longo das situações que a vida nos propõe. E na descoberta de que as experiências de uns pertencem em larga medida às dos outros porque partilhamos algo comum que é sermos humanos.

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