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A “Linha Vira(l) Solidariedade” (por alguém que não a integrou)

O AMOR REDIME O MUNDO diziam eles
Mas onde está o mundo senão aqui?
Mário Cesariny*

A estranheza e a violência com que fomos surpreendidos pelo acontecimento “Sars-Cov-2”, revestiu a nossa vida de um sentimento de irrealidade, pela aparente perda de referências, pela descontinuidade, onde nada do que era familiar, quer no tempo quer no espaço, parecia passível de ser reencontrado. Tal como num sonho. Este ambiente com contornos oníricos onde em parte sentimos que passámos a viver, teve entre outros aspetos o “mérito”, tal como os sonhos, de evidenciar aspetos que antes pareciam “ocultos”, desde logo, em relação ao nosso próprio lugar e experiência do nosso lugar individual e coletivo no mundo; à nossa relação com “o que é isto de viver”.

Muito se irá assim continuar a escrever e a representar de todas as formas, por natureza infinitas, que o trabalho do sonho permite, sobre o impacto e a natureza não só da pandemia, como dos fenómenos que a antecederam, acompanharam e dos que a seguirão. Um desses fenómenos a que assistimos foi a criação da “Linha Vira(l) Solidariedade”, pela Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP).

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Boas famílias

Se Freud fosse vivo e assinasse a TV por cabo, possivelmente tornar-se-ia espectador de Succession, série emitida pelo canal HBO, onde a trama Shakespeariana está bem viva e é servida magistralmente. Quando na sua obra A interpretação dos sonhos, Freud refere que “mais de uma causa de hostilidade se esconde na relação entre pais e filhos” estava a aludir ao sentimento latente de desejo de morte no seio familiar, onde: “a devoção filial tem o hábito de aceder a outros interesses”. Quem conhecer a história de Freud no seio da família psicanalítica saberá do que fala.

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Tolerar ESTA frustração – uma curta reflexão sobre as defesas radicais suscitadas pelo clima pandémico

A maturidade faz-se acompanhar de uma crescente capacidade para tolerar a frustração. 

Habitualmente, as birras, manifestações de cólera e ira diante de uma contrariedade decrescem à medida que nos desenvolvemos. Vamos aguentando a contrariedade, o desprazer – manifestações de frustração – à medida que nos tornamos mais e mais maduros. 

Com a idade, o nosso aparelho psíquico vai ganhando robustez, conseguindo integrar a contrariedade – “Apetecia-me muito comprar aquela caneta, agora, mas, se o fizer, fico sem dinheiro para viver o resto do mês e assumir as minhas responsabilidades, os meus compromissos…” O prazer, no adulto, pode ser adiado, à espera de uma ocasião mais adequada para ser experimentado.

Os tempos que vivemos – crise pandémica e medidas sanitárias de combate à mesma – constituem um momento singular para testar a nossa capacidade integrativa, i.e., a nossa capacidade para, aceitando os sucessivos constrangimentos, vivermos o melhor possível, cientes de nos encontrarmos temporariamente privados de muitos dos hábitos e gestos que compunham a nossa vida… e a nossa felicidade!

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Liberté, j’écris ton nom

Quando, alguma vez, a liberdade irrompe numa alma humana,

os deuses deixam de poder seja o que for contra esse homem.

Jean Paul Sartre

A liberdade individual, compromisso para a vida, manifesta-se em relações internas ao próprio sujeito, assim como em redes de relações que se atualizam no coletivo. Os contextos sociais, próximos e alargados, também os institucionais, asseguram à vida psíquica as condições de existência e propõem continentes e caminhos que nos podem subjetivar ou submeter, que nos ligam à vida ou à morte, à liberdade ou ao medo. Por entre a sobredeterminação inconsciente de um Eu que não é dono na sua própria casa e o projeto de que Onde estava o Id possa advir o Eu, a Psicanálise afirma o primado da Liberdade e procura libertar o homem do destino trágico da compulsão à repetição, a fim de que possa conhecer a sua verdade e as suas amarras interiores e almejar a um funcionamento psíquico pautado por uma mais livre circulação entre as pulsões e as exigências da realidade, criando um espaço de emancipação e de criatividade que lhe abra novas experiências de vida. 

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As máscaras invisíveis das redes sociais

Em Março começámos a usar máscaras que fazem parte desta nova vida trazida pelo vírus. Há quem afirme termos ficado privados das expressões faciais eloquentes de uma certa emocionalidade. Para as crianças pode ainda ser mais complicado, pois, dependendo da idade não têm ainda um mapa interno representativo das emoções.

Para os adultos o olhar é suficientemente dizente e mesmo tendo perdido alguns dos indicadores de expressão podemos ainda ter o tom de voz, postura corporal entre outros.

E as máscaras anteriores ao Covid? Noutro dia uma paciente dizia-me que depois do período de confinamento, começou a sair indo a alguns jantares com amigos. Pareceram-lhe pobres alguns destes encontros. As máscaras invisíveis são as que colocam as pessoas em modo defensivo, fechadas atrás de rostos impassíveis e escudando-se a uma partilha emocional. Dizia ela: “Fala-se de um tudo que é nada porque nos defendemos da intimidade”. Fiquei a pensar no que ela disse. Estamos assim ou fomos sempre assim? Pensei nas redes sociais como o Facebook, Instagram, YouTube e em como elas nos despem em tantos sentidos. Há qualquer coisa de errado quando escolhemos, preferencialmente, estes meios para comunicarmos. 

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Um olhar sobre a Psicose

Tendo nascido em Alvalade – um bairro de lisboa – cedo contatei com doentes do Hospital Júlio de Matos, senhores estranhos de aspeto descuidado vagueando pelas ruas. Alguns evocavam em mim temor e sobressalto. Mas este mistério humano da loucura fascinava-me. 

Anos mais tarde integrei uma equipa comunitária que, através de atividades culturais – Teatro, Música, Artes Plásticas, Literatura, Visitas Culturais – procurava apoiar pessoas com um diagnóstico de esquizofrenia, criando contextos que as estimulassem a sentirem-se vivas e a dar sentido às suas vidas. Desde cedo senti que era necessário estar disponível como homem para criar relações com os utentes. Interessar-me pelas suas histórias de vida, respeitar as suas dificuldades, escutar a forma como têm ultrapassado os obstáculos. O olhar que temos face a um sujeito psicótico é de grande importância. A minha experiência tem-me mostrado como é importante termos um olhar direto, não intrusivo, mas disponível e acolhedor. Sem receios. Um olhar que exprima algo benigno. Como dissesse, “Estou disponível e curioso para viajar consigo.”  

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Sem-abrigo: evitemos slogans!

O discurso acerca dos sem-abrigo tende a radicalizar-se à volta do eixo factores individuais vs estruturais. Ou, se quisermos, o que está dentro ou fora do indivíduo.

Por exemplo, podemos ouvir que a problemática sem-abrigo tem a ver com a doença mental e consumos. Mas também podemos ouvir que é sobretudo um problema de pobreza e de falta de casa. 

Esta discussão é importante e tem consequências. Um dos perigos é poder conduzir a uma atribuição errónea de responsabilidade. Por exemplo, tomar como patologia individual, algo que é da ordem da crise colectiva.  Ou vice-versa. 

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PORTO _ Cidade das Pontes

O Porto, ao norte
Onde fiquei
Onde tantas e tantas vezes

Regressei
Atravessando pontes
Bem altas sobre as escarpas
Sobre o Douro prateado

Cruzado
Por cinco pontes de um só arco
De lado a lado, desenhado,
Firme, elegante, bem lançado
Dois de ferro rendilhado
Dois de cimento armado.
E ao fundo, o poente iluminado,

A Foz discreta sobre o Oceano
A Barra de travessia incerta
Lá dentro, o Porto
Sóbrio e granítico, esconde
Íntimos jardins românticos

Com bancos de pedra e lagos
Floridos com belas magnólias
Japoneiras com camélias
Flores efémeras, com pétalas
Tapetam os seus relvados.
No Porto, sóbrio e granítico
Onde fiquei
Com as belas magnólias
Me encantei.
Na certeza de que as pontes
Não apenas de regresso
Me dariam também acesso

A todo o Mundo!

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O Inimigo

“Perante o flagelo… perante o escândalo da morte anunciada, iminente e cega, as comunidades têm uma tendência irreprimível para se unir no medo…”  Bernard-Henri Levy (2020)

Naquela manhã de final de Agosto, dirigi-me à parafarmácia habitual, na tentativa de, pela terceira vez, furar as orelhas das minhas filhas (nestas tenras idades, mal se tiram os brincos, logo as orelhas repõem o que falta!). Perante o comentário firme e inamovível da farmacêutica – “já não furamos as orelhas” -, resolvi ingenuamente (ou por teimosia, ou curiosidade) perguntar porquê, e logo ela, de olhar indignado e ar de “beata”, me responde: “Não podemos, por tudo o que está a acontecer no mundo…” 

Aquele comentário irritou-me, pelo tom moralista, raiado do politicamente correto, semelhante ao que se sente quando se come uma sardinha em frente a um Vegan…
Senti que a minha atitude mais despreocupada punha em causa uma certa “tranquilidade” que o “terrível que está a acontecer no mundo” parecia dar àquela pessoa… Um sentido? Uma compreensão de todos os males? Um inimigo designado?

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Ser Velho neste Novo Tempo

A pandemia deixou-nos menos capazes de exprimir emoções, mais fechados sobre nós próprios? O medo subiu de tom, ao vermos um vírus mudar drasticamente as nossas vidas.

Ao mesmo tempo, penso que a distância e o isolamento social nos confrontaram com a saudade e a necessidade dos outros. De os ver, tocar, abraçar de lhes dizer a importância que têm para nós e o que sentimos por eles.

Todas as idades enfrentaram desafios, mas foram os idosos quem mais foi violentado psiquicamente, ao sofreram com o isolamento e ao verem discutido o valor da sua vida. A ideia de haver vidas que valem mais do que outras é indescritível. As notícias trouxeram-nos esta questão, que angustiou todos, pelo medo do que pudesse acontecer com cada um de nós, os que somos velhos e com cada um de nós, sobre os nossos velhos. Todos temos pais, tios, avós, e somente a ideia de os perder deixa-nos inexoravelmente mais pobres.

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