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Carta a Coimbra de Matos

1 de Julho de 2021.
Morreu um dos pais da Psicanálise portuguesa, foram várias as gerações dos seus filhos. 

Querido Coimbra de Matos,

Ontem, antes de ter partido para outro lugar, pensei em si durante uma sessão de análise. A minha paciente, interna de psiquiatria, e que se tem vindo a desiludir com a abordagem psiquiátrica à doença mental, encontrou o seu livro “A Depressão”. Irá ela seguir os seus passos?

Também o guardo, na minha prateleira, com a primeira folha rabiscada por si: “Para a Rita, com um beijo. 31-05-01”.

Conheci-o com os meus 19 anos, quando fui parar ao seu consultório, aconselhada para fazer psicoterapia consigo. Lembro-me do gabinete a meia luz, da sua figura sentada à minha frente, tranquilamente recostada para trás, com toda a atenção do mundo para me ouvir. Vem-me à memória a macieza do tecido do sofá onde eu me sentava, seria de pele de pêssego verde escura, ou estarei a confundir com um sofá que existia em casa do meu avô?

Mais tarde, no ISPA (Instituto Superior de Psicologia Aplicada), talvez com pouco mais de 20 anos, e ainda a descobrir o que era a Psicanálise, reencontrámo-nos na “Psicopatologia do Adulto”. Falava-nos apaixonadamente no grande Auditório, por entre piadas picantes, mostrando que existia uma outra forma de pensar a psicopatologia, para lá dos sinais e sintomas, um olhar sobre o funcionamento mental, emocional, inconsciente… 

Ensinou-nos que uma coisa era a depressão e outra a depressividade, explicou-nos o que era o “mau objecto”, sadicamente a desvalorizar o sujeito, que era preciso “derrotar”. Mostrou-nos como era preciso separar luto e depressão, que uma coisa era a perda do objecto amado, e outra a perda do amor do objecto…

Os seus textos eram poesia em forma de prosa, eram textos de amor sobre o humano, mas sobretudo de esperança. A esperança, disse-nos, é justamente aquilo que falta ao depressivo, refém do “objecto depressígeno”. 

Ouvi-lo era, por isso mesmo, uma lição de esperança, um sair da Psicanálise Clássica que por vezes ficava detida nos traumas infantis, e partir para uma outra terra. Era deixar o passado para trás com a mira num futuro a construir, era esquecer a “depressão inevitável da adolescência” e ouvi-lo dizer que só se deprime aquele que não tem alternativa, e que o adolescente que se separa dos amores infantis para encontrar os amores adultos, parte de sorriso nos lábios…

Consigo, querido Coimbra de Matos, um dia achei que não queria ser psicanalista, e também consigo percebi mais tarde que queria ser psicanalista.

Ouvi-o muitas vezes, entre palestras em congressos, sessões de supervisão, de grupo e individuais, e maravilhei-me com o seu dom da palavra e a capacidade de transformar a Psicanálise em Poesia. 

E tal como os adolescentes de quem tanto falou, também cresci como psicanalista, também me separei de si, e também encontrei outros amores e outras ideias, e outros portos onde atraquei o meu barco.

Muitos têm sido (e continuam a ser) os mestres no meu crescimento como psicanalista, – os meus dois analistas, supervisores, e alguns colegas e os pacientes – que muito me têm ensinado. Mas o Coimbra de Matos foi o meu primeiro “pai”, e quando penso em si volto a ser uma criança pequena deslumbrada com um mundo novo à frente. Abriu-me a porta desta nova e maravilhosa linguagem que é a Psicanálise, que olha para além do manifesto, que fala o idioma do simbólico, e que se apoia na relação humana para curar o sofrimento psíquico…  Ajudou-me a dar os primeiros passos. Foi um mestre com quem me fascinei e também me zanguei e desiludi, tal como uma criança a crescer faz com os seus pais. 

E, enquanto escrevo estas palavras, também penso que deixou tantos outros “filhos” (e muito diferentes entre si) e como somos tantos “irmãos” que agora pensam em si. E também sei que, lá onde estiver, deve estar com aquele seu sorriso maroto que lhe tornava os olhos rasgados e os dentes aguçados, porque finalmente percebeu que será eterno dentro de todos nós. Oiço agora as suas palavras: “Mais importante do que a constância do objecto no interior do sujeito é a constância do sujeito no interior do objecto”.

Quando morreu o meu pai pensei: “Mas ele continua a andar por aí…”. O mesmo acho que posso dizer de si.

Beijinho

E obrigada.

Rita

imagem: retirada de https://saudemais.tv”