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Boas famílias

Se Freud fosse vivo e assinasse a TV por cabo, possivelmente tornar-se-ia espectador de Succession, série emitida pelo canal HBO, onde a trama Shakespeariana está bem viva e é servida magistralmente. Quando na sua obra A interpretação dos sonhos, Freud refere que “mais de uma causa de hostilidade se esconde na relação entre pais e filhos” estava a aludir ao sentimento latente de desejo de morte no seio familiar, onde: “a devoção filial tem o hábito de aceder a outros interesses”. Quem conhecer a história de Freud no seio da família psicanalítica saberá do que fala.

Sob o cenário da actualidade, na sociedade magnata norte-americana do século XXI, tanto personagens como narrativa parecem retirados da mitologia dos povos antigos. O protagonista, Logan Roy, personifica a imagem infinitamente repetida do homem que, pelo seu próprio pulso e por vias pouco qualificáveis, sobe na vida ascendendo a um lugar de poder despótico, construindo um império. Roy, que na língua Anglo-Normanda significa Rei, é-nos apresentado como maquiavélico e sem escrúpulos, tratando os que com ele convivem com desdém, inferiorizando e humilhando narcisicamente. Roy é o patriarca de uma família composta por 4 filhos. Nesta fratria não há lugar para benesses e todos competem entre si, numa interminável carnificina fraterna, sob o olhar sádico paterno. Não conseguimos evitar pensar em Kronos devorando os filhos receando ser destronado.

O filho mais velho, Connor, apagado e imbecil, não apresenta (até ver) qualquer ameaça, já que a sua maior ambição é alimentar o delírio omnipotente de se tornar presidente dos EUA. Segue-se Kendall, personagem decalcada da figura de Édipo, de Sófocles. Kendall vive os primeiros episódios numa tentativa férrea de destituir o pai – o Rei Logan/Laius – para se apoderar do seu lugar, por meios sórdidos de manipulação e traições: “Também tu, Brutus, meu filho?”. Porém, a dependência de substâncias, reveladora da sua fragilidade narcísica, torna-o refém da perversidade do pai. Depois temos Rómulo, nome de um dos gémeos fundadores de Roma e que, segundo a mitologia, mata o irmão para se apoderar do trono. Tentativas essas que vemos materializarem-se nos múltiplos ataques dirigidos aos irmãos. Rómulo manifesta ainda uma atitude infantil de gozo e desprezo pelo outro, permanecendo enclausurado numa sexualidade imatura. E por fim, a filha Siobhan, a malvadez coberta por uma película de enorme beleza, conhecida na família por Shiv, (será uma alusão a Shiva, que na mitologia Hindu simboliza destruição?). Shiv que, à imagem do seu pai, é gélida no que toca a qualquer capacidade de relação humana, celebra a sua relação matrimonial como um contrato comercial.

A prole vai mostrando como é nascer e desenvolver-se no seio de um sistema familiar disfuncional, errático e incapacitante de qualquer evolução saudável e edificante de uma vida autónoma e adulta. O que os irmãos têm em comum será a identificação à destrutividade paterna, que usam dirigindo-a uns aos outros, ou a si próprios através de mecanismos de auto-destruição, no fundo, destruindo qualquer possibilidade de se separarem do sistema familiar perverso. É uma história que, no caleidoscópio da repetição geracional, fala da fragilidade narcísica e de como esse enredo pode impossibilitar viver a verdadeira separação e consequente autonomia.

Succession é o retrato escatológico de uma família, mas também da sociedade e das instituições a que pertence, onde perversidade e destrutividade são apenas meios necessários para a sobrevivência nesses sistemas.

Freud, S., (1900/2001) – A interpretação dos Sonhos, Imago Editora, pp. 257

Imagem: Succession, HBO (2 temporadas 2018/2019)