Cristina Fabião
Sair do Inferno dantesco*
12 de Maio de 2020
Cultura

A metáfora da travessia é amiúde convocada perante a ameaça sentida em momentos traumáticos.

A representação do Inferno, na Divina Comédia (DC), é a “selva escura”, onde o autor diz ter deparado com “as três feras”. 

Porém a “fera” que mais impacto causa é a loba/Avareza. A sua figura provoca susto, pavor, barra o caminho à progressão, numa ascensão anteriormente iniciada:

“a esperança em progredir me era defesa”

- “assim, sem paz, a fera me encurrala”

- “a empurrar-me lá onde o sol se cala 

 - para baixo me desloco

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Ana Teresa Vale
“Vai ficar tudo bem” – entre a angústia e a esperança
7 de Maio de 2020
Atualidade

Há uns anos atrás, uma paciente minha, estando grávida, foi internada devido a uma situação que ameaçava a gravidez. Fomos falando ao telefone, até que um dia recebo uma mensagem anunciando-me o nascimento do bebé. Telefonei-lhe e fiquei a saber que tinha nascido prematuro e que ainda corria risco de vida. Escutar a sua angústia foi a minha função principal, mas a dada altura dei por mim a dizer-lhe “vai correr bem”.

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Maria Teresa Sá
Navegar é preciso, viver.
5 de Maio de 2020
Atualidade

- Tens uma casa?

- Queres dizer uma casa com quatro paredes e um espaço?

 - Não, uma casa na cabeça.

 Alexandro Baricco, Trois fois dès l'aube

Caminho por este canto do mundo de que nos fala Alexandro Baricco. 

Uma crise, momento de rutura brusca na homeostase psíquica e social, revela sempre uma história, as suas fraturas e os seus acidentes, construções realizadas e deficitárias. O desfecho dependerá quer de factores internos, recursos pessoais disponíveis, quer de factores externos, suportes emocionais e sociais de que o individuo possa dispôr. O que verificamos que agora faz falta e (nos) falha, possivelmente já fazia falta e já falhava. O que está bem construído, permanece e dá suporte. 

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Rita Marta
O real, o tempo e o espaço em tempos de Corona
1 de Maio de 2020
Atualidade

Trago na memória o momento em que, pela primeira vez, senti que tudo tinha parado: já não eram só as ruas desertas, as pessoas que não passavam… Algo estranho se sentia no ar. Também o rio e o céu tinham emudecido, não havia barcos no rio, nem ondulação nas suas águas, nem luzinhas dos aviões no céu… Um cenário sem atores onde um latido ocasional interrompendo o silêncio fazia imaginar que a cidade se tornara campo... 

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Liliana Correia de Castro
O Pássaro da Imaginação
29 de Abril de 2020
Atualidade

“Sou o pássaro que canta
dentro da tua cabeça
que canta na tua garganta
canta onde lhe apeteça

Sou o pássaro que voa
dentro do teu coração
e do de qualquer pessoa
mesmo as que julgas que não

Sou o pássaro da imaginação
que voa até na prisão
e canta por tudo e por nada
mesmo com a boca fechada”

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Deolinda Santos Costa
Freud na Netflix
27 de Abril de 2020
Cultura

Netflix estreou no dia 30 de Março uma série (8 episódios) que intitulou Freud. Com custo, consegui ver três episódios.

Escrever uma nota sobre uma série que não se viu pode parecer ousado e até desonesto e hesitei muito em partilhar o meu ponto de vista.

A série pretende descrever o ambiente finissecular de Viena e, para isso, amalgama uma série de dados, com um fundo histórico (mas, manipulados como, por exemplo, fazer conviver Shinetzler e Freud, que nunca se conheceram, embora se admirassem e partilhassem muitos pontos de vista sobre o homem) ficcionando-os para construir um thriller que possa prender os consumidores desse género de produtos. 

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João Galamba de Almeida
Luz desviada: A Bovarinha
24 de Abril de 2020
Cultura

Agustina Bessa Luís terá revisitado Madame Bovary (Flaubert), por sugestão de Manoel de Oliveira. A escritora acedeu ao pedido do cineasta, ressuscitando Emma e Charles, personagens essenciais da trama de Flaubert - figuras que, pela pena de Bessa Luís, se converteram em Ema e Carlos. Vale Abraão viu a luz em 1991, resultando deste cruzamento feliz. Escassos anos após a publicação da obra, Manoel de Oliveira adaptou-a ao cinema. Tal era o seu propósito quando desafiara a autora!

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Ana Marques Lito
Saberei (con)viver com aqueles que (des)amo? Que impactos estão a surgir nos casais e nas famílias?
22 de Abril de 2020
Atualidade
Saúde Mental

Viver e sonhar num mesmo espaço compartilhado física e emocionalmente de um dia para o outro, 24 horas seguidas sem interrupção, é o novo desafio inquietante das famílias que se confrontam numa coabitação forçada: onde o tempo é continuo; onde o tempo de lazer, de convívio e de trabalho se intercomunicam; onde se pode confundir o espaço individual com o coletivo; e onde o íntimo com o privado e ainda o público se combinam…se atropelam...

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Jaime Milheiro
MANIFESTO ANTI- VELHOS
20 de Abril de 2020
Atualidade

Lacrimejando tormentos num pesar meditabundo
Dia e noite o velho cisma cabisbaixo sem poder
Teorias e fantasmas que suportem lá no fundo
Quantas mágoas antecipa no que teme acontecer

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Maria Teresa Sá
Um escritor não morre nunca
17 de Abril de 2020
Atualidade
Cultura

O humano acariciou o lombo do gato /- Bem, gato, conseguimos - disse suspirando / - Sim, à beira do vazio compreendeu o mais importante - miou Zorbas / - Ah, sim? E o que é que ela compreendeu? - perguntou o humano/ - Que só voa quem se atreve a fazê-lo - miou Zorbas.

História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar, Luis Sepúlveda

O dia amanheceu cinzento e triste com a notícia da morte de Luis Sepúlveda. 

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