João Seabra Dinis
O NOME DA ROSA: Umberto Eco e a importância da escuta
13 de Maio de 2021
Cultura
Saúde Mental

Uma recente sessão sobre a contratransferência, fez-me pensar numa afirmação do famoso escritor italiano Umberto Eco. E resolvi partilhar as reflexões que então fiz. Trata-se de um Universitário muito prestigiado, com vasta obra científica publicada, traduzida em várias línguas. Já avançado na sua carreira, resolveu escrever um romance, a que deu o título “O Nome da Rosa”.

Na badana da capa da primeira edição em italiano, que na altura comprei, contava que muitos lhe perguntavam porquê um romance, depois de tantos trabalhos científicos publicados. E explicava que, se depois de tantos trabalhos científicos, o autor publicava agora um romance, era porque, “in età matura, ha scoperto che di ciò di cui non si può teorizzare, si deve narrare “. Cito na língua original porque me parece uma afirmação fundamental quanto a uma conceção do funcionamento psíquico. (traduzindo: em idade madura, descobriu que, aquilo que não se pode teorizar, se deve narrar.) E de facto, a partir daí e continuando a sua atividade universitária, escreveu muitos outros romances (salvo erro mais 7). Narrou. Para que alguém ouvisse (no caso, lesse). 

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Rita Gameiro
O inconsciente é o infantil
6 de Maio de 2021
Cultura
Saúde Mental

Na obra Notas sobre um caso de neurose obsessiva (1909), também conhecida como a análise do caso do Homem dos Ratos, Freud escreveu: O inconsciente é o infantil. Chamava assim a atenção para a importância do reconhecimento da existência de elementos inconscientes ligados às experiências e fantasias infantis presentes no mundo psíquico dos adultos. Na obra, Freud debruça-se particularmente sobre a rigidez dos mecanismos obsessivos instalados de modo a não permitir a conexão do seu paciente com as suas fantasias e desejos infantis, que permaneciam inacessíveis no seu inconsciente.

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Cristina Fabião
Psicodrama Psicanalítico e Técnicas Psico-dramáticas: a psicanálise fora do divã?
29 de Abril de 2021
Psicanálise além do divã

Foi no dia 1 deste mês de Abril, há 100 anos atrás, que aconteceu a primeira sessão de Psicodrama de Jacob Levy Moreno, a 1 de Abril de 1921.

No jogo do carretel, Freud (1920) relata como uma criança de 18 meses que ele observou, na ausência da sua mãe, inventara um jogo para elaborar a angústia de a ter perdido. Freud sublinhava a importância da mudança da passividade para a actividade (o protagonismo?) que o jogo propicia.

No júbilo que a criança sentia e mostrava ao ver que afinal o carretel reaparecia de novo, que não estava definitivamente perdido, contactamos com aquelas experiências de reencontro com tudo e com todos que julgávamos dolorosamente perdidos e afinal…não o estão. Estavam apenas fora de vista …na “place where the lost things go”, esse lugar que Mary Poppins vem estabelecer na família das crianças que tinham perdido a mãe. (Shaiman, M., Wittman, S., 2018).

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Maria Teresa Sá
Volto já, meu pai
22 de Abril de 2021
Atualidade
Saude Mental

Seres gregários, o desejo de nos ligarmos aos outros é o que nos mobiliza, desde o nascimento. A procura do Outro é um impulso profundamente ancorado na nossa organização psíquica, corporal e visceral e é a qualidade da resposta a esta necessidade primeira que nos garante um equilíbrio biológico e psíquico elementar e a possibilidade de prosseguirmos a vida. O nosso sopro vital. A proximidade e o laço social afectam profundamente a nossa saúde física e mental, desde sempre e para sempre, até ao fim. 

A necessidade do contacto humano não diz apenas respeito à infância. A sua carência precoce é a mais grave e a mais profunda, mas sempre que ocorre reactualiza o trauma ou introduz o mal-estar no tecido humano e rompe o equilíbrio somato-psíquico, rasgão que é preciso voltar a tecer, com todo o cuidado e vagar, trabalho que se fará de novo através da relação humana e do laço. Não há outro modo.

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Maria Bibas
Fogachos Pandémicos III: Entre a violência e o cuidado
15 de Abril de 2021
Atualidade

Mutirão
Origem: tupi
Significado: Trabalho em comum.

Segundo o Wikipedia, mutirão caracteriza-se pela “Mobilização coletiva para lograr um fim, baseando-se na ajuda mútua prestada gratuitamente. É uma expressão usada originalmente para o trabalho no campo ou na construção civil de casas populares, em que todos são beneficiários e, concomitantemente, prestam auxílio, num sistema de rodízio e sem hierarquia. Atualmente, por extensão de sentido, "mutirão” pode designar qualquer iniciativa coletiva para a execução de um serviço não remunerado.”

Tomando a radicalidade que esse conceito-ato sugere, poderíamos assumi-lo, como uma boa forma de vida coletiva, impregnada daquilo que Vladimir Safatle nomeia de solidariedade genérica.

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Ana Belchior Melícias
SABER VEM DE SABOR
8 de Abril de 2021
Cultura

Chegou-me por mãos amigas, o link da Biblioteca Mundial da ONU - www.wdl.org. Lançada pela Unesco em Abril de 2009, esta dádiva para a humanidade, surpreende-nos logo na página inicial com os seguintes dados: 19.147 ítens sobre 193 países entre 8.000 a.C. e 2000. 

Disponível na internet, sem necessidade de registro, permite consultar gratuitamente o acervo de grandes bibliotecas e instituições culturais de inúmeros países. Desenvolvendo o multilinguismo, permite igualmente apreciar e conhecer melhor as diferentes culturas do mundo, nos sete principais idiomas da Unesco: árabe, chinês, inglês, francês, português, russo e espanhol.

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Elias Barreto
Progresso e Apocalipse
1 de Abril de 2021
Atualidade

A narrativa do progresso tem sido central na nossa cultura nos últimos 300 anos. Induz-nos a acreditar que o tempo é uma seta que avança para a frente, fazendo-se acompanhar de cada vez mais e melhor em todas as áreas: maior progresso tecnológico, científico, económico, moral, etc. Tende a ser acompanhada por modelos económicos que insistem no crescimento independentemente da sustentabilidade e numa fé cega na tecnologia. 

Esta narrativa lida mal com a noção de limite. Por exemplo, que vivemos num planeta com recursos finitos e limitados, pelo que o crescimento não pode ser ilimitado. Talvez por isso, dentro dos temas ambientais, haja temas mais populares que outros. Por exemplo, o das alterações climáticas é mais popular que o tema do fim das reservas de petróleo. Este apresenta-se como narrativa de limite: energias fósseis que demoraram milhões de anos a constituir-se, poderão esgotar-se dentro de alguns anos. O outro, esconde ainda uma narrativa de poder: a humanidade tem tanto poder tecnológico que é capaz de alterar o equilíbrio da natureza! Mas o gênio humano também será capaz de encontrar soluções quando a situação o exigir.

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Tomás Miguez
Fogachos Pandémico 2 – Desafios à Psicanálise e à sua criatividade
25 de Março de 2021
Atualidade
Saúde Mental

Quando há poucos dias vi na televisão um documentário sobre as aterradoras desumanidades cometidas pelo Estado Islâmico no Iraque, senti que a pandemia e os seus efeitos não se comparavam com aquele terror. A pandemia tem provocado um grande sofrimento, mas quando se assiste a crimes bárbaros feitos por homens sobre os seus semelhantes, o impacto é brutal. Há uma maldade sem qualquer tipo de piedade e um horror inimaginável nas vítimas. 

Mas talvez esta comparação seja uma defesa que procure suavizar os efeitos da pandemia, que também nos tem perseguido e criado cenários de grande temor. Pandemia que introduziu uma ameaça de morte e de ruína por todo o mundo, deixando-nos muitas vezes “sem palavras” para descrevermos o que sentimos.  Fazer uma psicanálise pode ajudar-nos a criar essas palavras, dando forma e nome a “estados de impensabilidade” (L. Nosek), ou à possibilidade de colocar em gesto a realidade interior. Uma psicanálise deve ser uma experiência emocional partilhada e transformadora. A. Ionescu (1998), diz-nos que somos seres capazes de criar um saber da própria existência, um saber de si existindo, que não tem nada a ver com um saber intelectual,” um saber que é ser.”  

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Corina Fernandes
O meu nome é Corona
18 de Março de 2021
Atualidade

O flagelo não está à medida do homem, dizem então que o flagelo é irreal, é um pesadelo que vai passar. Mas ele demora em passar e, de pesadelo em pesadelo, são os homens que passam (…)”

Albert Camus (1947). A Peste

O meu nome é Corona e a minha chegada não é bem-vinda. Não estou aqui por vontade própria, não tenho vontade, quanto mais própria. Desconheço quem trespassou a minha morada, mas vou esclarecer alguns pontos contigo, humano. Fui convidado pela tua insensatez. Sei qual o teu maior desejo: fechar a porta que me permite entrar, sem ser convidado, e possuir-te literalmente por dentro. Sou simples e há quem diga que não sou um ser vivo, mas o que é um ser vivo? Tens respeitado a vida? Sou eu o único responsável pelo teu desespero?

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Rita Marta
Um irrespirável Confina-Mesmo
11 de Março de 2021
Atualidade

Um ano depois estávamos cansados de olhar o mundo através de janelas e ecrãs...

Há umas semanas dei por mim a pensar como tem sido mais difícil este confinamento face ao primeiro, entre Março e Maio de 2020. “Viciada” num pensar psicanalítico, procurei encontrar imagens e palavras dentro de mim que pudessem construir um retrato do meu interior, sinalizando também aquilo que na realidade externa o tinha alterado. Na psicanálise, as imagens internas ajudam-nos não só a encontrar palavras e sentidos para descrever realidades psíquicas, mas também nos conduzem a uma melhor perceção da realidade externa, sejam acontecimentos da realidade, seja a relação com o outro exterior a nós. Noutras palavras, é a contratransferência que nos permite compreender as pinceladas da nossa realidade emocional, desenhadas em conjunto com o outro.

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