Pedro Job
Fogachos Pandémicos: I - O tempo suspenso
25 de Fevereiro de 2021
Atualidade

A experiência da passagem do tempo não é igual para toda a gente, que é o mesmo que dizer que não é linear. No entanto, a impossibilidade de encerrarmos o confinamento tem produzido um efeito genericamente desorganizador. Levamos um ano disto e não há, de forma clara, um fim à vista. O futuro parou e agora é como se nem pudesse ser imaginado, como se tivesse ficado suspenso. Uma suspensão que parece relacionar-se também com a expectativa de que a cura ou a doença – e com ela a possível morte – chegue finalmente. Aguardar o embate certo é, frequentemente, pior do que o próprio embate. 

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Jorge Câmara
A Humanização da Imunização
18 de Fevereiro de 2021
Atualidade

Segundo o Psicanalista Contardo Calligaris a patologia, neste começo da pandemia, não está no suposto pânico, mas na negação do que está acontecendo.

Ao ler esta frase recordei-me da talvez mais poderosa imagem do desespero do início do seculo XXI fotografada por Richard Drew.

Olhem para esta foto do dia 11 de setembro de 2001, World Trade Center, 09h 41 ́15 ́ ́. Segundo o teólogo Mark D. Thompson talvez esta seja a mais poderosa imagem do desespero. Ficou conhecida como “The falling man “. Este homem escolheu saltar? Há uma aparente serenidade e uma suspensão no tempo e espaço como se todos nós naquele momento traumático fossemos convidados a observar o nosso corpo em queda para, paradoxalmente, garantirmos a nossa sobrevivência psíquica, como se fossemos meros observadores dum processo em que ficamos dissociados das nossas emoções. Imobilizada num lugar do irrepresentável, esta imagem deixou de ser apresentada durante uma década, pois o horror traumático do mergulho para a morte “escolhido” por outros 200 seres, envolve um pudor pessoal e íntimo, doloroso demais para ser evocado.

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Rita Marta
A libertação (psíquica) de Auschwitz
11 de Fevereiro de 2021
Atualidade
Cultura
Saude Mental

Imersos nesta pandemia cujo “trauma” sanitário estamos certos de que com a ajuda das vacinas vai acabar por passar, mas cujos “traumas” económicos e psíquicos não sabemos que sequelas vão deixar, vale a pena assinalar que no passado dia 27 de Janeiro fez 76 anos da libertação de Auschwitz.

Mas é no consultório que por vezes sou levada a mergulhar no livro “A Bailarina de Auschwitz”, que conta a história (verídica) da destruição e renascimento mental de uma mulher judia (Edith Eger), vítima de Auschwitz, para onde foi levada aos 16 anos, juntamente com os pais e uma irmã. 

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Jaime Milheiro
A ESTUPIDEZ DE EXISTIR
4 de Fevereiro de 2021
Atualidade

(Uma vacina contra a estupidez
seria um estrondoso fracasso comercial
Todos a recomendariam
ninguém se sentiria receptor adequado...)

No peculiar trajecto da cultura em que mergulhamos geraram-se inúmeras confusões. Na pressa e no protagonismo dos ultimatos tecnológicos, o cidadão comum já dificilmente  distingue o real do virtual, o interno do externo, as regras da liberdade democrática das regras da liberdade psicológica, os comportamentos experienciados dos sentimentos desbaratados, as intelectualidades racionalizantes das vozearias triunfantes. 

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Joana Cardo da Costa
Ethos
28 de Janeiro de 2021
Cultura

Nesta época estranha que vivemos de confinamentos e recolheres obrigatórios, em que ficamos em casa resguardados do vírus, da chuva e do frio mas não de pensar e sentir, surgiu-me através de uma amiga uma série da Netflix, que vi recentemente, e que me parece uma boa sugestão para este novo confinamento.  

Chama se Ethos, palavra de origem grega que significa conjunto de costumes, práticas e crenças  característicos de um povo, como que uma espécie de identidade social.  De origem turca, de Berkun Oya e Ali Farkhonde, tem como personagem principal Meryem, uma empregada doméstica que inicia um processo terapêutico por desmaios sem razão aparente. A série vai-se  adensando trazendo para a história a sua terapeuta (Piri), a terapeuta da sua terapeuta (Gulbin), a sua família (irmão e cunhada Ruhiye), o hodja e sua filha Hayrunnisa.

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Rita Gameiro
Uma breve nota sobre Resiliência
21 de Janeiro de 2021
Atualidade
Saúde Mental

O conceito de resiliência, proveniente da física, tem vindo a ser explorado nas últimas décadas no campo da psiquiatria do desenvolvimento infantil, encontrando-se intimamente ligado ao conceito de vulnerabilidade. Na área da investigação, estudos têm surgido ligados à exposição a situações extremas observadas em crianças deslocadas, refugiadas, órfãs, separadas dos seus pais pela morte ou pela desorganização social. O conceito indica que mesmo o mais sensível dos organismos, quando submetido a severos ambientes de violência e destruição, pode encontrar mecanismos intrínsecos que o ajudem a tolerar e também a adaptar-se, resistindo e sobrevivendo. Sabemos, no entanto, que tais experiências deixarão marcas psíquicas indeléveis. 

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Rui Aragão Oliveira
A Verdade morreu...no Capitólio
15 de Janeiro de 2021
Atualidade

Sou um mentiroso! Cedo aprendi a mentir, antes mesmo de o perceber.

Somos todos mentirosos, isso é uma certeza.

Uns fazem mentiras simpáticas, inocentes, outras mais maldosas, interesseiras e canalhas; outras ainda expectáveis, alguns vão longe demais nas suas mentiras e muitas mentiras nunca são reveladas!

D. Quixote mentia a si mesmo convictamente e Sancho Pança mentia acreditar no seu amo. Cervantes foi (e é) adorado por escrever um romance que nada tinha de verdade, facto inédito até então. 

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João Galamba de Almeida
TRUMP POWER
13 de Janeiro de 2021
Atualidade

Numa luminosa crónica, escrita no Público, perto do termo do ano maldito, José Pacheco Pereira sublinhava o óbvio (?!): a Democracia institui o poder da Razão e dos Valores, contra o poder da natureza. A Democracia é uma notável construção contra-natura, rematava o historiador. 

Como bem sabemos, idealmente - e aos olhos da Lei -, todos as pessoas são iguais, em direitos e deveres. 

Esta premissa legitima a possibilidade de sujeitos não-brancos, sem tecido eréctil ou menos dotados de massa muscular acederem ao poder. O jogo democrático - essa criação apoiada na ética, direito e racionalidade - consubstancia esta possibilidade, consequentemente.

A 6 de Janeiro de 2021, nos Estados Unidos da América - esse bastião (?) da Democracia -, assistimos ao impensável: quando o Senado e a Câmara dos Representantes, em sessão conjunta, homologavam a eleição de Biden para a Presidência Norte-Americana, o Capitólio foi invadido por um bando de desordeiros, aparentemente instigados e manipulados pelo presidente Trump, ainda em exercício…

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Rita Marta
Pandemia e Saúde Mental
7 de Janeiro de 2021
Atualidade
Saude Mental

Há umas semanas atrás estive presente numa tertúlia sobre a saúde mental na pandemia, organizada pelos chamados “negacionistas”: os que negam a perigosidade do vírus e não aceitam as medidas impostas (máscara, higienização, confinamentos, estado de emergência, etc...), chegando mesmo a formular teorias da conspiração – “A fundação Bill Gates tem ligações com a OMS e com as grandes farmacêuticas que estão a fazer as vacinas; foi feita uma simulação de uma pandemia em Outubro de 2019 com um vírus imaginado que curiosamente era muito parecido com este... Sabe-se lá como terá surgido o vírus... talvez tenha sido fabricado como forma de enriquecimento de alguns...”

Se os entrevistados nesta tertúlia mostravam um pensamento isento e livre, condição necessária a poder pensar de forma rigorosa e verdadeira, já o entrevistador, mais do que procurar compreender de forma sincera e científica as repercussões da pandemia na saúde mental, tentava “puxar a brasa à sua sardinha” referindo uma “histeria coletiva da humanidade”, que se compreendia num “mundo fundamentalmente neurótico”, o que explicava a aceitação dos rituais de higienização pelos obsessivos, e do confinamento pelos fóbicos! 

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Ana Belchior Melícias, Elsa Couchinho
INFÂNCIA & CINEMA
31 de Dezembro de 2020
Cultura

Em 1895 Auguste e Louis Lumière fazem a primeira sessão pública do cinematógrafo e Freud lança o "Projeto para uma Psicologia Científica" contendo já ali, seminalmente, as suas descobertas. Contemporâneos enquanto descoberta e irmanados pela abordagem, Cinema e Psicanálise influenciaram-se mantendo uma comunicação estreita - expressa ou velada. O diálogo potencial e complementar, oscilando entre afinidades e divergências, alarga a reflexão sobre as vicissitudes e a diversidade da condição humana.

Na história do cinema a psicanálise aparece muitas vezes confundida com a psiquiatria. Também os psicanalistas (Freud: the secret passion, Huston, 1962) e a sua atividade, confundida com a sua vida pessoal, tem sido alvo de humor senão de descrédito. Em 1926, Wilhelm Pabst projeta o primeiro filme sobre a psicanálise - Os Mistérios da Alma - com assessoria de Sachs no qual Freud se recusa a colaborar respondendo a Abraham (09.06.1925): "Não acredito que uma representação plástica satisfatória de nossas abstrações seja de todo possível." Mantendo distância e desconfiança em relação ao cinema, a par com uma aversão a biógrafos e a habitual reserva da sua vida privada, aceita uma única vez ser filmado por um paciente americano, Philip R. Lehman, para um documentário (Sigmund Freud: his family and colleagues 1928-1947) lançado em 1985.

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