Maria Teresa Sá
NATAL
17 de Dezembro de 2020
Atualidade
Cultura

Não na distância. Aqui. No meio de nós. Brilha

Na Primeira Grande Guerra, dita das trincheiras, as linhas ficavam muito próximas, de modo que cada soldado podia ver e ouvir os seus inimigos e alvejá-los caso se mostrassem. 

No dia 24 de Dezembro do ano de 1914, nas imediações da cidade de Ypres, na Flandres, alguns soldados aparentavam um humor descontraído e festivo, pareciam não se importar nem com a guerra, nem com o inverno. Alguns houve que, desarmados, começaram a  percorrer o espaço entre uma trincheira e outra, zona conhecida como terra de ninguém. Caminhavam até à trincheira inimiga e desejavam um Feliz Natal, oferecendo bebidas, partilhando comida, cigarros ou charutos, dando apertos de mão, oferecendo presentes. Trocaram botões de uniformes como lembranças e defrontaram-se em partidas de futebol. Há também relatos de soldados que tentaram montar árvores de natal dentro das trincheiras. Contam os historiadores que o clima de descontração e de festa borbulhava e que gerava um contágio mútuo entre as frentes inimigas, apesar dos editais contra a confraternização. Alguns soldados dedicaram cânticos de Natal aos adversários e muitos concordaram em estender a paz até ao dia de Natal para se poderem encontrar de novo e enterrar os mortos. Cada lado ajudou o outro a cavar sepulturas e a realizar as últimas homenagens fúnebres. As altas patentes ameaçaram os que fugiam ao cumprimento do dever. Mas nenhum edital e nenhuma ameaça resultou. Os oficiais envolvidos na trégua foram depois duramente punidos pelos seus superiores. Muitos recordaram a trégua nas cartas enviadas para casa e em notas dos seus diários: “Maravilhosamente espantoso, ainda que muito estranho”, escreveu um soldado alemão.

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Ana Belchior Melícias
Morreste-nos ou viveste-nos?!
10 de Dezembro de 2020
Atualidade
Cultura

Quino, faz muito tempo que este teu cartoon me acompanha, e sintetiza muito do que é para mim a psicanálise. Utilizo-o habitualmente na sala de análise, quando o desejo de sermos outros, de nos livrarmos de nós, de ir para a Conchichina, de mudar tudo, de começar do zero, se instala. Este hibridismo genialmente paradoxal a que nos habituaste, de sabedoria e decepção, de humor e surpresa, de poesia e crítica, faz-nos rir quando a dor se torna por vezes sufocante. E tu bem sabes que o riso é muitas vezes a nossa terapia, a nossa possibilidade transformativa. 

Por tudo isso e antes que termine o ano de "mudança catastrófica" global, que te viu partir, preciso revelar-te a minha gratidão e a boa companhia que significou o teu humor e o universo da Mafalda, seus pais e irmão mais novo Guille, e os amiguinhos Felipe, Manolito, Susanita e Miguelito. 

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Inês Ataíde Gomes, Tomás Miguez
Aos olhos de um vírus
3 de Dezembro de 2020
Atualidade
Cultura

Hoje, dia 3 de Dezembro de 2020 é lançada a edição do livro "Bode Inspiratório/Escape Goat", saído à rua pelas mãos da Relógio d'Água em meados deste ano. Um projecto literário e artístico que juntou 46 escritores e 46 artistas plásticos portugueses, para além de 50 tradutores, durante os primeiros meses desta pandemia.

Entre muitos outros estão Mário de Carvalho, Inês Pedrosa, Afonso Cruz, Afonso Reis Cabral, Gabriela Ruivo Trindade, Rui Zink, José Fanha, Domingos Lobo, Licínia Quitério, Gonçalo M. Tavares, Álvaro Laborinho Lúcio, Rita Ferro, António Olaio, Ana Vidigal, Pedro Cabrita Reis, Manuel João Vieira, Pedro Proença e Teresa Pavão.

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Tiago Chagas
A "Linha Vira(l) Solidariedade" (por alguém que não a integrou)
26 de Novembro de 2020
Atualidade
Saude Mental

O AMOR REDIME O MUNDO diziam eles
Mas onde está o mundo senão aqui?
Mário Cesariny*

A estranheza e a violência com que fomos surpreendidos pelo acontecimento "Sars-Cov-2", revestiu a nossa vida de um sentimento de irrealidade, pela aparente perda de referências, pela descontinuidade, onde nada do que era familiar, quer no tempo quer no espaço, parecia passível de ser reencontrado. Tal como num sonho. Este ambiente com contornos oníricos onde em parte sentimos que passámos a viver, teve entre outros aspetos o "mérito", tal como os sonhos, de evidenciar aspetos que antes pareciam "ocultos", desde logo, em relação ao nosso próprio lugar e experiência do nosso lugar individual e coletivo no mundo; à nossa relação com "o que é isto de viver".

Muito se irá assim continuar a escrever e a representar de todas as formas, por natureza infinitas, que o trabalho do sonho permite, sobre o impacto e a natureza não só da pandemia, como dos fenómenos que a antecederam, acompanharam e dos que a seguirão. Um desses fenómenos a que assistimos foi a criação da "Linha Vira(l) Solidariedade", pela Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP).

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Rita Gameiro
Boas famílias
19 de Novembro de 2020
Cultura

Se Freud fosse vivo e assinasse a TV por cabo, possivelmente tornar-se-ia espectador de Succession, série emitida pelo canal HBO, onde a trama Shakespeariana está bem viva e é servida magistralmente. Quando na sua obra A interpretação dos sonhos, Freud refere que “mais de uma causa de hostilidade se esconde na relação entre pais e filhos” estava a aludir ao sentimento latente de desejo de morte no seio familiar, onde: “a devoção filial tem o hábito de aceder a outros interesses”. Quem conhecer a história de Freud no seio da família psicanalítica saberá do que fala.

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João Galamba de Almeida
Tolerar ESTA frustração - uma curta reflexão sobre as defesas radicais suscitadas pelo clima pandémico
12 de Novembro de 2020
Atualidade

A maturidade faz-se acompanhar de uma crescente capacidade para tolerar a frustração. 

Habitualmente, as birras, manifestações de cólera e ira diante de uma contrariedade decrescem à medida que nos desenvolvemos. Vamos aguentando a contrariedade, o desprazer - manifestações de frustração - à medida que nos tornamos mais e mais maduros. 

Com a idade, o nosso aparelho psíquico vai ganhando robustez, conseguindo integrar a contrariedade - “Apetecia-me muito comprar aquela caneta, agora, mas, se o fizer, fico sem dinheiro para viver o resto do mês e assumir as minhas responsabilidades, os meus compromissos…” O prazer, no adulto, pode ser adiado, à espera de uma ocasião mais adequada para ser experimentado.

Os tempos que vivemos - crise pandémica e medidas sanitárias de combate à mesma - constituem um momento singular para testar a nossa capacidade integrativa, i.e., a nossa capacidade para, aceitando os sucessivos constrangimentos, vivermos o melhor possível, cientes de nos encontrarmos temporariamente privados de muitos dos hábitos e gestos que compunham a nossa vida… e a nossa felicidade!

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Maria Teresa Sá
Liberté, j'écris ton nom
5 de Novembro de 2020
Atualidade

Quando, alguma vez, a liberdade irrompe numa alma humana,

os deuses deixam de poder seja o que for contra esse homem.

Jean Paul Sartre

A liberdade individual, compromisso para a vida, manifesta-se em relações internas ao próprio sujeito, assim como em redes de relações que se atualizam no coletivo. Os contextos sociais, próximos e alargados, também os institucionais, asseguram à vida psíquica as condições de existência e propõem continentes e caminhos que nos podem subjetivar ou submeter, que nos ligam à vida ou à morte, à liberdade ou ao medo. Por entre a sobredeterminação inconsciente de um Eu que não é dono na sua própria casa e o projeto de que Onde estava o Id possa advir o Eu, a Psicanálise afirma o primado da Liberdade e procura libertar o homem do destino trágico da compulsão à repetição, a fim de que possa conhecer a sua verdade e as suas amarras interiores e almejar a um funcionamento psíquico pautado por uma mais livre circulação entre as pulsões e as exigências da realidade, criando um espaço de emancipação e de criatividade que lhe abra novas experiências de vida. 

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Ana Paula Rocha
As máscaras invisíveis das redes sociais
29 de Outubro de 2020
Atualidade

Em Março começámos a usar máscaras que fazem parte desta nova vida trazida pelo vírus. Há quem afirme termos ficado privados das expressões faciais eloquentes de uma certa emocionalidade. Para as crianças pode ainda ser mais complicado, pois, dependendo da idade não têm ainda um mapa interno representativo das emoções.

Para os adultos o olhar é suficientemente dizente e mesmo tendo perdido alguns dos indicadores de expressão podemos ainda ter o tom de voz, postura corporal entre outros.

E as máscaras anteriores ao Covid? Noutro dia uma paciente dizia-me que depois do período de confinamento, começou a sair indo a alguns jantares com amigos. Pareceram-lhe pobres alguns destes encontros. As máscaras invisíveis são as que colocam as pessoas em modo defensivo, fechadas atrás de rostos impassíveis e escudando-se a uma partilha emocional. Dizia ela: “Fala-se de um tudo que é nada porque nos defendemos da intimidade”. Fiquei a pensar no que ela disse. Estamos assim ou fomos sempre assim? Pensei nas redes sociais como o Facebook, Instagram, YouTube e em como elas nos despem em tantos sentidos. Há qualquer coisa de errado quando escolhemos, preferencialmente, estes meios para comunicarmos. 

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Tomás Miguez
Um olhar sobre a Psicose
22 de Outubro de 2020
Psicanálise além do divã

Tendo nascido em Alvalade – um bairro de lisboa – cedo contatei com doentes do Hospital Júlio de Matos, senhores estranhos de aspeto descuidado vagueando pelas ruas. Alguns evocavam em mim temor e sobressalto. Mas este mistério humano da loucura fascinava-me. 

Anos mais tarde integrei uma equipa comunitária que, através de atividades culturais – Teatro, Música, Artes Plásticas, Literatura, Visitas Culturais - procurava apoiar pessoas com um diagnóstico de esquizofrenia, criando contextos que as estimulassem a sentirem-se vivas e a dar sentido às suas vidas. Desde cedo senti que era necessário estar disponível como homem para criar relações com os utentes. Interessar-me pelas suas histórias de vida, respeitar as suas dificuldades, escutar a forma como têm ultrapassado os obstáculos. O olhar que temos face a um sujeito psicótico é de grande importância. A minha experiência tem-me mostrado como é importante termos um olhar direto, não intrusivo, mas disponível e acolhedor. Sem receios. Um olhar que exprima algo benigno. Como dissesse, “Estou disponível e curioso para viajar consigo.”  

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Elias Barreto
Sem-abrigo: evitemos slogans!
15 de Outubro de 2020
Psicanálise além do divã

O discurso acerca dos sem-abrigo tende a radicalizar-se à volta do eixo factores individuais vs estruturais. Ou, se quisermos, o que está dentro ou fora do indivíduo.

Por exemplo, podemos ouvir que a problemática sem-abrigo tem a ver com a doença mental e consumos. Mas também podemos ouvir que é sobretudo um problema de pobreza e de falta de casa. 

Esta discussão é importante e tem consequências. Um dos perigos é poder conduzir a uma atribuição errónea de responsabilidade. Por exemplo, tomar como patologia individual, algo que é da ordem da crise colectiva.  Ou vice-versa. 

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