"Eles não sabem, mas estamos a trazer A Peste"
- Sigmund Freud, em 1909, ao desembarcar em Nova Iorque.
Tomás Miguez
Encontros terapêuticos no Cazaquistão 

Em 2013 fui ao Cazaquistão onde participei num curso de psicoterapia psicanalítica, organizado por uma associação local. O curso era frequentado por naturais do Cazaquistão, maioritariamente mulheres. Diversas alunas pediram-me uma consulta individual. Falei em inglês e sempre na companhia de uma tradutora. A própria situação da consulta – terapeuta, paciente e tradutora – criou-me algum desconforto e hesitação.

Maria Teresa Sá
Perturbação de Défice de Atenção à Saúde Mental Infantil 

Milhares de crianças são diagnosticadas com PHDA e sujeitas a abordagens terapêuticas com psicoestimulantes. Não existe, contudo, marcador biológico da perturbação.

Paulo Azevedo
O fim da paranóia

Parece piada de mau gosto, decretar o fim da paranóia na conjuntura actual: os glaciares esvaem-se deixando a céu aberto carcaças de animais que nunca mais existiram e morreram de doenças que nem podemos imaginar.

Catarina Veiga Fernandes
A fome, o amor e o mal-estar na civilização

“São a fome e o amor que movem o mundo”, palavras do poeta-filósofo Schiller. Freud publica em 1930 ‘Mal-estar na civilização’, evidenciando este antagonismo entre os instintos e a civilização, numa espécie de relação inversa entre a civilização e o livre desenvolvimento dos impulsos.

João Santana Lopes
A propósito do dia do pai

Um dia o meu filho fez-me aquilo que todos os pais temem que os filhos façam - embora, no fundo, o desejem: pediu-me a lua. Desdobrei-me então em argumentos para o convencer de que estava lá muito longe e que eu não lhe chegava. Mas ele insistia: queria aquela bola!

Carlos Farate
A minha tia Alice, a dúvida e a procura da verdade

Desde pequeno que me extasiavam as estórias da tia Alice, de fino recorte narrativo, enunciado assertivo e precisão mnésica infalível. Recordo a atitude altiva, o perfil elegante e finamente mulheril, o sorriso malicioso e a expressão bondosa que “encumeava” uma personalidade magnânima.

Maria Bibas
E quando a psicanálise sai de casa…

No seu comunicado de Bom Ano Novo, Virginia Ungar identificou, como uma das prioridades da administração actual da IPA, a intensificação do contacto e da presença da psicanálise junto da comunidade. Salientou a importância de os psicanalistas “saírem dos seus consultórios” para que a expansão da psicanálise também resulte em real contribuição para o confronto com problemáticas humanas de especial dificuldade, devastação e complexidade.

João Keating
No sono

1. Com quem brincámos na infância? Quem permaneceu dentro de nós olhando carinhosamente a nossa criança? O tempo só se suspende no Inconsciente e é lá que reencontramos a criança que fomos. De lá brotam sonhos: uns felizes, outros amedrontados, uns nostálgicos, outros apenas curiosos. De lá também emergem memórias, construídas com alguém.

Ana Belchior Melícias e Corina Fernandes
Cartografia psicanalítica da SPP*

Almada, A Europa jaz…, 1943

"A Europa jaz, posta nos cotovellos:
De oriente a Occidente jaz, fitando,
E toldam-lhe romanticos cabellos
Olhos gregos, lembrando.
O cotovello esquerdo é recuado;
O direito é em angulo disposto.
Aquelle diz Italia onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se appoia o rosto.
Fita, com olhar sphyngico e fatal,
O Occidente, futuro do passado.
O rosto que fita é Portugal."

Pessoa, Mensagem, 1934

Maria do Carmo Sennfelt
In memoriam

Foi no passado dia 25 de janeiro que, na sede da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, se realizou uma cerimónia de homenagem à vida e obra do Dr Francisco Alvim por ocasião do centenário do seu nascimento.

Cristina Farias Ferreira
A Psicanálise de Poesia

Foi no final do século 19 que Freud escreveu em co -autoria  com Breuer «Estudos sobre a Histeria» e pouco tempo depois publicou « A Interpretação dos sonhos".  Surgia assim a mais revolucionária das ciências do séc. XX, inaugurando-se o estudo do inconsciente e mudando para sempre o paradigma racionalista. Pela mesma altura  Auguste e Louis Lumière fazem em Paris, a 1a apresentação pública do cinematógrafo. Foi tão grande  o impacto de  « L´arrivée d`un train en gare de  La Ciotat » que levou Gorki a escrever « Last night I was in the Kingdom of Shadows».

Sandra Pires
Diário de bordo: A bordo do XXVI Congresso da Sociedade Brasileira de Psicanálise

Muito recentemente tive o privilégio de participar no último Congresso da FEBRAPSI (Federação Brasileira de Psicanálise) realizado em Fortaleza de 1 a 4 de novembro sob o complexo tema da Morte e Vida – novas configurações. Aventura motivada pelo desejo que reconheço intrínseco ao ofício do analista de encetar viagens a bordo da vida. Alma de viajante suponho - por territórios emocionais e paisagens de sensações e sentimentos, por lugares, pessoas antevendo, como Saramago (1997) tão bem enunciou precisarmos de sair de nós, alcançar o longe, o desconhecido, para chegar mais perto. 

Vasco Tavares Santos
Alface ou o escritor sem mestre

A editora Maldoror Livros iniciou a reedição da obra literária de Alface, na passagem dos 10 anos da sua morte. Depois de Cuidado com os Rapazes dá agora à estampa o livro de ensaios de Teresa Carvalho Levantar as Saias ao Diabo; livro este que se constitui como introdução amorável à obra do autor. (Tire-se o chapéu!)

Cristina Farias Ferreira
Cinema Novo, Sempre.

Estreia em março o filme de Eryk Rocha, Cinema Novo, com o mesmo nome do movimento surgido nos anos 60 no Brasil, tendo já sido inaugurado no film & media festival Porto/ Post /Doc (2016).

Conceição Tavares de Almeida
AS ÁRVORES MORREM DE PÉ - Homenagem póstuma a Álvaro de Carvalho

Morreu um homem bom. Médico, Psiquiatra, Diretor do Programa Nacional para a Saúde Mental, formado na (e pela) Psicanálise. Nome de árvore, o Álvaro de Carvalho era um homem vertical, um humanista e uma excelente pessoa.

Maria Teresa Sá
O que seria de nós sem os viajantes!

Transversal a toda a aprendizagem do Encontro, a interculturalidade é uma aprendizagem do singular-plural. E de um lugar terceiro: Eu, Outro e o que podemos construir em conjunto. Um espaço entre, onde coabitam raízes identitárias com florescências criativas por acontecer. Lugar de co-vivência, como diria Edgar Morin, de mestiçagens, alternativa ao pensamento binário, na linha de tensão entre o universal e o singular.  

Henriqueta Martins
Um Natal diferente

Quando entrei na “gruta” de cuidados intensivos neonatais tive a sensação de entrar num bloco operatório, onde é exigida uma série de cuidados de assepsia. São rituais que têm o propósito de proteger o bebé, os pais e os visitantes dos perigos, quer internos quer externos, tendo uma função de envelope físico e psíquico. Lá dentro, deparei-me com mais de uma dezena de incubadoras. Os bebés mal se viam, porque eram minúsculos comparativamente aos tubos e aos monitores maiúsculos, que davam conta dos seus sinais vitais. 

Ana Belchior Melícias
Natal: Mito da origem da vida

Bion diz que “os mitos são os sonhos da humanidade” e o Natal constitui-se inequivocamente como mito da origem da vida. Condensando as fantasias originárias, remete ao mito familiar pessoal e ao mundo interno enquanto narração mítico-onírica. Os seus ícones e rituais, produtos do sincretismo de lendas pagãs e cristãs, reportam-nos à intemporalidade do inconsciente. 

Maria José Gonçalves
Armando Leandro: Uma Personalidade Incontornável - Um testemunho

O Juiz-Conselheiro Dr. Armando Leandro deixou a Presidência da Comissão Nacional de Protecção de Crianças e Jovens em Risco, ao fim de décadas de dedicação à defesa dos direitos das crianças, nos diferentes cargos públicos para que foi nomeado e nas dezenas de iniciativas privadas de que participou.

Vasco Santos
Louvor de Anne Dufourmantelle

Aos 21 de Julho Anne Dufourmantelle morreu acidentalmente na praia de Pampelonne, Ramatuelle. Tinha 53 anos. Ela que escreveu Elogio do Risco (2011) morreria ao tentar salvar, em mar encapelado, duas crianças. “Quando há realmente um perigo ao qual é preciso fazer face […], há um forte impulso à abnegação, à superação do eu”. Sem risco a vida não vale a pena ser vivida.

Tomás Miguez
Os museus como espaços terapêuticos

Durante mais de 10 anos, como psicólogo de uma IPSS na área da saúde mental comunitária - Grupo de Acção Comunitária -, participei em visitas guiadas a museus, acompanhando um grupo de adultos com diagnósticos psiquiátricos de psicose. Desde as primeiras visitas senti que estar num museu podia constituir uma experiência terapêutica para os utentes e para mim próprio. 

Inês Ataíde Gomes
A (louca) ousadia de criar

Desde pequena me recordo do misto de fascínio e medo que a loucura exercia em mim, sentimentos partilhados pelos companheiros de brincadeira, num tempo em que a rua era espaço de liberdade, e se brincava sem supervisão. Apesar da distância de segurança mantida essas figuras nunca passavam despercebidas. A salutar curiosidade infantil prevalecia.

João Santana Lopes
No tempo em que se revelavam fotografias

No seu livro Câmara Clara, Roland Barthes* escreveu: «[…] diz-se "revelar uma foto", mas aquilo que a acção química revela é o "irrevelável", uma essência […], aquilo que não pode transformar-se mas apenas repetir-se sob a forma de insistência».

Ana Catarina Duarte Silva
Conferência Professor Dr. Luís Sobrinho

No dia 19 de Outubro na sede da SPP, tivemos o privilégio de assitir a uma conferência apresentada pelo Professor Dr. Luís Sobrinho, com o curioso título  “Depressão atípica como forma não psicótica de pseudogravidez” 

Sociedade Portuguesa de Psicanálise
Centenário do psicanalista português - Francisco Manuel Barreto Alvim (1917-2017)

A Sociedade Portuguesa de Psicanálise tem a satisfação de celebrar, este ano de 2017, o centenário de Francisco Alvim que foi um dos seus fundadores, o seu primeiro Presidente e o primeiro director da Revista Portuguesa de Psicanálise. 

Conceição Tavares de Almeida
In memoriam

Ao descer a arriba que separa a praia do Meco do frondoso pinhal, avistámos um vulto cinzento e arredondado que parecia ter sido abandonado à beira-mar. Inerte e pesado, apenas o bater das ondas o fazia mover-se, de forma desarmoniosa, oferecendo resistência à doce fluidez daquela manhã de outono. 

Cláudia Milheiro
PORQUE DANÇA O CORPO …porque alguns não o sabem…

O corpo pode ser observado como um objeto transdisciplinar de intervenções e conhecimentos, muitas vezes alheios ao próprio sujeito, em que ritmos, músicas e danças se inscrevem numa linguagem única e numa arte de identidade polifacetada de movimentos e sentimentos.

Sandra Oliveira
O olhar catastrófico do Homem

Face a um mundo que nos impõe um leque variado de fenómenos, seja numa escala global ou numa dimensão mais “caseira”, sentimo-nos desafiados a reflectir sobre a natureza da força e processos que estas situações exercem em nós, e no modo como interagimos com este mundo em constante transformação.

Filipe Cardoso Silva
A Peste cai bem

Gostaria antes de mais de dar os parabéns à SPP, e aos colegas particularmente envolvidos nesta iniciativa, pela criação de um blog e fazer votos para que seja tremendamente pestífero. 

Rita Gameiro
Biblioteca Pedro Luzes

Há espaços que naturalmente nos transportam para atmosferas imaginárias. Mas, como pode um espaço pôr-nos em contacto com uma presença humana? Como podem livros falar-nos sobre alguém que não apenas o seu autor, o seu emaranhado silábico ou novelo narrativo? Como pode um ambiente fechado, silencioso, fazer-nos contactar com os movimentos de quem o desenhou, o alimentou, o viveu?

Rui Aragão Oliveira
O Mundo na mão do meu tio Elói

Na década de 80, quando Portugal vivia intensamente um contacto genuíno com a liberdade recentemente conquistada, as fronteiras dissipavam-se e as oportunidades multiplicavam-se. O acesso a informação e ao mercado de sofisticação tecnológica em franca expansão desencadeava um entusiasmo criativo, que evocava uma potencial e renovada esperança revolucionária.

Ana Teresa Vale
O feminino na pintura da Paula Rego

Começo por dizer que não é fácil para mim escrever sobre a pintura da Paula Rego. A minha experiência quando vejo os seus quadros é poderosa, quase puramente emocional e inconsciente, de tal forma que tenho dificuldade em produzir um discurso verbal sobre isso.

Revista Portuguesa de Psicanálise
Da Liberdade e do Medo - Revista Portuguesa de Psicanálise 37 (1)

A Revista Portuguesa de Psicanálise (RPP) dedica o número 37 (1) a um conjunto de artigos, conferências, comunicações e ensaios que foram apresentados, em Abril de 2016, no XXVII Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, “Da Liberdade e do Medo”. Nesse espaço de diálogo foram-se tecendo e criando pontes, de forma a encontrar ligações entre as experiências teóricas e clínicas da psicanálise com as diversas áreas da cultura presentes neste evento.

Maria Fernanda Alexandre
Trigésima Conferência Anual da Federação Europeia de Psicanálise (FEP)

A trigésima Conferência Anual da Federação Europeia (FEP) realizou-se, de 6 a 9 de Abril de 2017, em Haia - Holanda. O tema deste evento - inspirado nos diferentes acontecimentos políticos e sociais observados em vários países do mundo - foi, nas três línguas oficias da conferência: “Le propre et l’ étranger”, “The Familiar and the Unfamiliar”, “Das Eigene und das Fremde”.