"Eles não sabem, mas estamos a trazer A Peste"
- Sigmund Freud, em 1909, ao desembarcar em Nova Iorque.
Corina Fernandes
Venezuela

Ao contrário do que a geografia nos ensina, a Venezuela é uma ilha. O que poderia ser uma metáfora torna-se uma dura realidade, quando tentamos compreender o seu drama humanitário e a sua crise constitucional. Não deixa de ser uma cruel ironia que o berço do realismo mágico, se tenha transformado na actualidade concreta da sobrevivência. 

Ana Charro Garcia Maria Bibas
“Por isso não provoque, é COR DE ROSA CHOQUE!” Rita Lee

8 de Março de 2019 foi um dia histórico! Em Portugal, nunca tantas pessoas se reuniram sob a égide do feminismo. Mulheres, homens, crianças, pessoas transgénero cantaram em uníssono: "deixa passar, deixa passar, sou feminista e o mundo eu vou mudar". 

Numa cidade ocupada por uma maré de gente sem constrangimento de se nomear feminista, não nos sentíamos só mulheres, só mães, nem ou só psicanalistas, mas cientes de que não temos apenas uma identidade e que podemos marcar presença em diferentes espaços, transitar por entre comunidades e engajarmo-nos num movimento plural, simbólico e simultaneamente intrínseco e coeso.

Freud pergunta-se: “O que quer a mulher?”

Conceição Tavares de Almeida
Quem mata quem

Que semana! Das pensões a mortos, aos juízes e seus juízos, passando pela reviravolta na Liga, para terminar com o festival da canção... e isto com o 8 de março ao virar da esquina! Será o Carnaval a dar o tom para que um cortejo surreal desfile diante do nosso espanto? 

Orlando Cruz Santos
O Congresso de Psicanalistas de Língua Francesa

O CPLF (Congresso de Psicanalistas de Língua francesa) foi criado e é gerido pela Sociedade Psicanalítica de Paris. Este congresso dirige-se aos membros das sociedades componentes belga (SBP), canadiana (SCP), espanholas (SPE e SPM), francesas (APF e SPP), grega (HPS), israelita (SPIs), italianas (SPI e AIP), Portuguesas (SPP e NPP) e suíça (SSP), como a outros analistas das sociedades componentes da Associação Psicanalítica Internacional (IPA) e aos analistas em formação nos institutos destas sociedades.

Jorge Câmara
“Os olhos dos pobres”

Gilles Deleuze (1992) afirma que as questões com que a psicanálise se defronta são inevitavelmente políticas mesmo as que ocorrem no seio da família ou no interior do sujeito. Como seremos afetados enquanto cidadãos e psicanalistas pelos movimentos sociopolíticos onde grassa a intolerância da subjetividade e do esmagamento da alteridade?

Conceição Tavares de Almeida
Uma psicanalista no Parlamento Europeu

Palavras há que, quando nas nossas mentes são evocadas, abrem acesso a lugares internos à beira de se interceptar e de se significar. 

Para mim Bruxelas rima com janelas! Através delas espreitam: os bombons de Brel, Hergé com o seu Tintim, o cuco que (não) gostava de couves e... a Europa! Sonho de alguns para a convergência do interesse de muitos.

Rumo a Bruxelas, a viagem é tanto acessível quanto aprazível. 

Alexandra Coimbra Ana Catarina Duarte Silva Isabel Prata
O Caminho para a Psicanálise

Recentemente terminámos a passagem pela Direção do Instituto de Psicanálise. Nessas funções, uma das nossas missões foi fazer primeiras entrevistas a pessoas que procuravam o Instituto na sua vertente clínica. Foi uma tarefa que nos suscitou bastantes questões, entre elas as que dizem respeito aos caminhos possíveis para iniciar uma análise e ao papel das primeiras entrevistas nesse caminho.

Eugénia Soares
A Escuta do(s) Corpo(s)

Sim: Existo Dentro do Meu Corpo

“Sim: existo dentro do meu corpo. 
Não trago o sol nem a lua na algibeira. 
Não quero conquistar mundos porque dormi mal, 
Nem almoçar a terra por causa do estômago. 
Indiferente? 
Não: natural da terra, que se der um salto, está em falso, 
Um momento no ar que não é para nós, 
E só contente quando os pés lhe batem outra vez na terra, 
Traz! na realidade que não falta!”
 

Poemas Inconjuntos”. Poemas Completos de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa, Lisboa: Presença, 1994.

A convite, apresentei, no passado dia 26 de janeiro, um caso clínico a Fernando Orduz, no II Encontro de Candidatos da IPSO, “O Corpo Psicanalítico- Teoria, Técnica e Prática”.

Conheci-o no Congresso “Modificações no Corpo” em 2017 e, desde então, sempre que o via/ouvia associava-o imediatamente a uma sensação de movimento e de liberdade.

Questionava-me como ele seria em contexto de supervisão. Que postura adoptaria? Que visões traria sobre um dos pilares fundamentais da formação psicanalítica, introduzida por Abraham, Eitingon e Simmel no Instituto de Berlim na década de 20?

Vasco Santos
Por uma Psicanálise irreverente

O livro de Antonino Ferro, Pensamentos de um psicanalista irreverente, Guia para analistas e pacientes curiosos,1 afasta-nos, céleres, da charla e do crachá.

João Santana Lopes
Retrato de Família

As crianças desenham a sua família de mil maneiras. Para além de construírem diferentes cenários familiares, estes desenhos parecem ser verdadeiras encenações em que elas inventam várias famílias e experimentam outras tantas maneiras de nelas e com elas viverem. Colocam no desenho só quem querem que lá esteja e a fazerem o que elas querem que eles façam, realizando assim os seu desejo, ou então desenham quem receiam que lá possa estar, para os controlarem melhor. Posicionam-se a si próprias, em relação aos restantes, na posição em que se vêem na sua família, outras vezes naquela em que gostavam de estar, outras ainda naquela em que mais temem vir a ficar, fazendo neste caso desenhos que mais parecem rituais de exorcização dos seus medos. Quando um desses desenhos materializa de forma particularmente conseguida algum dos mitos mais inquietantes daquele que o desenhou, fica condenado a permanecer colado na parede por mais tempo do que seria de prever. Por vezes não é fácil perceber porquê. Nessa altura intervêm os pais.

Rita Gameiro
Luz e melancolia na pintura de Joaquín Sorolla

A recente visita à exposição Terra Adentro - A Espanha de Joaquín Sorolla, patente no Museu Nacional de Arte Antiga do Mestre da luz, desencadeou em mim sentimentos de comoção e curiosidade. Este acervo oferece uma perspectiva da sua evolução como pintor, reconhecido mundialmente pela sua técnica única de reprodução de paisagens e retratos.

Jorge Câmara
A outra  margem 

No quarto entrou a lua tão cheia e tão bela. É o entardecer de Dezembro e agarro a tua mão ainda quente, não sei se para te sentir ou porque esperas a passagem para a outra margem. Na sala não estamos sós. De pé atenta e invisível está uma dama de foice paciente e escura. Balbucias algo parecendo estar num tempo e espaço do pó das estrelas a que chamamos inconsciente.  Ainda não partiste? Porque esperas? A minha mãe antes de morrer sonhou que os avôs a vinham buscar calmos e sorridentes. Não sei para quem falas mas vejo-te menina na praia, sabes, naquela da Penha d’Águia onde parecias da cor das sereias. Paro mais um pouco e estamos no engenho do açúcar, o cheiro a peixe fresco saindo pelas escadas enquanto ouvíamos o coaxar das rãs e as pedras batidas no mar. Olho para a tua face sumida e espreito memórias da bebé de sua mãe. Não sei por quem chamas mas agarro a tua mão até entrares no bosque da nossa infância. Um dia voltaremos a brincar.  Imagem: As etapas da vida (1834), Caspar David Friedrich

Deolinda Santos Costa
Sodade

O método psicanalítico tem na associação livre um dos instrumentos para aceder ao inconsciente. Mas, se pensarmos bem, a associação livre é a chave do pensamento criativo, do pensamento que ousa explorar os continentes ignotos da mente. Quando isso acontece, encontramos nexos imprevisíveis na própria realidade, como se tudo tivesse a ver com tudo (o princípio da analogia soberano). 

Ana Teresa Vale
A Valsa com Bashir

No âmbito do ciclo de cinema “Há um psicanalista na plateia”, foi exibido o filme “A Valsa com Bashir”, a seguir ao qual ocorreu uma conversa interessante entre Maria do Carmo Sousa Lima e Clara Rowland, moderada por João Mendes Ferreira. A conversa versou vários aspetos do filme, mas centrou-se sobretudo no tema do ciclo – O trauma no cinema.

Tiago Chagas
Um regresso a casa – com Christopher Bollas em Paris

Ah não me venham dizer oh não quero saber ah quem me dera esquecer

Só e incerto é que o poema é aberto e a Palavra flui inesgotável!

Mário Cesariny

Longe de estar familiarizado com toda a metapsicologia de Christopher Bollas, ou sequer com a sua maior parte, tinha tido contacto apenas com alguns conceitos e implicações técnicas, que haviam despertado em mim a curiosidade suficiente para nunca mais o largar.

Ana Charro Garcia
Psicanálise e Política

Imaginemos uma conversa entre amigos, adultos, alguns casados e com filhos. Todos com empregos estáveis e até há quem tenha cargos de chefia e de direcção. A conversa é dominada por uma desconcertante disputa em que cada um reclama para si o troféu de trabalhar mais horas por dia.

Vasco Santos
Bruno de Carvalho, o sintoma

No tempo que faz, vivemos todos penhorados ao caso Bruno de Carvalho. Qual Quixote, com o seu escudeiro tatuado Mustafá, ilustra, tal como no romance de Cervantes, que a fuga à realidade é uma aspiração do humano.

Maria Teresa Sá
Casas e Pessoas

Há casas cuja beleza começa no projecto (…) 

Há casas feitas à medida do homem (…)

Eugénio de Andrade 

A figura humana e a casa são dos primeiros temas que a criança representa nos seus desenhos. O tempo que lhes dedica e a concentração com que o faz revelam a importância que têm na sua vida. As primeiras representações gráficas da casa são por vezes curiosamente humanizadas, as “casas/pessoa”. 

Cristina Farias Ferreira
11´09´´01 - September 11 

Já se passaram mais de 17 anos sobre o ataque terrorista aos  Estado Unidos e faz já vários anos que vi pela 1ª vez, numa   cativante aula da Escola Superior de Teatro e Cinema um dos filmes sobre o 11 de Setembro de 2001.

Comissão Organizadora ESPAÇO (In)finito: PSICANÁLISE e interseção de lugares
ESPAÇO (In)finito: PSICANÁLISE e interseção de lugares

 Ao trazer este tema para a organização do próximo Colóquio, a SPP pretende criar uma oportunidade — um espaço de tempo numa «modernidade líquida» (Bauman, 2001) — para poder pensar. 

Maria do Carmo Sennfelt
As férias de Freud em Lavarone

Lavarone, uma pequena localidade situada num planalto dos Dolomitas, não muito longe da cidade de Trento, foi descoberta por Freud, no verão de 1900, quando, rumo ao sul de Itália, na companhia da cunhada, aí passou uns dias.

Inês A. Gomes
Quando as estrelas se apagam.

A 1 de Outubro chegou-nos a notícia de que morreu aos 94 anos, na sua residência no sul de França, o menino que cresceu por entre os palcos de Paris, e que fez a música francesa transpor todas as distâncias – Charles Aznavour. Eleito “artista do Século” pela CNN em 1988, deixa um rasto sonoro, uma inscrição mnésica que atravessa gerações fazendo com que muitos o entoem mesmo sem reconhecer por vezes a origem nas notas que trauteiam.

Catarina Veiga Fernandes
Robert Mapplethorpe: Psicanálise na política da arte

A obra de Freud mostra-nos uma ligação indissociável entre a sexualidade e a moralidade. A eliminação de uma levando ao desaparecimento da outra.

Maria Teresa Sá
Kairos, o tempo oportuno

O TEMPO, esse grande escultor Marguerite Yourcenar  Kairos representa na mitologia grega o tempo existencial, subjetivo, qualitativo, essencialmente indeterminado, o tempo oportuno, por oposição a Chronos, o tempo cronológico, sequencial, o tempo que se pode medir. 

Maria Bibas
Feminino e os poetas que procuram

“…passas em exposição, Passas sem ver teu vigia Catando a poesia que entornas no chão”

Conceição Melo Almeida
Crianças e adolescentes com ritalina

Trabalho num serviço público de tratamento de adições. Há dias numa reunião clínica discutíamos  sobre  psicoses tóxicas, a propósito de uma interessante comunicação apresentada  no último congresso nacional de psiquiatria pela colega, a psiquiatra  Manuela Fraga, intitulada "Normabilidades". Simplificando, são psicoses ou estados  psicóticos, desencadeados por substâncias, tais como as anfetaminas, sendo que nesta matéria se aplica o chavão do" ovo e  da galinha".

Elias Barreto
É subjectivo. E então?

As palavras “subjectivo”, “fantasia”, “ história” têm actualmente a conotação de algo que está de costas voltadas para a realidade. Dizer “isso é muito subjectivo”, “Isso é uma fantasia” ou “isso são histórias” acarreta implicitamente uma desqualificação do que está a ser dito, como menos real e verdadeiro. 

Vasco Santos
ARQUITECTURA E MELANCOLIA

A psicanálise tem de ser entendida como uma hermenêutica da cultura,só assim ela se inscreve no movimento da cultura contemporânea e se constituiu como pilar fundamental da modernidade.  Portanto, mais que uma clínica, uma análise é a experiência ética do desejo do sujeito falante levado até à sua condição de mortal, como explicou Lacan.

Filipe Sá
A acupunctura cura

  Uma fascite plantar, de início insidioso e assento persistente, acompanha-me há uns anos, caprichosa na dor aguda alternante. Três sessões por semana dão forma ao meu tratamento com o Dr. MT, especialista japonês em acupunctura. Vou no sexto mês de tratamento, até agora nada. 

Isabel Prata Duarte
13ª International Sandor Ferenczi Conference - Ferenczi in Our Time and A Renaissance of Psychoanalysis

Realizou-se em Florença, de 3 a 6 de Maio, a 13ª International Sandor Ferenczi Conference - Ferenczi in Our Time and A Renaissance of Psychoanalysis”. O Congresso proporcionou um encontro intensivo com Ferenczi e a sua história, a relação de paciente - analista e de discípulo - mestre com Freud e a relação conturbada, pessoal e epistolar que ambos mantiveram ao longo de 25 anos. Também os seus pacientes, o diário clínico e a paciente especial Elizabeth Severn com a qual fez a experiência revolucionária e arriscada da psicanálise mútua. 

Ana Belchior Melícias
Verso, inverso, diverso

O que é um livro enquanto objeto, senão o paradoxo de ser o espaço intelectual por excelência aliado a um prazer sensorial único, interlaçando ética e estética?  

João Galamba de Almeida
OBSESSÕES e (in)fidelidades: Desejo vs Defesa em Salome (Richard Strauss, a partir de Oscar Wilde)

Serei o único a considerar esta interpretação um pilar essencial da cultura ocidental?!  Diria que o meu fascínio por [esta] Salome é uma absoluta obsessão…

Rita Gameiro
Flores de Abril

Ensinaste-me tudo sem que eu desse por isso. E talvez por isso tenha ficado o mistério, para sempre em mim, de não pretender entender. Ensinaste-me sem que te desses conta de que eu tivesse prestado atenção, e isso foi o melhor que pudeste dar-me.

Tomás Miguez
Encontros terapêuticos no Cazaquistão 

Em 2013 fui ao Cazaquistão onde participei num curso de psicoterapia psicanalítica, organizado por uma associação local. O curso era frequentado por naturais do Cazaquistão, maioritariamente mulheres. Diversas alunas pediram-me uma consulta individual. Falei em inglês e sempre na companhia de uma tradutora. A própria situação da consulta – terapeuta, paciente e tradutora – criou-me algum desconforto e hesitação.

Maria Teresa Sá
Perturbação de Défice de Atenção à Saúde Mental Infantil 

Milhares de crianças são diagnosticadas com PHDA e sujeitas a abordagens terapêuticas com psicoestimulantes. Não existe, contudo, marcador biológico da perturbação.

Paulo Azevedo
O fim da paranóia

Parece piada de mau gosto, decretar o fim da paranóia na conjuntura actual: os glaciares esvaem-se deixando a céu aberto carcaças de animais que nunca mais existiram e morreram de doenças que nem podemos imaginar.

Catarina Veiga Fernandes
A fome, o amor e o mal-estar na civilização

“São a fome e o amor que movem o mundo”, palavras do poeta-filósofo Schiller. Freud publica em 1930 ‘Mal-estar na civilização’, evidenciando este antagonismo entre os instintos e a civilização, numa espécie de relação inversa entre a civilização e o livre desenvolvimento dos impulsos.

João Santana Lopes
A propósito do dia do pai

Um dia o meu filho fez-me aquilo que todos os pais temem que os filhos façam - embora, no fundo, o desejem: pediu-me a lua. Desdobrei-me então em argumentos para o convencer de que estava lá muito longe e que eu não lhe chegava. Mas ele insistia: queria aquela bola!

Carlos Farate
A minha tia Alice, a dúvida e a procura da verdade

Desde pequeno que me extasiavam as estórias da tia Alice, de fino recorte narrativo, enunciado assertivo e precisão mnésica infalível. Recordo a atitude altiva, o perfil elegante e finamente mulheril, o sorriso malicioso e a expressão bondosa que “encumeava” uma personalidade magnânima.

Maria Bibas
E quando a psicanálise sai de casa…

No seu comunicado de Bom Ano Novo, Virginia Ungar identificou, como uma das prioridades da administração actual da IPA, a intensificação do contacto e da presença da psicanálise junto da comunidade. Salientou a importância de os psicanalistas “saírem dos seus consultórios” para que a expansão da psicanálise também resulte em real contribuição para o confronto com problemáticas humanas de especial dificuldade, devastação e complexidade.

João Keating
No sono

1. Com quem brincámos na infância? Quem permaneceu dentro de nós olhando carinhosamente a nossa criança? O tempo só se suspende no Inconsciente e é lá que reencontramos a criança que fomos. De lá brotam sonhos: uns felizes, outros amedrontados, uns nostálgicos, outros apenas curiosos. De lá também emergem memórias, construídas com alguém.

Ana Belchior Melícias e Corina Fernandes
Cartografia psicanalítica da SPP*

Almada, A Europa jaz…, 1943

"A Europa jaz, posta nos cotovellos:
De oriente a Occidente jaz, fitando,
E toldam-lhe romanticos cabellos
Olhos gregos, lembrando.
O cotovello esquerdo é recuado;
O direito é em angulo disposto.
Aquelle diz Italia onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se appoia o rosto.
Fita, com olhar sphyngico e fatal,
O Occidente, futuro do passado.
O rosto que fita é Portugal."

Pessoa, Mensagem, 1934

Maria do Carmo Sennfelt
In memoriam

Foi no passado dia 25 de janeiro que, na sede da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, se realizou uma cerimónia de homenagem à vida e obra do Dr Francisco Alvim por ocasião do centenário do seu nascimento.

Cristina Farias Ferreira
A Psicanálise de Poesia

Foi no final do século 19 que Freud escreveu em co -autoria  com Breuer «Estudos sobre a Histeria» e pouco tempo depois publicou « A Interpretação dos sonhos".  Surgia assim a mais revolucionária das ciências do séc. XX, inaugurando-se o estudo do inconsciente e mudando para sempre o paradigma racionalista. Pela mesma altura  Auguste e Louis Lumière fazem em Paris, a 1a apresentação pública do cinematógrafo. Foi tão grande  o impacto de  « L´arrivée d`un train en gare de  La Ciotat » que levou Gorki a escrever « Last night I was in the Kingdom of Shadows».

Sandra Pires
Diário de bordo: A bordo do XXVI Congresso da Sociedade Brasileira de Psicanálise

Muito recentemente tive o privilégio de participar no último Congresso da FEBRAPSI (Federação Brasileira de Psicanálise) realizado em Fortaleza de 1 a 4 de novembro sob o complexo tema da Morte e Vida – novas configurações. Aventura motivada pelo desejo que reconheço intrínseco ao ofício do analista de encetar viagens a bordo da vida. Alma de viajante suponho - por territórios emocionais e paisagens de sensações e sentimentos, por lugares, pessoas antevendo, como Saramago (1997) tão bem enunciou precisarmos de sair de nós, alcançar o longe, o desconhecido, para chegar mais perto. 

Vasco Tavares Santos
Alface ou o escritor sem mestre

A editora Maldoror Livros iniciou a reedição da obra literária de Alface, na passagem dos 10 anos da sua morte. Depois de Cuidado com os Rapazes dá agora à estampa o livro de ensaios de Teresa Carvalho Levantar as Saias ao Diabo; livro este que se constitui como introdução amorável à obra do autor. (Tire-se o chapéu!)

Cristina Farias Ferreira
Cinema Novo, Sempre.

Estreia em março o filme de Eryk Rocha, Cinema Novo, com o mesmo nome do movimento surgido nos anos 60 no Brasil, tendo já sido inaugurado no film & media festival Porto/ Post /Doc (2016).

Conceição Tavares de Almeida
AS ÁRVORES MORREM DE PÉ - Homenagem póstuma a Álvaro de Carvalho

Morreu um homem bom. Médico, Psiquiatra, Diretor do Programa Nacional para a Saúde Mental, formado na (e pela) Psicanálise. Nome de árvore, o Álvaro de Carvalho era um homem vertical, um humanista e uma excelente pessoa.

Maria Teresa Sá
O que seria de nós sem os viajantes!

Transversal a toda a aprendizagem do Encontro, a interculturalidade é uma aprendizagem do singular-plural. E de um lugar terceiro: Eu, Outro e o que podemos construir em conjunto. Um espaço entre, onde coabitam raízes identitárias com florescências criativas por acontecer. Lugar de co-vivência, como diria Edgar Morin, de mestiçagens, alternativa ao pensamento binário, na linha de tensão entre o universal e o singular.  

Henriqueta Martins
Um Natal diferente

Quando entrei na “gruta” de cuidados intensivos neonatais tive a sensação de entrar num bloco operatório, onde é exigida uma série de cuidados de assepsia. São rituais que têm o propósito de proteger o bebé, os pais e os visitantes dos perigos, quer internos quer externos, tendo uma função de envelope físico e psíquico. Lá dentro, deparei-me com mais de uma dezena de incubadoras. Os bebés mal se viam, porque eram minúsculos comparativamente aos tubos e aos monitores maiúsculos, que davam conta dos seus sinais vitais. 

Ana Belchior Melícias
Natal: Mito da origem da vida

Bion diz que “os mitos são os sonhos da humanidade” e o Natal constitui-se inequivocamente como mito da origem da vida. Condensando as fantasias originárias, remete ao mito familiar pessoal e ao mundo interno enquanto narração mítico-onírica. Os seus ícones e rituais, produtos do sincretismo de lendas pagãs e cristãs, reportam-nos à intemporalidade do inconsciente. 

Maria José Gonçalves
Armando Leandro: Uma Personalidade Incontornável - Um testemunho

O Juiz-Conselheiro Dr. Armando Leandro deixou a Presidência da Comissão Nacional de Protecção de Crianças e Jovens em Risco, ao fim de décadas de dedicação à defesa dos direitos das crianças, nos diferentes cargos públicos para que foi nomeado e nas dezenas de iniciativas privadas de que participou.

Vasco Santos
Louvor de Anne Dufourmantelle

Aos 21 de Julho Anne Dufourmantelle morreu acidentalmente na praia de Pampelonne, Ramatuelle. Tinha 53 anos. Ela que escreveu Elogio do Risco (2011) morreria ao tentar salvar, em mar encapelado, duas crianças. “Quando há realmente um perigo ao qual é preciso fazer face […], há um forte impulso à abnegação, à superação do eu”. Sem risco a vida não vale a pena ser vivida.

Tomás Miguez
Os museus como espaços terapêuticos

Durante mais de 10 anos, como psicólogo de uma IPSS na área da saúde mental comunitária - Grupo de Acção Comunitária -, participei em visitas guiadas a museus, acompanhando um grupo de adultos com diagnósticos psiquiátricos de psicose. Desde as primeiras visitas senti que estar num museu podia constituir uma experiência terapêutica para os utentes e para mim próprio. 

Inês Ataíde Gomes
A (louca) ousadia de criar

Desde pequena me recordo do misto de fascínio e medo que a loucura exercia em mim, sentimentos partilhados pelos companheiros de brincadeira, num tempo em que a rua era espaço de liberdade, e se brincava sem supervisão. Apesar da distância de segurança mantida essas figuras nunca passavam despercebidas. A salutar curiosidade infantil prevalecia.

João Santana Lopes
No tempo em que se revelavam fotografias

No seu livro Câmara Clara, Roland Barthes* escreveu: «[…] diz-se "revelar uma foto", mas aquilo que a acção química revela é o "irrevelável", uma essência […], aquilo que não pode transformar-se mas apenas repetir-se sob a forma de insistência».

Ana Catarina Duarte Silva
Conferência Professor Dr. Luís Sobrinho

No dia 19 de Outubro na sede da SPP, tivemos o privilégio de assitir a uma conferência apresentada pelo Professor Dr. Luís Sobrinho, com o curioso título  “Depressão atípica como forma não psicótica de pseudogravidez” 

Sociedade Portuguesa de Psicanálise
Centenário do psicanalista português - Francisco Manuel Barreto Alvim (1917-2017)

A Sociedade Portuguesa de Psicanálise tem a satisfação de celebrar, este ano de 2017, o centenário de Francisco Alvim que foi um dos seus fundadores, o seu primeiro Presidente e o primeiro director da Revista Portuguesa de Psicanálise. 

Conceição Tavares de Almeida
In memoriam

Ao descer a arriba que separa a praia do Meco do frondoso pinhal, avistámos um vulto cinzento e arredondado que parecia ter sido abandonado à beira-mar. Inerte e pesado, apenas o bater das ondas o fazia mover-se, de forma desarmoniosa, oferecendo resistência à doce fluidez daquela manhã de outono. 

Cláudia Milheiro
PORQUE DANÇA O CORPO …porque alguns não o sabem…

O corpo pode ser observado como um objeto transdisciplinar de intervenções e conhecimentos, muitas vezes alheios ao próprio sujeito, em que ritmos, músicas e danças se inscrevem numa linguagem única e numa arte de identidade polifacetada de movimentos e sentimentos.

Sandra Oliveira
O olhar catastrófico do Homem

Face a um mundo que nos impõe um leque variado de fenómenos, seja numa escala global ou numa dimensão mais “caseira”, sentimo-nos desafiados a reflectir sobre a natureza da força e processos que estas situações exercem em nós, e no modo como interagimos com este mundo em constante transformação.

Filipe Cardoso Silva
A Peste cai bem

Gostaria antes de mais de dar os parabéns à SPP, e aos colegas particularmente envolvidos nesta iniciativa, pela criação de um blog e fazer votos para que seja tremendamente pestífero. 

Rita Gameiro
Biblioteca Pedro Luzes

Há espaços que naturalmente nos transportam para atmosferas imaginárias. Mas, como pode um espaço pôr-nos em contacto com uma presença humana? Como podem livros falar-nos sobre alguém que não apenas o seu autor, o seu emaranhado silábico ou novelo narrativo? Como pode um ambiente fechado, silencioso, fazer-nos contactar com os movimentos de quem o desenhou, o alimentou, o viveu?

Rui Aragão Oliveira
O Mundo na mão do meu tio Elói

Na década de 80, quando Portugal vivia intensamente um contacto genuíno com a liberdade recentemente conquistada, as fronteiras dissipavam-se e as oportunidades multiplicavam-se. O acesso a informação e ao mercado de sofisticação tecnológica em franca expansão desencadeava um entusiasmo criativo, que evocava uma potencial e renovada esperança revolucionária.

Revista Portuguesa de Psicanálise
Da Liberdade e do Medo - Revista Portuguesa de Psicanálise 37 (1)

A Revista Portuguesa de Psicanálise (RPP) dedica o número 37 (1) a um conjunto de artigos, conferências, comunicações e ensaios que foram apresentados, em Abril de 2016, no XXVII Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, “Da Liberdade e do Medo”. Nesse espaço de diálogo foram-se tecendo e criando pontes, de forma a encontrar ligações entre as experiências teóricas e clínicas da psicanálise com as diversas áreas da cultura presentes neste evento.

Maria Fernanda Alexandre
Trigésima Conferência Anual da Federação Europeia de Psicanálise (FEP)

A trigésima Conferência Anual da Federação Europeia (FEP) realizou-se, de 6 a 9 de Abril de 2017, em Haia - Holanda. O tema deste evento - inspirado nos diferentes acontecimentos políticos e sociais observados em vários países do mundo - foi, nas três línguas oficias da conferência: “Le propre et l’ étranger”, “The Familiar and the Unfamiliar”, “Das Eigene und das Fremde”.

Ana Teresa Vale
O feminino na pintura da Paula Rego

Começo por dizer que não é fácil para mim escrever sobre a pintura da Paula Rego. A minha experiência quando vejo os seus quadros é poderosa, quase puramente emocional e inconsciente, de tal forma que tenho dificuldade em produzir um discurso verbal sobre isso.