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Biblioteca Pedro Luzes

Há espaços que naturalmente nos transportam para atmosferas imaginárias. Mas, como pode um espaço pôr-nos em contacto com uma presença humana? Como podem livros falar-nos sobre alguém que não apenas o seu autor, o seu emaranhado silábico ou novelo narrativo? Como pode um ambiente fechado, silencioso, fazer-nos contactar com os movimentos de quem o desenhou, o alimentou, o viveu?

Não conheci Pedro Luzes. Quando pude travar contacto consigo já a mancha da doença se alastrara sobre si. Não pude testemunhar ou comprovar o que me diziam sobre si: ser um homem mergulhado no interesse pelo conhecimento, pela investigação. E pela literatura, no seu prisma humanitário. Psicanalista, e um dos fundadores da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, foi também ele um autor profícuo. Interessou-se profundamente pela obra de outros autores, acredito que atraído pelo que nela podia ler sobre quem a escrevera, como se aí pudesse perscrutar os seus dramas e conflitos, a fantasia do romance familiar. Embrenhou-se de tal forma na obra e na vida do romancista português Eça de Queiroz que publicou artigos sobre este autor e uma vasta e interessante obra: Sob o manto diáfano do realismo – Psicanálise de Eça de Queiroz (2001).

Não conheci Pedro Luzes como professor, formador ou mesmo como supervisor. Não privei com ele, nem meramente pude viver consigo um encontro ocasional, uma conversa frugal sobre nada. Não posso relembrar o seu tom de voz, não me recordo dele irritado ou alegre. Não posso dizer que com ele vivi momentos de intimidade, como no encontro analítico nos permitimos viver. Mas nunca poderei dizer que nada me ensinou. A biblioteca Pedro Luzes trouxe-me algo que eu não sabia que tinha perdido. A sua colecção de livros, doada em 2011 por Amélia Luzes, sua esposa, à Sociedade Portuguesa de Psicanálise, ocupa agora um lugar na casa que também foi dele. Perante as suas estantes, imagino como terá construído, ordenado e organizado a sua coleção. Numa imensidão de literatura variada, predomina a psicanalítica. Sigmund Freud destaca-se sob as mais variadas vertentes: múltiplos exemplares testemunham a sua vasta obra científica a par com biografias de vários autores, como se aqui Pedro Luzes nos pudesse mostrar como a vida de um autor é inseparável da obra que gera. Estantes fora e encontramos autores desavindos, relembramos disputas acesas, clivagens, rupturas. Porém, neste espaço parecem aceitar conviver, numa efémera reconciliação.

A biblioteca Pedro Luzes é mais do que um espólio de livros catalogados ou arquivo de obras lidas, relidas, manuseadas. É mais do que uma herança. Creio ser um espaço que transporta consigo a história da Sociedade e de um dos seus fundadores. É também o espaço onde por breves momentos sinto que conheço Pedro Luzes.