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Um escritor não morre nunca

O humano acariciou o lombo do gato /- Bem, gato, conseguimos – disse suspirando / – Sim, à beira do vazio compreendeu o mais importante – miou Zorbas / – Ah, sim? E o que é que ela compreendeu? – perguntou o humano/ – Que só voa quem se atreve a fazê-lo – miou Zorbas.

História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar, Luis Sepúlveda

O dia amanheceu cinzento e triste com a notícia da morte de Luis Sepúlveda. 

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O ÓBVIO REAL

José Miguel Wisnik, professor, ensaísta e compositor, termina o seu artigo de opinião publicado no jornal Folha de São Paulo do dia 20 de Março com as seguintes palavras:

“…o real é o poder da realidade quando envolve a todos de maneira incontornável. Real é aquilo que não dá para não ver, mesmo que seja invisível, como um vírus.”

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Os nossos apartamentos

SINAIS, a crónica de Fernando Alves, fez hoje pela manhã chegar às nossas casas a espuma dos dias em que navegamos. Falou ele dos velhos e do apartamento a que estão confinados. Escutei, memórias ainda frescas, as palavras de indignação que fui lendo e ouvindo durante a semana, por aqui e por ali, a respeito dos velhos que teimam em ir aos jardins, em procurar os amigos das jogatinas, sentar-se nos bancos (que agora estão vedados com fitas de bloqueio) ou passear por seis vezes até ao supermercado em vez da vez que lhes está destinada e que, assim, se infectam e nos infectam. Apartamento, dizia homem da rádio, buscando-lhe a etimologia: apartar, deixar de fora, excluir. Dizia também velhos e não idosos, que lembra leprosos. O homem da rádio, de uma Telefonia Sem Fios, procura diariamente os sinais da nossa humanidade e manter-nos ligados ao mais essencial, ao que a peste nos pode fazer perder ou esquecer, ao que fomos já apartando das nossas vidas mesmo antes de ela chegar, à nossa doença colectiva. 

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A vida em tempos de Corona II

”C’est ainsi qu’un sentiment de la séparation d’avec un être aimé devint soudain, dès les premières semaines, celui de tout un peuple.”  Albert Camus, “A Peste”.

Como pode um pequeno bicho abalar um mundo inteiro?

A vida ficou suspensa. Veio a crise, o medo e as medidas de contenção, e tivemos que reinventar a vida em poucos dias…

Mas a onda de estranheza ainda paira no ar… 

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Entre a química e a biologia!

Entre o real concreto e o real ficcional!

Fiquei a saber que os filmes com zombies foram inspirados pelo conhecimento que temos dos vírus. São seres que se encontram no limite da vida e que só no contacto com um ser vivo, parasitando-o, usando-o, se tornam vivos, podendo a seguir ir-se embora. Que a sua própria sobrevivência depende da sobrevivência do ser que parasitam. Assim, este vírus ainda não aprendeu a viver e está a fazê-lo à custa desta pandemia.

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Mais voir un ami pleurer… !

Que tipo de sociedade é esta, em que se encontra a mais profunda solidão no seio de tantos milhões?

Karl Marx (1846)

A pandemia associada à COVID-19 tomou conta das nossas vidas e da nossa mente. Uma brutal irrupção bloqueou a fantasia e tornou-nos a todos prisioneiros do real, potenciais traumatizados de guerra, refugiados no conforto de uma casa própria. Na confluência do exterior e do interior, uma sensação de vulnerabilidade desconhecida, de incerteza e de falta de controle, fez colapsar áreas de confiança num ambiente habitualmente previsível. 

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O Fascínio de Leonardo

Neste tempo de incerteza e inquietação, em que a maioria de nós se encontra em casa de quarentena, será possível encontrar espaço para a arte? Sinto-o não só possível como necessário.

Uma obra, seja ela escultórica, literária, fotográfica, musical, cinematográfica, ou plástica, tem em si o potencial de desencadear em nós cadeias associativas, que abrem caminho para um pensamento menos saturado, aumentando a nossa tolerância ao desconhecido e assim a nossa capacidade de reverie (a capacidade de permanecer com uma atitude receptiva, de acolher, descodificar, significar e nomear as angústias, para depois as devolver devidamente desintoxicadas). 

E talvez por isso me surja a necessidade de convosco partilhar uma experiência de maravilhamento. 

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